Velhos costumes

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A garotinha com roupa de hospital correu até a septuagenária que chegara à enfermaria numa cadeira de rodas pela quinta vez naquele mês: “Minha mãe odeia a senhora, mas eu te amo tanto”. Ah, a inocência e a espontaneidade das crianças. A mãe da menina logo a puxou pelo braço e levou até o leito onde ela estava em observação. Câncer no cérebro, a pobre menina estava aguardando resultados de exames e início da quimioterapia para então ser operada, a ala pediátrica estava interditada por causa de casos de infecção hospitalar e o oncologista resolveu colocá-la junto dos adultos para evitar que a mãe voltasse para o interior e entregasse o destino da filha nas mãos do pastor local.

A história das duas começou ao mesmo tempo, ou melhor, a da menina começara e a da senhora entrara na reta final, na verdade.

As enfermeiras desconfiavam que Dona Diva simulava as crises de desmaio para voltar ao hospital e ficar perto da menina. Os médicos não concordavam, como eles sempre fazem. Preferiam deixá-la por dois dias em observação e a liberar quando tivessem certeza de que não aconteceriam novas crises. A velha não tinha mais família, todos fizeram questão de morrer antes dela. Morava sozinha no primeiro andar de um prédio antigo e quando passava mal ligava para o vizinho de seu celular de ultima geração pedindo socorro.

As duas se conheceram na primeira internação das vidas delas. Na ocasião, as enfermeiras tentavam convencer a criança a deixá-las colher sangue para exames, dizendo que não doeria e que seria rápido. A senhora chegou devagar e desmentiu em alto e bom tom, olhando nos olhos da garota, disse que doeria muito e que era melhor ela se acostumar, pois aquilo seria sua rotina a partir dali.  As enfermeiras e a mãe da garota ficaram furiosas mas contentes porque a menina parou de se debater e estendeu o braço para a agulhada.

Minutos depois Dona Diva se aproximou novamente, passou a mão nos cabelos da menina e disse que uma cuidaria da outra. A menina assustada não falava nada, só consentira balançando a cabeça os olhos brilhando de medo do que estava por vir.

Quando Diva teve alta daquela internação, prometeu que traria novidades do mundo lá de fora para a criança. Tinha decidido que aquela criança seria seu ultimo projeto, sua redenção. Ficou três dias fora e quando voltou só esperou a mãe da menina sair para o banheiro para correr até a cabeceira do leito pediátrico. “Os gigantes, meu bem querer, eles tomaram conta da cidade. Por isso temos que ficar aqui, escondidas. Eu terei de ir lá fora lutar contra eles por alguns dias, mas estarei sempre de volta para te ver e te contar como estão as coisas”.

A mãe não gostava daquela amizade, preferia que a filha tivesse paz ao invés de ficar servindo de distração para uma idosa mentalmente instável. Mas até ela as vezes se distraía com as histórias de gigantes e as batalhas travadas contra eles nas ruas da cidade. No dia da cirurgia da menina, Dona Diva contou como estavam construindo uma bomba cheia de coisas boas que seria lançada no centro da cidade, sabidamente os gigantes detestavam coisas boas e depois da bomba ou eles morreriam ou iriam se mudar para Contagem.

A senhora teve alta sem poder ver a menina, ouviu das enfermeiras que a cirurgia tinha sido um sucesso e que tudo correria bem. Cinco dias depois voltou ao hospital, não encontrou ninguém além de uma outra idosa na enfermaria. Mais tarde ficou sabendo que houve complicação no pós-operatório, muita febre, convulsões e que a frágil garotinha sucumbira. Quis gritar, quis xingar deus, que subvertera a ordem das coisas. Ela voltava ao hospital por causa da menina e estava pronta para ser levada no lugar dela. Mas deus nunca facilitara as coisas para Dona Diva.

Depois daquele dia nunca mais voltou ao hospital, nem naquele nem a nenhum outro. Não conheceu mais crianças, não importunou mais o seu vizinho de apartamento. Juntou alguns pares de roupa e viajou para a praia. Sentia um frio nos ossos que tinha certeza de que só o calor da praia resolveria. Já não tinha certeza de mais nada mas queria muito que seu sofrimento acabasse. Abriu com dificuldade uma toalha sobre a areia, deitou-se devagar e tomou sol por cerca de meia hora, com roupa e tudo. Levantou-se e sentiu-se mais viva do que nunca, tomou um chá gelado e resolveu que aquele seria o último dia ruim de sua vida.

Não foi o último, ela teve muitos mais dias ruins, quando o cachorro do vizinho a derrubou no hall de entrada do prédio, por exemplo. Ou quando na praça de alimentação do shopping duas adolescentes esbarraram nela e derramaram, cada uma, um copo de milk-shake de morango em suas roupas desbotadas. Ela sentia-se livre, não tinha mais a quem ajudar, nem mais a quem atrapalhar. Ela só precisava ser. Ser.

Magricela

 

Ela era só mais uma menina magrela de joelhos de cebola que apanhava da mãe quando deixava suas roupas de domingo se sujarem de calda do bolo de cenoura que avó religiosamente fazia em dias de festa. Naquele dia conseguiu fugir por três vezes, ainda não era nem meio dia e seu vestido azul com fita branca já estava coberto de poesia, poeira, barro e um pouco de chocolate. Sua mãe era mestre em pegá-la pelos cabelos, sempre armados e muito crespos, segurava com força enquanto a puxava para perto das palmadas e beliscões. A menina gritava e esperneava, mesmo quando não doía, já havia aprendido que aquilo era parte do ritual que a mãe precisava assistir para finalmente deixá-la em paz.

Tinha um irmão muito mais velho que havia se mudado para a capital com a promessa de que um dia voltaria para levá-la para a terra das escadas rolantes, onde em cada esquina havia uma venda de balas e doces e sorvetes de mais de oito sabores diferentes. Ela não esperava por ele porque sabia que a mãe nunca permitiria que ela partisse e não queria se separar da sua avó que já era frágil e, segundo o padre do vilarejo, iria se encontra com Jesus muito em breve. Na avó ela havia derramado toda a sua alegria desde que o pai morrera, foi ele que a ensinou a contar histórias sobre gigantes e fazer laço no cadarço do primeiro tênis que ela ganhou quando entrou para a escola aos sete anos.

Ela não gostava da escola, só ia porque era obrigada, não conseguia prestar muita atenção e o pouco que aprendia a mãe corrigia em casa: você não veio de macaco nenhum, foi Nosso Senhor Jesus Cristo que nos criou sua imagem e semelhança, apenas para servi-lo. Ela não entendia como a professora falava de civilizações com mais de cinco mil anos de idade e Jesus só tinha dois mil, e não entendia como era esse negócio de servir a Jesus, aprendera certa feita que os servos sempre se rebelavam porque numa sociedade justa ninguém deveria servir a ninguém.

Desde muito pequena aprendeu a fugir pela porta lateral da igreja durante a missa, só voltava durante a “paz de Cristo” porque sabia que a mãe procuraria por ela para que apertassem as mãos e se abraçassem celebrando a paz do senhor. Sua mãe a acordava muito cedo para tomar banho e colocar sua roupa bonita para a missa, ela não gostava de ir mas adorava colocar vestidos rodados e desde sua primeira comunhão percebeu que a hóstia tinha gosto de chuva e desde então gostava de comer aquele pedacinho de sabe-se-lá-o-que que o padre colocava em sua boca.

Sua melhor e única amiga verdadeira era uma vaca, Gaúcha ela se chamava, branca com manchas pretas nas pernas e na cabeça. A vaca era de um vizinho mas vivia pastando nas terras da avó e gostava muito de comer os biscoitos duros e restos de pão que a menina levava para ela toda tarde quando ia visitar a mãe de seu falecido pai. Gaúcha não era muito de conversa, mas em um determinado dia a ruminante salvou a vida da menina ao alertá-la sobre uma chuva forte que abateria sobre a vila.

Um dia sua tia careca a segurou pelo braço e disse: menina, você não gosta de estudar, não sabe arrumar uma casa, não tem modo algum, não gosta de igreja e nem é bonita, o que você vai fazer da vida? A menina não sabia nem que tinha que fazer alguma coisa da vida, acreditava que no momento certo, como que num passe de mágica, ela se tornaria alta e esbelta e seu cabelo deixaria de ser crespo para descer pelas costas num lindo rabo de cavalo acobreado. Ela achava que as surras que sua mãe lhe dava serviriam para isso, colocar um rumo em sua vida.

Saiu a procura do que fazer de sua vida. Bailarina não queria ser, elas dançavam, mas do jeito que alguém mandava, ela queria sempre dançar do jeito que achava legal, balançando os braços e pulando para trás. Professora não seria interessante porque ela gostava de deixar as pessoas pensarem o que quisessem, no que fosse mais bonito para elas e professores serviam para enfiar ideias na cabeça das pessoas e confundi-las. Astronauta não porque odiava usar roupa fechada, médica não porque tinha muito sangue e cocô e gente gritando. Dentista não, carteiro não. Começou a se desesperar.

Sentou-se num banco na praça da matriz, ao seu lado um caixeiro viajante a perguntou o porquê de uma mocinha tão bonita estar com a cara tão fechada. Ela contou sua história para o homem, apesar de saber que estava proibida de conversar com estranhos desde que deixou uma cigana entrar em sua casa e a mulher roubou o rádio que era a alegria da mãe. O homem, após ouvir tudo atentamente, colocou sua mala sobre o banco, abriu as duas fivelas que a mantinham fechada e tirou lá de dentro uma pequena sanfona. Disse à menina que trocaria o instrumento por um beijo no rosto e um sorriso verdadeiro.

Ela chegou em casa com a sanfona, disse para a mãe que a havia ganhado de um homem na rua, apanhou de chinelo e chorou até dormir. No dia seguinte esperou a mãe sair para o trabalho, tanto procurou até que achou o instrumento enfiado no meio de umas colchas velhas. Decidiu não ir à escola, levaria outra surra, mas não se importava. Brincava com o instrumento na porta de casa quando foi descoberta por um caça talentos da capital.

Aos 16 anos já havia rodado por todos os estados do país, era exposta como uma macaca de circo com seu pequeno instrumento. Algumas pessoas chegavam até ela oferecendo ajuda, a libertariam daquele homem tirano que a explorava. Ela não entendia, achava que aquele homem tirano a estava salvando de sua vida miserável e sem rumo de outrora. Sentia saudades da sua terra, queria saber de sua avó, da Gaúcha, mas tinha medo de voltar e não ter mais nada lá para ela. Aos 23 se casou com um homem muito rico que a levou para o exterior onde aprendeu a gostar de comidas exóticas e a usar roupas que lhe causavam desconforto respiratório. Teve dois filhos, muito feios, parecidos com o pai, ela os amava como nunca amara nada nesse mundo.

Pouco antes de morrer ela percebeu que nunca havia se encantado com nada. Sentiu-se vazia, sentiu-se sozinha e quis chorar. Seus joelhos voltaram a ser joelhos de cebola, mas agora a culpa era da artrose que devorava suas articulações como escaravelhos que devoram a carne de animais mortos. Tudo o que queria era rever sua tia e perguntar se era ali que ela deveria mesmo ter chegado, se era ali onde ela se encontrava nesse exato momento, que a tia esperava que a menina um dia repousasse. Não sabia se tinha feito algo da vida, se a vida havia feito algo dela. Sentia que já era tarde para ela, que se pelo menos tivesse acreditado em algum deus agora ela estaria indo rumo a um paraíso, mas sabia que só estava mesmo deixando de ser o que ela nunca tinha sido.

Desencantou-se em paz aos 97 anos, cercada de outras meninas e meninos magricelos octogenários largados pelos filhos na casa de repouso da cidade.

 

O pombo

Era uma vez um pombo que queria muito ser outra coisa. Foi quando leu sobre um pássaro mitológico num pedaço de jornal deitado próximo a migalhas de biscoito que ele descobriu o que seria essa outra coisa. A reportagem falava sobre países em crise econômica que ressurgiam das cinzas, como a fênix, e trazia uma ilustração da tal ave em vibrantes tons de laranja, amarelo e vermelho, emergindo do meio de um punhado de material inerte, as imponentes asas abertas, envergadura enorme com penas largas e lustrosa; bico alongado, forte e ameaçador. Olhos atentos e ao mesmo tempo corteses e generosos. O pombo não teve dúvida, havia nascido no corpo errado e passaria o resto de sua curta e enfadonha vida procurando uma maneira de ser que ele não era: uma fênix.Passou sua adolescência na porta de um salão cuja especialidade era transformar hominídeas morenas em ruivas e loiras. Tentou por dezenas de vezes se banhar no pote de tintura, mas tudo o que conseguiu foram toalhadas que lhe custaram penas acinzentados e um pouco de dignidade. Tentou, também, mergulhar na panela de um cozinheiro que preparava um ensopado de tomates com cenouras, a cor seduziu nosso determinado amigo que quase virou atração principal no jantar do mestre cuca naquela noite.

Atormentado por seu desejo e abandonado por seus amigos de infância que tinham se tornado simples pombos de praça ou pombos correio, decidiu dar uma pausa em sua jornada rumo a excelência pombal. Pousou num dos parapeitos do prédio mais alto da cidade e ficou lá de cima observando o universo ao qual pertencia. Percebeu com contentamento que o que faltava ali era uma ave elegante como a que vira no pedaço de papel, que ela tornaria o lugar mais interessante, todos os outros pombos se apaixonariam por ele, desejariam sê-lo ou tê-lo.

Bateu asas até a fonte de água mais próxima, bebericou um pouco, levantou sua cabeça, olhou ao redor e percebeu que visto de cima o mundo era mais incompleto e merecedor de sua vindoura beleza. Olhou para o céu, viu um enorme e velho avião sumir por entre nuvens com cheiro de maciez. Viu próximo à fonte crianças humanas correndo atrás de pardais paramentos e um cão sujo e feliz urinando na árvore onde sua mãe chocou o ovo de onde ele um dia saiu, para então ela fugir para o sul com uma coruja buraqueira que lhe prometera pipoca frita na manteiga e amendoins torrados a vontade. Quis voar para longe dali, não precisar mais ser uma fênix, não ter que mostrar para os outros que era capaz de ser o que quisesse, queria que o mundo voltasse a precisar daquela outra coisa que ele não era.

Foi até o telhado onde vivia, debaixo de uma caixa d’água de amianto que se apoiava em vigas de madeira carcomida. Juntou seus trapos, rasgou o recorte de jornal que guardava, aquele com o desenho da fênix, e jogou os pedaços ao vento. Se despediu de duas ratazanas com quem dividia a morada, disse que voaria por aí procurando um novo sentido para a vida, e se, não encontrasse, não teria problema, voltaria para casa e se candidataria a uma vaga numa repartição pública da cidade.

Ele não chegou a ir muito longe, sentia-se cansado, pesado, vazio e errático demais. Se ele soubesse que parar para descansar no galho mais frondoso daquele carvalho significaria seu fim, talvez tivesse pousado ali antes. Um gavião fêmea pegou nosso quase amigo com suas garras maternais e levou para seu ninho, onde filhotes com bicos agudos e famintos desfizeram o corpo do pombo como se desfizera o sonho do pobre coitado poucas horas antes. Os gaviõezinhos devoravam a carne que não tinha sabor de pombo, nem de fênix, mas de frustração e desalento. Um deles poderia jurar que aquilo ali não os faria bem, mas já era tarde demais. Morreram dias depois de constipação. A mãe observou seus rebentos perderem suas vidas precocemente sem nada fazer, ela entendia bem de destino e sabia que na próxima primavera teria uma ninhada mais forte e só os alimentaria com carne de preá
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Pelo cheiro da lua

Só porque é o amor da sua vida não precisa ser pra vida toda e, acredite, você vai sobreviver a esse e a outros possíveis amores e a algumas crises de asma e quem sabe até ao ebola. Ou não. Mas o importante é que na hora certa você entende isso, é quando consegue tirar o último retrato da parede. Depois de semanas encarando a fotografia, inventando desculpas para deixá-la ali; você, de olhos marejados, com dor no peito e sob suspiros que interrompem sua mão errante de remover aquele instantâneo de um momento feliz e empurra-lo pra dentro de uma gaveta escura; conseguirá. Ontem foi a minha vez.

Aquele sentimento de que você fez tudo errado mais uma vez, que as coisas poderiam ter sido diferentes, que nunca mais você vai querer conhecer outra pessoa e que você não serve para a vida a dois, costuma ir para a gaveta junto com o retrato e lá dentro se unem a um universo paralelo de sentimentos que já estavam ali, de outros verões.  E em breve você estará leve como uma pluma para ir ler seu livro no parque mais próximo. Aconselha-se não mexer nessa gaveta para que a entalpia daquele microcosmos ali não se desestabilize e exploda na sua cara, pelo menos por um tempo deixe tudo, o amor, a dor, as mágoas e a saudade, eles se tornarão cometas errantes que vão causar extinções em massa em outras freguesias.

A lua hoje está alta e enorme e sedutora, parece que se eu inspirar perto da janela sentirei seu cheiro, que eu acho que é parecido com o de lima. Não sei se é porque o inverno acabou de começar ou se que ela está assim porque resolveu ser gentil comigo. Olhei pra ela agora e percebi que esse satélite natural não é capaz de me oferecer tudo que eu preciso ou desejo aqui e agora. É só uma bola enorme de rocha que gira por aí, como milhões de outras. Mas me sinto melhor com ela onde está, me apeguei ao seu contorno e suas crateras. Se ela se for eu serei menos Fábio, afinal eu não sou o mesmo que era antes de conhecê-la. Não poderia expulsá-la daqui de toda forma, mas poderia ignorá-la, ficar com raiva quando míngua ou fica escondida por entre nuvens. Mas gosto dela ali. Assim, às vezes perto, às vezes brilhante, as vezes nova ou ausente cuidando de seu problemas lunares em outro cantos da via láctea.

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O poder, o cabelo, o medo e outras coisas do saco.

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Porque se fôssemos mesmo só um saco, um pacote de coisas ruins misturadas com coisas boas, tudo seria mais fácil.  O bom e o ruim estariam aqui dentro e eu saberia o que eles representam, rotulados e carimbados. Só que o pacote na verdade é cheio de coisas suas, se ruins ou boas é a sua experiencia com cada uma delas é que dirá. Naquela exata ocasião quem você é, onde está, que sapato está usando, como está emocionalmente, para onde está indo e com quem, tudo isso é que definirá se a coisa dentro de você é ruim ou boa ou as duas coisas.  Tudo isso pode fazer com que algo que ontem foi bom hoje seja o preludio do apocalipse.

O choro. Nesses últimos dias tirei essa coisa do pacote por três vezes. 1. Ao sentir que eu e o sistema havíamos falhado com um paciente. Fui pra dentro do meu carro e chorei por uns 10 minutos antes de sair pra almoçar. 2. Ao sentir que eu e o sistema havíamos sido eficientes com outro paciente. Chorei em casa, olhando para o teto e pensando que quando eu menos espero o universo conspira para que algo bom aconteça. Estudar ajuda o universo a conspirar a meu favor nesse caso. 3. Ao sentir que eu havia falhado comigo mesmo nesses últimos dias e que com isso havia magoado quem amava. Chorei um pouco a cada dia, choro que vinha de um suspiro ou de uma recordação. Chorar para mim já significou algo muito bom, chorava ao ver filmes que me tocavam, ao ouvir palavras que me emocionavam, ao me sentir triste com o mundo. Depois parei de chorar para não parecer fraco. E agora que voltei a chorar fiquei sem saber se era algo bom ou ruim num primeiro momento. Decidi que era bom porque pode ser um sinal de que ainda sou parte humano.

O medo. Baratas, aranhas e seres rastejantes a parte, eu quase nunca tive medo de nada nesse universo onde nos jogaram. Tenho que excluir lobisomens e altura também. A ultima já encaro numa boa, lobisomens já sei que não existem e o resto não deixei virar fobia. Aprendi a ter medo de minha finitude. Me disseram que isso era sinal de fraqueza. Então passei a ter medo mesmo só de decepcionar as pessoas, porque eu achava que não tinha esse poder e preferia não o ter de qualquer forma. Mas não é uma opção.

A força. Por muito tempo encarei o fato de alguém ser forte um risco de que essa pessoa se tornasse um tirano. Já vi tanta gente forte usando essa vantagem para oprimir e fazer sofrer. Maridos que batiam nas esposas, crianças maiores que humilhavam as menores. Eu preferia ser fraquinho e franzino e ter a voz fraca, não que eu me sujeitasse a ser oprimido, mas não queria de jeito nenhum ser opressor. Só que a força da gente está também é nas palavras e nos gestos, e eu cresci demais, e oprimir o próximo é mais fácil do que se pensa. Tudo que eu queria era que os meus atos incautos não repercutissem nas pessoas muitas vezes inocentes ao meu redor.

A culpa. Mãe é o melhor bicho que evolui das bactérias de bilhões de anos atrás do sopão primordial direto pra dentro de nossas casas. E são as melhores em plantar culpa em nossas mentes atormentadas. Sempre me senti culpado, tempo todo, um gasto enorme de energia. Por ser preguiçoso ou por ter tirado nota melhor que meu coleguinha ou por ser mais alto, ou mais feio, ou mais imperfeito, ou afeminado. Minha mãe achava que se eu me sentisse culpado eu cresceria mais robusto, mas a culpa tem horas que é tão pesada que não me deixar respirar direito. Acho que a culpa nunca é boa, mas pode ser necessária. Estou cheio dela.

O poder. Não o poder do tipo força descomunal ou habilidade de controlar a mente das pessoas, disso já falei. O poder no sentido de ser capaz de. Poder ser, poder ter, poder chegar, poder sentir, poder enxergar, poder comprar, poder sorrir, poder apagar. O meu poder esbarra nas minhas duvidas. Poder é bom e sempre será. Mas o poder devia andar sempre de mãozinhas dadas com o dever. Queria entender mais dos meus deveres para que os poderes não me soassem por vezes tão inúteis.

O cabelo. Quando eu era bobo, eu achava que um dia magicamente meus cabelos se tornariam volumosos, sedosos e viçosos e negros como algo muito preto. Eu teria um lindo topete e seria feliz para sempre. Só que quando eles, os cabelos, começaram a cair eu vi que não daria tempo pra que a transformação se desse e eu então fiquei deprimido e angustiado. Cabelo é bom porque protege a cabeça do sol, fora isso para que ele serve se não para nos dividir ainda mais? Para mim, se eu tivesse que decidir hoje, cabelo seria, sim, uma coisa ruim.

A vergonha. Como um tímido de humor duvidoso e personalidade borderline era de se esperar que a vergonha para mim fosse sempre algo ruim. Pronto, ruim. Mas é ela que mais me tira da minha zona de conforto, que me desestabiliza, que me faz refletir sobre minhas trapalhadas. Não humilhação que disso ninguém precisa, mas a vergonha me tira do sério. Já tive vergonha das minhas roupas, da voz, da sexualidade, da minha origem. Hoje só tenho vergonha de não aprender com meus erros. Vergonha de ainda acreditar demais no ser humano e acabar me machucando e machucando os outros por causa da minha ingenuidade/despreparo. Sim, vergonha é bom.

O erro. Quem muito se desculpa é quem muito erra. Mas também é quem se percebe como potencial agente causador de danos e de certa forma tem o cuidado de tentar no mínimo empatia com o sentimento do outro. Eu sempre me desculpei por tudo, mental ou verbalmente, desculpas por ser diferente, por ser burro, por ser inteligente, por ter atrasado, por não ter percebido, por ter te subestimado. Um dia me disseram para parar que estava chato. E estava. É bom mudar pelo menos com quem se erra já que os mesmos erros nos perseguem. Erro é ruim, e inevitável por vezes. Pedir desculpas é sempre bom.

E por aí vai. Você tira a coisa do seu pacote, olha bem pra ela e vê se naquela ocasião ela será boa ou não. Hoje eu tirei um bom punhado de saudades do meu pacote encardido. Olhei para ele, cintilava, pulsava e fazia doer. Na duvida se me faria bem ou mal, se era saudade boa ou ruim, a meti de volta no fundo do saco, debaixo da preguiça de acordar cedo  e da compulsão por chocolate. E a saudade está lá. Meia ruim por causa do momento, meia boa por sua natureza. Tem hora que não interessa se é bom ou não, o que é importa é se é hora de tirar de onde está ou não. Se vale a pena encarar, ou não.

O amor da minha vida

Não é difícil achar o amor da sua vida. A menos que você esteja trancado dentro de casa isolado do resto do mundo com medo de ser atingido pelo próximo apocalipse zumbi, não é difícil. O amor da sua vida estará sempre ali na esquina acenando pra você. Quando vai comprar pão sem lavar o rosto, quando você passa por ali correndo atrás do seu cão que fugiu em disparada pelo portão que sua tia esqueceu aberto, quando você vai manobrar o carro do seu irmão só de pijamas jurando que ninguém vai te ver porque está cedo ou tarde demais. O amor da sua vida estará ali acenando, com um vigor de um sinalizador de aeroporto em processo de balizagem, com bandeiras vermelhas e cones alaranjados. Nunca reparou?

Vida a gente só tem uma, é o que dizem os consensos, mas se pararmos para analisar são várias mini-vidinhas dentro de uma vidona que pode ser gigantesca caso você cuide de seus joelhos e venha a viver por muito tempo. É comum pessoas em abstinência de álcool, cocaína ou qualquer outra droga, e dispostos a assim se manterem, falarem sobre seu passado como “quando eu levava aquela vida…” Com o amor não é diferente. A droga mais bem aceita socialmente nos tira ou nos leva para vidas diferentes, e quando esse amor se vai costuma levar aquela mini-vida junto. Parece que o mundo vai-se acabar, que tudo perdeu o sentido. Mas calma, pode ser apenas o fim de uma mini-vida, a que se iniciará quando um novo amor da sua vida chegar pode ser bem mais interessante e apaixonante. Ou não. Queria mesmo é que a vida fosse só uma mesmo.

Como o amor é um sentimento anormal eu acredito que a maioria das pessoas ainda não encontrou o amor de suas vidas por possuírem genes mais evoluídos que as possibilitam ignorar essas pragas que atormentam a sociedade judaico-cristã-capitalista-ocidental desde os tempos do Éden. Porque enxergar algo que brilha e pisca e te hipnotiza e seduz, que vai te fazer se sentir a pessoa mais especial e sortuda e abençoada do mundo se isso um dia desaparecerá e só ficarão a desilusão, o vazio e o pra sempre que se acabou? Para que suspirar e se arrepiar ao toque de alguém que um dia estará tocando outros e outras com o mesmo carinho e proferindo as mesmas palavras doces? Parece instinto autodestrutivo e talvez a seleção natural esteja agindo rapidamente para que amores da vida sejam ignorados e para que vivamos e nos reproduzamos dentro de relações com menos pressão e envolvimento sentimental.

É mais fácil perder um piriguete ou um peguete do que um amor da vida. É mais fácil rejeitar ligações ou ignorar mensagens de um ficante do que do amor de sua vida. O amor da vida só aparece e toma conta de você se você assim permitir, se estiver de peito aberto e disposto a correr riscos. Se estiver leve e distraído ele pulará em você e te fará a pessoa mais feliz do mundo, por tempo a ser determinado. As outras opções trarão prazer rápido e fugaz enquanto você fica na espreita, achando que o amor de sua vida não vem, ou fazendo o maior esforço para que ele nunca apareça.

Caso você seja você mesmo o amor de sua vida poderá ficar mais tempo ao seu lado, a menos que você seja desinteressante e chato. Fingir ser quem não é pode terminar em tragédia, você poderá atrair o amor da vida de outra pessoa e mais cedo ou mais tarde isso terminará em lágrimas. Se você fizer o amor de sua vida rir e comprar-lhe doces e bombons ele pousará ao seu lado, sereno, mas doces e bombons causam doenças e tem gente que acaba perdendo um dedo, dentes ou até os pés por causa deles. Se você for rico e bem-sucedido você pode até oferecer mais conforto para seu amor, mas dizem que o bom vida está nos detalhes que somente a simplicidade pode trazer.

Repito. Não é difícil achar o amor da sua vida. Mas você quer achar? E quando achar, o que fará dele?

Eu achei o amor da minha vida. Sempre morri de medo que eu não fosse o amor da vida dele, mas é um medo que não devo sentir porque não é algo que eu possa controlar e aprendi que ter medo de coisas assim é perda de tempo. Tema para outra discussão. O que eu sempre quis era que  o amor da minha vida sempre me fizesse rir e me arrepiar quando estivesse ao meu lado, porque a vida não é fácil e os outros amores geralmente nos fazem sofrer por demais. O que eu sempre quis era que o amor fosse pela vida, pela minha, pela dele, e que o resto a gente resolvesse comendo pudim e ouvindo Frank Sinatra.

sonhar beijar amar

E.l.E.g.A.nt.E

Ela pensou que perderia o fôlego
E parou
Acreditava que estava segura
E morreu

Ele tinha por certo que perderia o trem
E esqueceu
Achou que pegaria o próximo
E esperou

Esse cão achou que estava em perigo
E correu
Aí percebeu que se tratava apenas de um gato
E latiu

Eu sei que ele me quer por demais
E me esqueço
Acordo com ele me pedindo para amá-lo devagarinho
Eu espero

É fato que minha mãe acha que errou comigo
E quase morre
Ainda tento mostrar que estou bem
E ladro

E quando a vida passa como um raio
Eu paro
As pessoas esperam que eu seja mais um
E eu corro

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