O menino do pombo e o pombo ou O abismo das paixões

Na vila onde nascera era costume entre as meninas e mulheres solteiras escrever as características do homem desejado num pedaço bem pequeno de pano, amarrá-lo no pé direito de um pombo e então soltar a ave num dos bosques da região. Se aquele pombo sobrevivesse aos próximos três dias, o desejo seria atendido e o amor de sua vida apareceria no dia da morte da ave. Caso contrário (se a ave morresse antes de três dias ou fosse imortal), era melhor entrar para um convento. O grande problema detectado pelas gerações mais novas era que um pombo podia viver por até vinte anos e a maioria das mulheres não queria esperar todo aquele tempo para se casar. Foi então que o prefeito teve uma ideia brilhante: decidiu que o dia de soltar o pombo aconteceria sempre na segunda quinta-feira do mês de julho, ao invés de cada pessoa soltar o pombo no dia que preferisse. E ainda mais, no domingo subsequente seriam liberados falcões ferozes e enormes e famintos e devoradores de pombos, com o intuito de ajudar suas eleitoras encalhadas a arrumar maridos de forma mais rápida e eficiente.

Oportunistas escreveram livros sobre como escolher o pombo correto e as palavras a serem escritas no pano: “Nada de escrever palavras grandes e rebuscadas, seja lá quem for que lê os pedidos e os atende prefere palavras curtas e claras, como: rico, fiel, mantenedor. Evite expressões, como bom pai, grande amante, taludo, pois essas podem gerar confusões, e reclamações posteriores nunca são aceitas”. O tipo de pano utilizado era importante, “nada de juta ou algodão, escreva num pedaço de cetim ou seda pura, que podem ser encontradas no armazém do Seu Agamenon”. Os pet-shops das cidades vizinhas se especializaram em vender o que prometiam ser pombos de subespécies exóticas, alguns gordos e pouco velozes, boas presas para os falcões; outros que exalavam um cheiro forte que atraía predadores a quilômetros de distância.

Às vésperas do Primeiro Dia Oficial da Soltura do Pombo o menino sentia-se confuso: sua mãe soltou seu pombo aos 13 anos e conheceu seu pai aos 18. Sua avó soltara o pombo aos nove e aos 12 já estava casada com seu avô. Não haviam registros de que homens já haviam participado do ritual e ele acreditava que seu pedido seria aceito como o de qualquer outra pessoa pois vivia em tempos em que se dizia que amor era tudo igual. E ideia de ter seu pombo estraçalhado por um falcão três dias após sua soltura o deixava desesperado.

Esperava que o pombo alçasse voo bem alto, viajasse por outros vilarejos, experimentasse todos os tipos de sementes disponíveis nessas terras e em outras, antes de se deitar a noite num ninho quentinho e morrer de velho. O pombo que ele escolhera tinha nascido no quintal de sua casa, ele o resgatara alguns meses antes, ainda filhote, quase sem penas caído do telhado. Cuidou do bicho e acreditava que a mãe do despenado havia sido capturada para ser vendida no mercado negro.

Decidiu soltar sua ave em outro local. O motorista do ônibus para a Capital estranhou aquele menino sair sozinho da vila justo naquele dia, de celebrações e festejos. Mas dirigiu pelas ruas sinuosas rumo a cidade grande, com seu único passageiro a bordo carregando uma caixa de sapatos cuja tampa não queria ficar no lugar.

Desceu do ônibus no meio do caminho, no ultimo ponto antes do veículo abandonar os limites geográficos de seu vilarejo. Ele frequentava aquela região com seu avô quando o velho ainda fazia comercio de queijos com moradores da zona rural, mas agora ele estava muito velho e cansado e os queijos daquele lugar nao eram bons como antigamente. Distraído com essas memórias, andou até a beira de um grande desfiladeiro, chamado de Abismo das Paixões.

Seu avô nunca o deixara chegar tão perto do enorme vão que se estendia por quilômetros, até quase se perder de vista. Lá no fundo se viam algumas árvores tortuosas, distantes, desinteressadas no que acontecia fora do buraco onde viviam. Seu avô dizia que a vista era extasiante, apaixonante, e que era perigosa pois muita gente havia se apaixonado pela vista e se perdido nas profundidades do abismo em tempos de desespero.

Pegou seu amigo de penas com muito cuidado e deixou a caixa de lado. Hesitou antes de abrir as mãos e deixá-lo livre, O mundo lá fora era tão hostil, seria melhor mantê-lo seguro em casa, no galinheiro com cerca de tela de metal feita por seu pai. O pombo já estava aprendendo a se comportar como as galinhas e elas já não o bicavam de forma feroz como outrora. Mas algo dentro dele dizia que era a hora de deixar seu companheiro ir. Liberou um dedo de cada vez, relaxando a pressão que fazia sobre o corpo da ave. A mesma não voou logo de cara, num primeiro momento parecia estar com medo da ventania que se abatia sobre eles ali na beirada daquele precipício. Olhou ao redor, olhou para o menino, ergueu a cabeça, estufou o peito e se lançou no vazio.

Sete anos se passaram, ele viu seus amigos e amigas crescerem, se apaixonarem e se casarem; se divorciarem e não saberem lidar com a solidão. As pessoas perderam interesse no ritual com os pombos no dia em que a Apple lançou um pombo eletrônico que tinha painel de LCD sensível ao toque e se conectava a qualquer rede wi-fi sem muita dificuldade. Todos preferiam ficar com o pombo e utilizá-lo para acessar uma das trezes indispensáveis redes sociais disponiveis naquela época.

Num dia besta como outro qualquer, ele voltava do seu trabalho como balconista na mercearia da rua principal quando viu seu pombo descansando sobre a caixa de correio de uma casa na qual ele nunca tinha reparado até então. O não mais menino, o agora jovem rapaz, se aproximou do animal acreditando que também seria reconhecido, mas quando estava a dois passos de tocá-lo, a ave bateu asas e voou para longe. Ele ficou ali, decepcionado com tamanha indiferença, esperava pelo menos uma arrulhadinha de alegria (sim, os pombos arrulham; eles não miam, nem cacarejam).

Quando passou por aquele sentimento e voltou a si, encontrou um rapaz parado ao seu lado, olhando para o céu na mesma direção que ele, em direção ao nada. Os dois se entreolharam e riram da situação. Um deles ofereceu um café para o outro, não se sabe se o café foi aceito ou não, mas o que dizem é que os dois viveram a mais engrandecedora história de amor daquelas bandas do continente. Até que um dia chegou a notícia de que um pombo ardiloso havia mergulhado para a morte numa panela fervilhante de frango ao molho pardo no restaurante da dona Quinzinha. Não se sabe se o amor resistiu àquele molho.

FIM

 

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O pombo

Era uma vez um pombo que queria muito ser outra coisa. Foi quando leu sobre um pássaro mitológico num pedaço de jornal deitado próximo a migalhas de biscoito que ele descobriu o que seria essa outra coisa. A reportagem falava sobre países em crise econômica que ressurgiam das cinzas, como a fênix, e trazia uma ilustração da tal ave em vibrantes tons de laranja, amarelo e vermelho, emergindo do meio de um punhado de material inerte, as imponentes asas abertas, envergadura enorme com penas largas e lustrosa; bico alongado, forte e ameaçador. Olhos atentos e ao mesmo tempo corteses e generosos. O pombo não teve dúvida, havia nascido no corpo errado e passaria o resto de sua curta e enfadonha vida procurando uma maneira de ser que ele não era: uma fênix.Passou sua adolescência na porta de um salão cuja especialidade era transformar hominídeas morenas em ruivas e loiras. Tentou por dezenas de vezes se banhar no pote de tintura, mas tudo o que conseguiu foram toalhadas que lhe custaram penas acinzentados e um pouco de dignidade. Tentou, também, mergulhar na panela de um cozinheiro que preparava um ensopado de tomates com cenouras, a cor seduziu nosso determinado amigo que quase virou atração principal no jantar do mestre cuca naquela noite.

Atormentado por seu desejo e abandonado por seus amigos de infância que tinham se tornado simples pombos de praça ou pombos correio, decidiu dar uma pausa em sua jornada rumo a excelência pombal. Pousou num dos parapeitos do prédio mais alto da cidade e ficou lá de cima observando o universo ao qual pertencia. Percebeu com contentamento que o que faltava ali era uma ave elegante como a que vira no pedaço de papel, que ela tornaria o lugar mais interessante, todos os outros pombos se apaixonariam por ele, desejariam sê-lo ou tê-lo.

Bateu asas até a fonte de água mais próxima, bebericou um pouco, levantou sua cabeça, olhou ao redor e percebeu que visto de cima o mundo era mais incompleto e merecedor de sua vindoura beleza. Olhou para o céu, viu um enorme e velho avião sumir por entre nuvens com cheiro de maciez. Viu próximo à fonte crianças humanas correndo atrás de pardais paramentos e um cão sujo e feliz urinando na árvore onde sua mãe chocou o ovo de onde ele um dia saiu, para então ela fugir para o sul com uma coruja buraqueira que lhe prometera pipoca frita na manteiga e amendoins torrados a vontade. Quis voar para longe dali, não precisar mais ser uma fênix, não ter que mostrar para os outros que era capaz de ser o que quisesse, queria que o mundo voltasse a precisar daquela outra coisa que ele não era.

Foi até o telhado onde vivia, debaixo de uma caixa d’água de amianto que se apoiava em vigas de madeira carcomida. Juntou seus trapos, rasgou o recorte de jornal que guardava, aquele com o desenho da fênix, e jogou os pedaços ao vento. Se despediu de duas ratazanas com quem dividia a morada, disse que voaria por aí procurando um novo sentido para a vida, e se, não encontrasse, não teria problema, voltaria para casa e se candidataria a uma vaga numa repartição pública da cidade.

Ele não chegou a ir muito longe, sentia-se cansado, pesado, vazio e errático demais. Se ele soubesse que parar para descansar no galho mais frondoso daquele carvalho significaria seu fim, talvez tivesse pousado ali antes. Um gavião fêmea pegou nosso quase amigo com suas garras maternais e levou para seu ninho, onde filhotes com bicos agudos e famintos desfizeram o corpo do pombo como se desfizera o sonho do pobre coitado poucas horas antes. Os gaviõezinhos devoravam a carne que não tinha sabor de pombo, nem de fênix, mas de frustração e desalento. Um deles poderia jurar que aquilo ali não os faria bem, mas já era tarde demais. Morreram dias depois de constipação. A mãe observou seus rebentos perderem suas vidas precocemente sem nada fazer, ela entendia bem de destino e sabia que na próxima primavera teria uma ninhada mais forte e só os alimentaria com carne de preá
.

Não posso pedir ao inverno que poupe uma roseira

Não espero “que todos os dias sejam de sol, nem que todas as sextas-feiras sejam de festa” mas acredito que não é exagero esperar ser amado, querido, necessário, não digo indispensável pois algumas das pessoas que eu mais amo já me ensinaram que ninguém é insubstituível, nem no mundo profissional nem no amoroso, então, necessário, isso eu posso ser? Ou melhor, eu consigo ser necessário para alguém? Não estou pedindo pela lua, c’mon!

Necessidade surge a partir de uma falta, carência ou até mesmo de um desejo. Verdade? Um desejo pode ser uma necessidade? Não sei, vou tentar seguir essa linha de raciocínio. Do que eu necessito no momento é despertar um sentimento em alguém, um desejo, uma necessidade cujo objeto de desejo/realização seja eu. Ficou claro? Preciso que alguém precise de mim, é isso. Quanta arrogância e prepotência, ou carência? Sei que as grandes empresas e corporações fazem isso o tempo todo, o marketing cria em nós vários desejos/necessidades e acabamos comprando mais roupas do que podemos usar e trocando de carro com mais frequência do que o planeta suporta. Mas estou falando de sentimentos, e não acho que posso contratar alguém para desenvolver uma campanha para mim. Ou posso?

Ë para isso que servem os terapeutas, cabeleireiros, cosmetologistas, as academias e os dermatologistas? Para dar uma valorizada no produto e quem sabe torna-lo mais interessante num mercado que a cada dia está mais exigente? Talvez. Essas ferramentas se bem utilizadas aumentam e muito as chances de qualquer ser humano chamar a atenção dos outros, com o intuito que for conveniente. Mas isso não é trapacear?

Tenho tantos amigos que entram na academia porque estão num “projeto Verão”, “projeto carnaval 2013”, “projeto Ibiza outubro de 2012”. Bacana, cada qual com suas prioridades, mas se meu objetivo vai além de uma farra ou de curtir uma estação, eu devo dar tanta importância a essa supervalorização da aparência? Isso é sustentável? Porque eu por exemplo sou mutante, ao mesmo tempo que estou enorme de grande, eu perco peso e paro de malhar. Num mês estou em fase de mania, feliz e realizado e nos dois meses seguintes me sinto deprimido e cansado querendo colo. Minha pele então, tem dias em que parece um Chokito, em outros está um pêssego. Alguém me bancaria, alguém necessita de um ser humano assim, com seus ciclos fisiológicos e músculos que se sustentam num rotina árdua de academia?

Antes que eu soe louco, eu adoro me cuidar, não sobreviveria sem consertar minha monocelha e estou adorando cuidar dos meus cabelos rebeldes uma vez por mês. Uso cremes hidratantes, protetor solar, pratico atividade física e ingiro complexos polivitamínicos. Mas a princípio isso é uma necessidade minha, de me sentir bem comigo, me cuidar, de me olhar e me achar legal. Nunca tinha pensado nisso tudo como forma de atrair o outro, porque para mim parecia muito claro que o outro deveria gostar de mim pelo que eu sou, como o meu ex parecia gostar, mas e quando o que eu sou não basta? Se eu, Fábio, não sou o que outro precisa, necessita ou procura, até onde é louvável que eu me permita mudar para me moldar dentro do que a demanda está exigindo? Mundo cruel esse, ou sou eu que penso demais e fico vendo chifre em cabeça de lhama?

Meu Deus. Se minha gerente começar a ler meu blog ela me demite. Mas os pacientes estão faltando, não tenho controle sobre isso, e eu acabo me jogando de cabeça em minha reflexões histriônicas. Hoje forma quatro faltosos, ou seja, pelo menos duas horas ociosas.

E digamos que eu tenha sorte e haja uma necessidade da qual de repente eu seja uma das respostas. Existe ainda a concorrência, sim, nunca leal quando se trata de coisas do coração. Pois coração é mesmo terra de ninguém, nem sempre o mais preparado é o escolhido, injusto como vestibular ou como qualquer outro processo seletivo. Me lembrei de uma cena de Grey’s Anatomy quando Meredith implora para que Derek a escolha, linda cena, eu não tenho memória muito fotográfica para essas coisas, mas essa cena e o diálogo ficaram marcados no meu hipocampo. O episódio se chama Bring the pain, nome bem sugestivo, han? O que Meredith Grey diz para seu amado é o seguinte:

“Okay, here it is. Your choice, it’s simple, her or me. And I’m sure she’s really great. But Derek, I love you. In a really, big really big pretend to like your taste in music, let you eat the last piece of cheesecake, hold a radio over my head outside your bedroom window, unfortunate way that makes me hate you… love you. So pick me. Choose me. Love me. I’ll be at Joe’s tonight so if you do decide to sign the papers, meet me there.”

Ah, se a vida real fosse tão simples e romântica como a ficção. Se implorar fosse bonito como Hollywood faz parecer. Eu não necessito de um McDreamy, talvez de um McSteamy (just kidding!), na verdade quem me chama atenção agora é um McLawyer, e se por ventura ele me escolhesse eu seria muito feliz, ou pelo menos tentaria. E olha que eu não sou nem estou carente, que é bem diferente, acreditem, pois eu já estive carente. Acho que era isso, texto ficou muito grande e eu comecei a ficar deprimido, sinal de que está na hora de parar e comer uns biscoitos de cacau com mel.

Ouvi ontem que eu deveria era estar em posição de escolher ao invés de ficar esperando ser escolhido. Eu Não estou esperando ser escolhido, isso é apenas uma parte do processo, mesmo que eu faça uma escolha eu espero ser escolhido. I need someone to pick me, choose me, love me.

Segue um poema bunitinho do Drummond que li pela primeira vez aos 10 anos com minha amada Professora de português Tereza, quem eu encontrei há algumas semanas no Palácio das Artes. Ela trouxe muita poesia pro meu mundo, assim como outras Terezas e Cristinas e Clarices.

Quadrilha

Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

 

 

A macumba e eu – Este post não contem macumba!

No one mourns the wicked

Eu estava voltando da casa de amigos que moravam a umas três quadras de mim, nós tínhamos brincado a tarde inteira de rouba-bandeira, eu estava completamente sujo de tanto cair no chão de terra vermelha e minha camiseta branca estava cheia de marcas das patas do dálmata enorme que eles tinham. Não me lembro do nome do cão, sei que ele era surdo, Monica e Richard não gostavam de brincar com ele porque, segundo a mãe, cachorros eram cheios de doenças, ainda mais aquele, que era deficiente. Eles só mantinham o cão porque o pai o havia ganhado de um sócio da empresa. Estranho, eu tinha mais carinho ainda pelo cão pelo fato dele ser deficiente, me compadecia, me lembro que ele gostava tanto quando eu corria atrás dele, Monica achava que eu tinha algum problema mental, eu ficava imaginando quando eles me proibiriam de entrar na casa deles, e na verdade eu tinha, eu tinha a mente mais inquieta do bairro. Bem, mas essa história não é sobre dálmatas surdos nem sobre minhas doenças mentais.

Resolvi tirar a camisa encardida para evitar que minha mãe brigasse comigo ao me ver chegar em casa. Não foi uma boa ideia. Quando eu estava dobrando a rua, minha camisa escorregou do meu ombro e caiu dentro de um prato de farofa de macumba. – Ahn, não! – foi o que eu gritei levando a mão a boca. Quais são as chances disso acontecer? Quase nulas se eu tivesse virado na rua de baixo, ou pelo menos na esquina de cima, mas não. Aquela esquina era famosa pelas macumbas fartas que recebia toda semana. Eu mais que depressa peguei a camiseta e sacudi a farofa, um pouco voou nos meus olhos e enquanto eu os esfregava para voltar a enxergar eu ouvi uma voz conhecida. Era meu vizinho, o garoto mais chato do bairro, morava bem naquela esquina e tinha visto tudo. Eu previ que seria motivo de chacota pro resto da rua em questão de minutos.

– Você está brincando com a macumba, Fábio!? Você é estranho demais! – ele me perguntou surpreso, a voz cheia de maldade. Eu nunca tinha gostado dele, ele batia nas crianças menores e, diziam as más línguas, que ele cheirava cola e, o que era pior, só estava na quarta-série porque colava, muito.

Fingi que não tinha ouvido e saí correndo. Caí, ralei o cotovelo, me levantei e em poucos segundos já estava dentro da minha casa debaixo do chuveiro. Fiquei pensando se a maldição da macumba poderia ter pegado em mim, passei álcool no corpo todo, menos nos olhos onde tinha caído farofa, porque eu era estranho mas não imbecil. Fiquei desesperado, não queria contar pra minha mãe, ela pensaria que eu estava brincando com a macumba, mas eu tinha que pedir pra ela me levar a igreja, afinal só mesmo o padre poderia purificar meus olhos.

Nessa hora eu quis tanto ser cristão, se eu fosse cristão minha mãe nunca acharia que eu brincaria na macumba dos outros. Queria tanto que minha mãe não me achasse estranho só por uma vez.

Saí do banho me sentindo sujo, enrolado na toalha fui atrás dela. Estava nervosa com meu irmão que tinha acabado de quebrar uma xícara de porcelana, presente de casamento. Vendo ela gritar daquele jeito por causa de um xícara e sabendo o tanto que ela era católica, achei melhor não dizer que eu estava contaminado com macumba naquele momento.

Vesti meus shorts, coloquei uma camiseta limpa e imaginei que talvez a macumba fosse um pedido por algo bom, talvez eu não estivesse condenado a morrer, quem sabe eu não ganharia no jogo do bicho ou me casaria com alguém rico? Saí de casa em direção a casa de minha avó.

– Tia, macumba pode ser pro bem? – perguntei a uma de minhas tias como quem não quer nada, mas ela notou que havia algo estranho em mim, talvez tenha sentido em minha aura o peso que eu carregava. Ela respondeu que eu não deveria ficar pensando nessas coisas e que macumba era só do diabo. Se era macumba, era do diabo e pronto. Se eu quisesse algo de bom eu deveria pedir pra Deus, e Ele não aceitava macumba.

Eu estava f*dido. Eu estava de mal de Deus e contaminado com algo que só ele poderia resolver. Resolvi que eu era criança e que Deus tinha que me aceitar de volta, afinal era uma urgência.

Voltei pra casa e corri pro meu quarto pensando em me ajoelhar e rezar, mas na época eu dormia com meu irmão e ele estava fazendo para-casa na cama dele. Pedi para que ele fosse pra mesa, afinal lá era o local adequado pra fazer a tarefa, apesar de que eu nunca a usava. Ele se recusou e eu o arrastei a força.

Sozinho, me ajoelhei e rezei. Pedi para que Deus e Jesus e os santos tirassem a macumba do meu olho, que eu era uma pessoa boa e que eu não tinha encostado naquilo por vontade própria. Eu rezava e ao mesmo tempo pensava que, se Deus era mesmo onipresente, ele deveria já saber que tudo aquilo era um mal entendido e tirar logo a macumba de mim, ou melhor, não deveria nem ter deixado minha camisa cair na farofa, ou mais, não deveria deixar existir macumbaria. Enfim, eu não estava em condições de questionar Deus. Rezei.

Dormi como um anjo naquela noite e no dia seguinte acordei cedo, voltei a dormir e mais uma vez cheguei atrasado na aula. Não tive tempo de pensar em outra coisa que não estudos-sociais e matemática e na hora do recreio meu vizinho que tinha me visto envolto na macumba veio até a mim. Tudo me voltou a cabeça e fiquei tenso. Ele me disse que não mais caçoaria de mim porque ele tinha visto que eu não era um moleque bobo, porque tinha-se que ser muito homem pra mexer em macumba. Achei aquilo o máximo, afinal eu era maior do que ele mas morria de medo do meliante, e a macumba de certa forma tinha me oferecido proteção. Ufa!

Cheguei em casa, almocei e fui pra rua procurar pelos meus amigos, não achei ninguém e fui até a esquina onde estava o prato de farofa com as velas vermelhas e pretas e um vaso de flores murchas. Fiquei olhando aquele amontoado de coisas e não consegui ver muito sentido em nada. Não vi nem deus nem o diabo naquilo. Me virei e nunca mais pensei naquele episódio, até hoje pela manhã, quando estava vindo pro plantão e vi uma macumba numa esquina perto do hospital.

Hoje em dia vira e mexe eu esbarro em algo pela rua que de certa forma me contamina, vezes pro bem, vezes para o mal. Não mudou muita coisa nesses mais de vinte anos, ainda fico perturbado quando algo fora da rotina me ocorre, quase sempre tenho reações desproporcionadas e sofro sem necessidade. Mas no fim vem aquela voz que me diz “calma, um dia de cada vez, o seu mundo ainda está em construção, o mundo muda num segundo e você também”. Das coisas ruins posso tirar sempre algo bom, e se não tirar, outros dias virão. E macumba é só macumba, como uma laranja é só uma laranja.

Meus pacientes estão se acumulando lá fora. Sábado lindo, dia de sol e eu trabalhando. Feliz.

Laura e meu terceiro dedo

Eu teria morrido velho e carrancudo sem nunca assumir que foi Laura que quase quebrou meu dedo naquela tarde quente de setembro. Eu tinha quase oito anos e estava praticamente na segunda serie, era o mais alto da minha turma, o que tinha a melhor letra cursiva e o que já sabia a diferença entre ditongos e hiatos. Só a Laura e a professora da turma não gostavam de mim. Laura porque ela era a líder de uma gangue de meninas gordas e fortes da segunda série que batiam em todo mundo e odiavam até a si mesmas. A professora porque me achava muito lerdo e porque eu tinha quebrado o melhor apagador dela, sem querer.

Eu estava praticando o meu autismo próximo a uma pilastra quando ela e sua turma me cercaram. Eu não tinha nada para oferecer naquele dia, não tinha levado biscoitos recheados nem cigarrinhos de chocolate pra escola. Laura esboçou um sorriso, jogou minha merendeira do He-Man no chão e me empurrou, foi quando quase quebrei o terceiro dedo da mão direita, caí estatelado e rolei pra longe dela. Na hora não senti nada, só doeu meu orgulho, ralado e ferido, mas dali até o fim do recreio houve tempo suficiente pro meu dedo ficar do tamanho de uma mexerica suculenta. Engoli o choro com medo de rirem de mim, havia dezenas de crianças sendo crianças no pátio poeirento da escola estadual onde estudei até a terceira série.

A professora me viu entrando na sala de aula logo após tocar o sinal de fim do recreio com cara de dor e o dedo enorme, pulsando, e ao invés de me acolher fez cara de que não era aquela a década de se combater o bullying e continuou escrevendo no quadro negro, indiferente, usando gizes de várias cores para desenhar palavras que começavam com “d” de dor e “e” de extraordinária.

Quando o sinal tocou novamente algumas horas depois eu corri pra fora da sala e minha prima me esperava pra irmos embora juntos. Ela me alertou que minha mãe me bateria por eu estar voltando machucado pra casa, de novo, e não aceitou mentir comigo, dizer que eu havia caído. Ela achava mais nobre que minha mãe soubesse que eu estava apanhando de uma coleguinha. Na época não havia transporte escolar e as mães nos deixavam mais soltos no mundo. Acho que existiam menos psicopatas comedores de criancinha, ou não.  Não sei como que aquelas mães se ocupavam tanto que não podiam buscar seus filhos na escola! Pauta pra um novo post.

Cheguei em casa e minha mãe me levou de uniforme e tudo pro pronto socorro, ganhei uma talinha de dedo e ela, compadecida, ainda me pagou um sorvete. Não apanhei de mais ninguém naquele dia e voltei de ônibus pra casa, me sentindo um herói de guerra, exibindo meu curativo que já estava todo lambuzado de sorvete.

Graças ao sistema ultrapassado de educação e avaliação, Laura tomou bomba e não me acompanhou pra segunda série,  naquela época a turma praticamente não mudava de um ano pro outro, muitas vezes até o professor passava de ano com a turminha. Depois de me ter mandado pro pronto-socorro ela nunca mais mexeu comigo, mas eu ainda assim morria de medo dela e dentro de minha cabeça eu dava pulos de alegria quando ela faltava a escola.

Hoje em dia toda vez que dou uma topada com o dedo em algum lugar me lembro daquela maldita menina. E dos meus amiguinhos de turma não consigo me recordar de nenhum. Injusto esse mecanismo de memória primitiva que imprimiu na minha cabeça a cara de Laura e deixou que todos os outros ficassem no esquecimento.  Espero nunca reconhece-la se um dia cruzar novamente o seu caminho.

Lembrei desse episódio essa semana quando conversava  com minha irmã/cunhada sobre a decisão dela e de meu irmão de matricularem Izabelle na escolinha infantil. Achei louvável a iniciativa mas dentro da minha cabeça fiquei imaginando as Laura’s soltas pelo mundo correndo atrás de Izzie tentando roubar seus cigarrinhos de chocolate. Mas afinal não vendem mais cigarrinhos de chocolate, aquilo sim era uma imoralidade! Acho que Izzie ficará segura. Ou não.