O menino do pombo e o pombo ou O abismo das paixões

Na vila onde nascera era costume entre as meninas e mulheres solteiras escrever as características do homem desejado num pedaço bem pequeno de pano, amarrá-lo no pé direito de um pombo e então soltar a ave num dos bosques da região. Se aquele pombo sobrevivesse aos próximos três dias, o desejo seria atendido e o amor de sua vida apareceria no dia da morte da ave. Caso contrário (se a ave morresse antes de três dias ou fosse imortal), era melhor entrar para um convento. O grande problema detectado pelas gerações mais novas era que um pombo podia viver por até vinte anos e a maioria das mulheres não queria esperar todo aquele tempo para se casar. Foi então que o prefeito teve uma ideia brilhante: decidiu que o dia de soltar o pombo aconteceria sempre na segunda quinta-feira do mês de julho, ao invés de cada pessoa soltar o pombo no dia que preferisse. E ainda mais, no domingo subsequente seriam liberados falcões ferozes e enormes e famintos e devoradores de pombos, com o intuito de ajudar suas eleitoras encalhadas a arrumar maridos de forma mais rápida e eficiente.

Oportunistas escreveram livros sobre como escolher o pombo correto e as palavras a serem escritas no pano: “Nada de escrever palavras grandes e rebuscadas, seja lá quem for que lê os pedidos e os atende prefere palavras curtas e claras, como: rico, fiel, mantenedor. Evite expressões, como bom pai, grande amante, taludo, pois essas podem gerar confusões, e reclamações posteriores nunca são aceitas”. O tipo de pano utilizado era importante, “nada de juta ou algodão, escreva num pedaço de cetim ou seda pura, que podem ser encontradas no armazém do Seu Agamenon”. Os pet-shops das cidades vizinhas se especializaram em vender o que prometiam ser pombos de subespécies exóticas, alguns gordos e pouco velozes, boas presas para os falcões; outros que exalavam um cheiro forte que atraía predadores a quilômetros de distância.

Às vésperas do Primeiro Dia Oficial da Soltura do Pombo o menino sentia-se confuso: sua mãe soltou seu pombo aos 13 anos e conheceu seu pai aos 18. Sua avó soltara o pombo aos nove e aos 12 já estava casada com seu avô. Não haviam registros de que homens já haviam participado do ritual e ele acreditava que seu pedido seria aceito como o de qualquer outra pessoa pois vivia em tempos em que se dizia que amor era tudo igual. E ideia de ter seu pombo estraçalhado por um falcão três dias após sua soltura o deixava desesperado.

Esperava que o pombo alçasse voo bem alto, viajasse por outros vilarejos, experimentasse todos os tipos de sementes disponíveis nessas terras e em outras, antes de se deitar a noite num ninho quentinho e morrer de velho. O pombo que ele escolhera tinha nascido no quintal de sua casa, ele o resgatara alguns meses antes, ainda filhote, quase sem penas caído do telhado. Cuidou do bicho e acreditava que a mãe do despenado havia sido capturada para ser vendida no mercado negro.

Decidiu soltar sua ave em outro local. O motorista do ônibus para a Capital estranhou aquele menino sair sozinho da vila justo naquele dia, de celebrações e festejos. Mas dirigiu pelas ruas sinuosas rumo a cidade grande, com seu único passageiro a bordo carregando uma caixa de sapatos cuja tampa não queria ficar no lugar.

Desceu do ônibus no meio do caminho, no ultimo ponto antes do veículo abandonar os limites geográficos de seu vilarejo. Ele frequentava aquela região com seu avô quando o velho ainda fazia comercio de queijos com moradores da zona rural, mas agora ele estava muito velho e cansado e os queijos daquele lugar nao eram bons como antigamente. Distraído com essas memórias, andou até a beira de um grande desfiladeiro, chamado de Abismo das Paixões.

Seu avô nunca o deixara chegar tão perto do enorme vão que se estendia por quilômetros, até quase se perder de vista. Lá no fundo se viam algumas árvores tortuosas, distantes, desinteressadas no que acontecia fora do buraco onde viviam. Seu avô dizia que a vista era extasiante, apaixonante, e que era perigosa pois muita gente havia se apaixonado pela vista e se perdido nas profundidades do abismo em tempos de desespero.

Pegou seu amigo de penas com muito cuidado e deixou a caixa de lado. Hesitou antes de abrir as mãos e deixá-lo livre, O mundo lá fora era tão hostil, seria melhor mantê-lo seguro em casa, no galinheiro com cerca de tela de metal feita por seu pai. O pombo já estava aprendendo a se comportar como as galinhas e elas já não o bicavam de forma feroz como outrora. Mas algo dentro dele dizia que era a hora de deixar seu companheiro ir. Liberou um dedo de cada vez, relaxando a pressão que fazia sobre o corpo da ave. A mesma não voou logo de cara, num primeiro momento parecia estar com medo da ventania que se abatia sobre eles ali na beirada daquele precipício. Olhou ao redor, olhou para o menino, ergueu a cabeça, estufou o peito e se lançou no vazio.

Sete anos se passaram, ele viu seus amigos e amigas crescerem, se apaixonarem e se casarem; se divorciarem e não saberem lidar com a solidão. As pessoas perderam interesse no ritual com os pombos no dia em que a Apple lançou um pombo eletrônico que tinha painel de LCD sensível ao toque e se conectava a qualquer rede wi-fi sem muita dificuldade. Todos preferiam ficar com o pombo e utilizá-lo para acessar uma das trezes indispensáveis redes sociais disponiveis naquela época.

Num dia besta como outro qualquer, ele voltava do seu trabalho como balconista na mercearia da rua principal quando viu seu pombo descansando sobre a caixa de correio de uma casa na qual ele nunca tinha reparado até então. O não mais menino, o agora jovem rapaz, se aproximou do animal acreditando que também seria reconhecido, mas quando estava a dois passos de tocá-lo, a ave bateu asas e voou para longe. Ele ficou ali, decepcionado com tamanha indiferença, esperava pelo menos uma arrulhadinha de alegria (sim, os pombos arrulham; eles não miam, nem cacarejam).

Quando passou por aquele sentimento e voltou a si, encontrou um rapaz parado ao seu lado, olhando para o céu na mesma direção que ele, em direção ao nada. Os dois se entreolharam e riram da situação. Um deles ofereceu um café para o outro, não se sabe se o café foi aceito ou não, mas o que dizem é que os dois viveram a mais engrandecedora história de amor daquelas bandas do continente. Até que um dia chegou a notícia de que um pombo ardiloso havia mergulhado para a morte numa panela fervilhante de frango ao molho pardo no restaurante da dona Quinzinha. Não se sabe se o amor resistiu àquele molho.

FIM

 

Gare de l’Est, 17 de julho de 2011

São sete da manhã, estou saindo de Paris num trem em direção a Frankfurt, na Alemanha. Estou no meio de minhas férias, no fim dessa viagem que até o momento está sendo a melhor da minha vida. Não sei porque as outras não foram, mas essa o é porque eu finalmente estou apenas aproveitando os momentos, bem leve, sem calendários, cronogramas. Foi minha terceira vez em Paris mas a primeira vez que fiz realmente o que eu quis e fui ver o que me importava no momento. Egoísta, eu.

Paris é um marco na minha vida, foi a primeira cidade a despertar meu desejo de viajar para o exterior, eu tinha apenas quinze anos e desde então para mim o mundo é o meu jardim onde saio para brincar quando me é permitido, em todas as interpretações da palavra. Aprendi inglês, mas somente porque eu não tinha dinheiro para estudar francês, cujos conceitos básicos aprendi na quinta série com a professora mais fofa que já tive. No ensino médio o inglês era obrigatório, tive três professoras que eram aeromoças, uma delas me apresentou a banda The Cardigans, a outra Alanis Morissette e a ultima apresentou um boteco perto do campus da UFMG onde a cerveja era mais barata e geladinha. Ontem caminhei pela Champs Elises, até a Torre Eiffel. Lindo. Paris esta toda enfeitada, comemoraram a queda da Bastilha há 4 dias, e as flores estão explodindo em cores pelos jardins e parques da cidade. Londres é mais limpa e as pessoas mais gentis do que em Paris. Mas entre as minhas cidades prediletas é comum a ocorrência de lugares onde os locais são rudes, veja Nova York, onde já levei uma cusparada e ouvi tantos desaforos de garçonetes.

Vou terminar o passeio na Alemanha, como em 2009, quando Munique foi minha ultima parada em minha estreia na Europa. Coração financeiro da Europa continental, Frankfurt esta perto da fronteira com a França, o trem desde Paris leva quase quatro horas. Porque Frankfurt? Boa pergunta. Pura curiosidade, queria também passar por Bonn, Estrasburgo, Estocolmo, Bordeaux, Hamburgo. Mas dessa vez tive que escolher apenas uma, aleatoriamente entre as candidatas. Vou passar apenas um dia e meio, me disseram que o suficiente pra ver o mais interessante da cidade.

Estou me sentindo tão bem comigo mesmo. Passei por dias tão leves, cheios de sensações boas, vi tanta coisa bela, ouvi tanto sotaque diferente. Em Londres eu me perdi naquele metrô monstruoso, corri feito louco pelas ruas sempre iluminadas e tive medo de estar desperdiçando minha vida com as pessoas erradas. Na verdade com a pessoa errada. Eu. Caralho, eu sempre me pego pensando que estou me desperdiçando, que a vida é curta e tudo mais. Acho que faz parte do meu processo de evolução, achar que estou devagar demais e de repente dar uma sacudida na poeira e colocar o pé na estrada. Conheci muita gente interessante em Londres, fiquei em dois albergues diferentes, um no centro nervoso da capital e outro no subúrbio. Os australianos estão tomando Londres como os Canadenses estão fazendo com Berlim, nos dois albergues dividi quarto com australianos, sempre muito simpáticos e festeiros.

Fui assitir Wicked com duas australiana loiras altas e esguias e dias depois fui para a noite de Londres com um australiano com alma de artista e um italiano fofo até mandar parar. Acho que estou superando minha timidez ou então venho dividindo quarto com gente muito tirada que finalmente está me arrastando para fazer as coisas divertidas em bando. Conheci também em um tour guiado uma americana simpaticíssima que está vivendo na Alemanha, conversamos um pouco sobre as diferenças culturais em América e o velho continente, ela, como eu, tem uma visão mais nova do mundo. Nosso países sõa mais jovens, nossas histórias mais recentes, nossas igrejas menos empoeiradas. É diferente, não sei explicar, mas o europeu pensa diferente.

Morri de rir dos indianos que se vestem de Rainha e ficam dançando aquelas danças indianas em pontos turíscos, muito engraçado imaginar a Rainha fazendo todos aqueles movimentos de pelve e pescoço. Morri de raiva do metrô nas horas de rush, de onde sai todo aquele povo que lota a Oxford Circus de repente!? Parecia o posto de saúde ao mesm otempo o Show do U2, aquele tanto de gente se acotovelando, mas com a diferença de todos estarem muito bem vestidos e elegantes. O sol quase não mostra sua cara em Londres, os dias são bem claros, venta bastante mas sol mesmo a gente não vê. O custo de vida é mais alto do que em Paris ou NYC, mas vale cada centavo pois as coisas funcionam. Comprei um chip da operadora 3 (Three) e quase tive orgasmos múltplos. A internet no iPhone estava mais rápida que a NET ou Veloz lá em minha casa! e eles tem um pacote, All you can eat, que você usa até passar mal por uma semana pagando algo próximo de 20 reais. Adorei. Na França não achei algo parecido para turistas.

Em Paris foi tudo muito rápido e intenso como sempre. Finalmente conheci La Defense, vi Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II legendado num cinema super aconchegante, tomei um vinho com meus companheiros de albergue numa rua super boemia pertinho da Sacre Coeur e dei um pulinho no D’Orsay. Paris não me fez pensar na vida, universo e tudo mais, parece que em Paris está a vida. O tempo estava bom, um vento frio quase o tempo todo mas o sol brilhando forte. As ruas não estavam lotadas de turistas e consegui caminhar com tranquilidade. O albergue onde fiquei era uma pocilga, na verdade eu quis economizar e fiquei no quarto pocilga, o albegue em si era arrumadinho, muito perto da Torre Eiffel.

Ansioso para chegar em Frankfurt, estou lendo um guia sobre a cidade, muitos museus, muita história, muitos lugares históricos e comidas típicas para provar. Estou curioso com uma espécie de vinho de maçã, o Apfelwein, pois adoro vinho e sidra (#poorpeoplefeelings), e imagino que vou me embebedar com esse troço. Frankfurt é conhecida como a menor metrópole do mundo e é uma cidade autônoma, assim como Berlin. Não sei ao certo o que me aguarda, mas é desse sentimento que me alimento. Adoro o novo.