Magricela

 

Ela era só mais uma menina magrela de joelhos de cebola que apanhava da mãe quando deixava suas roupas de domingo se sujarem de calda do bolo de cenoura com chocolate, que avó religiosamente fazia em dias de festa. Naquele dia conseguiu fugir por três vezes, ainda não era nem meio dia e seu vestido azul com fita branca já estava coberto de poesia, poeira, barro e um pouco de chocolate. Sua mãe era mestre em pegá-la pelos cabelos, sempre armados e muito crespos, segurava com força enquanto a puxava para perto das palmadas e beliscões. A menina gritava e esperneava, mesmo quando não doía, já havia aprendido que aquilo era parte do ritual que a mãe precisava assistir para finalmente deixá-la em paz.

Tinha um irmão muito mais velho que havia se mudado para a capital com a promessa de que um dia voltaria para levá-la para a terra das escadas rolantes, onde em cada esquina havia uma venda de balas e doces e sorvetes de mais de oito sabores diferentes. Ela não esperava por ele porque sabia que a mãe nunca permitiria que ela partisse e não queria se separar da sua avó que já era frágil e, segundo o padre do vilarejo, iria se encontrar com Jesus muito em breve. Na avó ela havia derramado toda a sua alegria desde que o pai morrera, foi ele que a ensinou a contar histórias sobre gigantes e fazer laço no cadarço do primeiro tênis que ela ganhou quando entrou para a escola aos sete anos.

Ela não gostava da escola, só ia porque era obrigada, não conseguia prestar muita atenção e o pouco que aprendia a mãe corrigia em casa: você não veio de macaco nenhum, foi Nosso Senhor Jesus Cristo que nos criou sua imagem e semelhança, apenas para servi-lo. Ela não entendia como a professora falava de civilizações com mais de cinco mil anos de idade e Jesus só tinha dois mil, e não entendia como era esse negócio de servir a Jesus, aprendera certa feita que os servos sempre se rebelavam porque numa sociedade justa ninguém deveria servir a ninguém.

Desde muito pequena aprendeu a fugir pela porta lateral da igreja durante a missa, só voltava durante a “paz de Cristo” porque sabia que a mãe procuraria por ela para que apertassem as mãos e se abraçassem celebrando a paz do Senhor. Sua mãe a acordava muito cedo para tomar banho e colocar sua roupa bonita para a missa, ela não gostava de ir mas adorava colocar vestidos rodados e desde sua primeira comunhão percebeu que a hóstia tinha gosto de chuva e desde então gostava de comer aquele pedacinho de sabe-se-lá-o-que que o padre colocava em sua boca.

Sua melhor e única amiga verdadeira era uma vaca, Gaúcha ela se chamava, branca com manchas pretas nas pernas e na cabeça. A vaca era de um vizinho mas vivia pastando nas terras da avó e gostava muito de comer os biscoitos duros e restos de pão que a menina levava para ela toda tarde quando ia visitar a mãe de seu falecido pai. Gaúcha não era muito de conversa, mas em um determinado dia a ruminante salvou a vida da menina ao alertá-la sobre uma chuva forte que abateria sobre a vila.

Um dia sua tia careca a segurou pelo braço e disse: menina, você não gosta de estudar, não sabe arrumar uma casa, não tem modo algum, não gosta de igreja e nem é bonita, o que você vai fazer da vida? A menina não sabia nem que tinha que fazer alguma coisa da vida, acreditava que no momento certo, como que num passe de mágica, ela se tornaria alta e esbelta e seu cabelo deixaria de ser crespo para descer pelas costas num lindo rabo de cavalo acobreado. Ela achava que as surras que sua mãe lhe dava serviriam para isso, colocar um rumo em sua vida.

Saiu a procura do que fazer de sua vida. Bailarina não queria ser, elas dançavam, mas do jeito que alguém mandava, ela queria sempre dançar do jeito que achava legal, balançando os braços e pulando para trás. Professora não seria interessante porque ela gostava de deixar as pessoas pensarem o que quisessem, no que fosse mais bonito para elas e, segundo sua mãe, professores serviam para enfiar ideias na cabeça das pessoas e confundi-las. Astronauta não porque odiava usar roupa fechada. Médica não porque tinha muito sangue e cocô e gente gritando. Dentista não, carteiro não. Começou a se desesperar.

Sentou-se num banco na praça da matriz, ao seu lado um caixeiro viajante a perguntou o porquê de uma mocinha tão bonita estar com a cara tão fechada. Ela contou sua história para o homem, apesar de saber que estava proibida de conversar com estranhos desde que deixou uma cigana entrar em sua casa e a mulher roubou o rádio, que era a alegria da mãe. O homem, após ouvir tudo atentamente, colocou sua mala sobre o banco, abriu as duas fivelas que a mantinham fechada e tirou lá de dentro uma pequena sanfona. Disse à menina que trocaria o instrumento por um beijo no rosto e um sorriso verdadeiro.

Ela chegou em casa com a sanfona, disse para a mãe que a havia ganhado de um homem na rua, apanhou de chinelo e chorou até dormir. No dia seguinte esperou a mãe sair para o trabalho, tanto procurou até que achou o instrumento enfiado no meio de umas colchas velhas. Decidiu não ir à escola, levaria outra surra, mas não se importava. Brincava com o instrumento na porta de casa quando foi descoberta por um caça talentos da capital.

Aos 16 anos já havia rodado por todos os estados do país, era exposta como uma macaca de circo com seu pequeno instrumento. Algumas pessoas chegavam até ela oferecendo ajuda, a libertariam daquele homem tirano que a explorava. Ela não entendia, achava que aquele homem tirano a estava salvando de sua vida miserável e sem rumo de outrora. Sentia saudades da sua terra, queria saber de sua avó, da Gaúcha, mas tinha medo de voltar e não ter mais nada lá para ela. Aos 23 se casou com um homem muito rico que a levou para o exterior onde aprendeu a gostar de comidas exóticas e a usar roupas que lhe causavam desconforto respiratório. Teve dois filhos, muito feios, parecidos com o pai, ela os amava como nunca amara nada nesse mundo.

Pouco antes de morrer ela percebeu que nunca havia se encantado com nada. Sentiu-se vazia, sentiu-se sozinha e quis chorar. Seus joelhos voltaram a ser joelhos de cebola, mas agora a culpa era da artrose que devorava suas articulações como escaravelhos que devoram a carne de animais mortos. Tudo o que queria era rever sua tia e perguntar se era ali que ela deveria mesmo ter chegado, se era ali onde ela se encontrava nesse exato momento, que a tia esperava que a menina um dia repousasse. Não sabia se tinha feito algo da vida, se a vida havia feito algo dela. Sentia que já era tarde para ela, que se pelo menos tivesse acreditado em algum deus agora ela estaria indo rumo a um paraíso, mas sabia que só estava mesmo deixando de ser o que ela nunca tinha sido.

Desencantou-se em paz aos 97 anos, cercada de outras meninas e meninos magricelos octogenários cheios de lindas histórias, largados pelos filhos na casa de repouso da cidade.

 

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