O pombo

Era uma vez um pombo que queria muito ser outra coisa. Foi quando leu sobre um pássaro mitológico num pedaço de jornal deitado próximo a migalhas de biscoito que ele descobriu o que seria essa outra coisa. A reportagem falava sobre países em crise econômica que ressurgiam das cinzas, como a fênix, e trazia uma ilustração da tal ave em vibrantes tons de laranja, amarelo e vermelho, emergindo do meio de um punhado de material inerte, as imponentes asas abertas, envergadura enorme com penas largas e lustrosa; bico alongado, forte e ameaçador. Olhos atentos e ao mesmo tempo corteses e generosos. O pombo não teve dúvida, havia nascido no corpo errado e passaria o resto de sua curta e enfadonha vida procurando uma maneira de ser que ele não era: uma fênix.Passou sua adolescência na porta de um salão cuja especialidade era transformar hominídeas morenas em ruivas e loiras. Tentou por dezenas de vezes se banhar no pote de tintura, mas tudo o que conseguiu foram toalhadas que lhe custaram penas acinzentados e um pouco de dignidade. Tentou, também, mergulhar na panela de um cozinheiro que preparava um ensopado de tomates com cenouras, a cor seduziu nosso determinado amigo que quase virou atração principal no jantar do mestre cuca naquela noite.

Atormentado por seu desejo e abandonado por seus amigos de infância que tinham se tornado simples pombos de praça ou pombos correio, decidiu dar uma pausa em sua jornada rumo a excelência pombal. Pousou num dos parapeitos do prédio mais alto da cidade e ficou lá de cima observando o universo ao qual pertencia. Percebeu com contentamento que o que faltava ali era uma ave elegante como a que vira no pedaço de papel, que ela tornaria o lugar mais interessante, todos os outros pombos se apaixonariam por ele, desejariam sê-lo ou tê-lo.

Bateu asas até a fonte de água mais próxima, bebericou um pouco, levantou sua cabeça, olhou ao redor e percebeu que visto de cima o mundo era mais incompleto e merecedor de sua vindoura beleza. Olhou para o céu, viu um enorme e velho avião sumir por entre nuvens com cheiro de maciez. Viu próximo à fonte crianças humanas correndo atrás de pardais paramentos e um cão sujo e feliz urinando na árvore onde sua mãe chocou o ovo de onde ele um dia saiu, para então ela fugir para o sul com uma coruja buraqueira que lhe prometera pipoca frita na manteiga e amendoins torrados a vontade. Quis voar para longe dali, não precisar mais ser uma fênix, não ter que mostrar para os outros que era capaz de ser o que quisesse, queria que o mundo voltasse a precisar daquela outra coisa que ele não era.

Foi até o telhado onde vivia, debaixo de uma caixa d’água de amianto que se apoiava em vigas de madeira carcomida. Juntou seus trapos, rasgou o recorte de jornal que guardava, aquele com o desenho da fênix, e jogou os pedaços ao vento. Se despediu de duas ratazanas com quem dividia a morada, disse que voaria por aí procurando um novo sentido para a vida, e se, não encontrasse, não teria problema, voltaria para casa e se candidataria a uma vaga numa repartição pública da cidade.

Ele não chegou a ir muito longe, sentia-se cansado, pesado, vazio e errático demais. Se ele soubesse que parar para descansar no galho mais frondoso daquele carvalho significaria seu fim, talvez tivesse pousado ali antes. Um gavião fêmea pegou nosso quase amigo com suas garras maternais e levou para seu ninho, onde filhotes com bicos agudos e famintos desfizeram o corpo do pombo como se desfizera o sonho do pobre coitado poucas horas antes. Os gaviõezinhos devoravam a carne que não tinha sabor de pombo, nem de fênix, mas de frustração e desalento. Um deles poderia jurar que aquilo ali não os faria bem, mas já era tarde demais. Morreram dias depois de constipação. A mãe observou seus rebentos perderem suas vidas precocemente sem nada fazer, ela entendia bem de destino e sabia que na próxima primavera teria uma ninhada mais forte e só os alimentaria com carne de preá
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