O menino do pombo e o pombo ou O abismo das paixões

Na vila onde nascera era costume entre as meninas e mulheres solteiras escrever as características do homem desejado num pedaço bem pequeno de pano, amarrá-lo no pé direito de um pombo e então soltar a ave num dos bosques da região. Se aquele pombo sobrevivesse aos próximos três dias, o desejo seria atendido e o amor de sua vida apareceria no dia da morte da ave. Caso contrário (se a ave morresse antes de três dias ou fosse imortal), era melhor entrar para um convento. O grande problema detectado pelas gerações mais novas era que um pombo podia viver por até vinte anos e a maioria das mulheres não queria esperar todo aquele tempo para se casar. Foi então que o prefeito teve uma ideia brilhante: decidiu que o dia de soltar o pombo aconteceria sempre na segunda quinta-feira do mês de julho, ao invés de cada pessoa soltar o pombo no dia que preferisse. E ainda mais, no domingo subsequente seriam liberados falcões ferozes e enormes e famintos e devoradores de pombos, com o intuito de ajudar suas eleitoras encalhadas a arrumar maridos de forma mais rápida e eficiente.

Oportunistas escreveram livros sobre como escolher o pombo correto e as palavras a serem escritas no pano: “Nada de escrever palavras grandes e rebuscadas, seja lá quem for que lê os pedidos e os atende prefere palavras curtas e claras, como: rico, fiel, mantenedor. Evite expressões, como bom pai, grande amante, taludo, pois essas podem gerar confusões, e reclamações posteriores nunca são aceitas”. O tipo de pano utilizado era importante, “nada de juta ou algodão, escreva num pedaço de cetim ou seda pura, que podem ser encontradas no armazém do Seu Agamenon”. Os pet-shops das cidades vizinhas se especializaram em vender o que prometiam ser pombos de subespécies exóticas, alguns gordos e pouco velozes, boas presas para os falcões; outros que exalavam um cheiro forte que atraía predadores a quilômetros de distância.

Às vésperas do Primeiro Dia Oficial da Soltura do Pombo o menino sentia-se confuso: sua mãe soltou seu pombo aos 13 anos e conheceu seu pai aos 18. Sua avó soltara o pombo aos nove e aos 12 já estava casada com seu avô. Não haviam registros de que homens já haviam participado do ritual e ele acreditava que seu pedido seria aceito como o de qualquer outra pessoa pois vivia em tempos em que se dizia que amor era tudo igual. E ideia de ter seu pombo estraçalhado por um falcão três dias após sua soltura o deixava desesperado.

Esperava que o pombo alçasse voo bem alto, viajasse por outros vilarejos, experimentasse todos os tipos de sementes disponíveis nessas terras e em outras, antes de se deitar a noite num ninho quentinho e morrer de velho. O pombo que ele escolhera tinha nascido no quintal de sua casa, ele o resgatara alguns meses antes, ainda filhote, quase sem penas caído do telhado. Cuidou do bicho e acreditava que a mãe do despenado havia sido capturada para ser vendida no mercado negro.

Decidiu soltar sua ave em outro local. O motorista do ônibus para a Capital estranhou aquele menino sair sozinho da vila justo naquele dia, de celebrações e festejos. Mas dirigiu pelas ruas sinuosas rumo a cidade grande, com seu único passageiro a bordo carregando uma caixa de sapatos cuja tampa não queria ficar no lugar.

Desceu do ônibus no meio do caminho, no ultimo ponto antes do veículo abandonar os limites geográficos de seu vilarejo. Ele frequentava aquela região com seu avô quando o velho ainda fazia comercio de queijos com moradores da zona rural, mas agora ele estava muito velho e cansado e os queijos daquele lugar nao eram bons como antigamente. Distraído com essas memórias, andou até a beira de um grande desfiladeiro, chamado de Abismo das Paixões.

Seu avô nunca o deixara chegar tão perto do enorme vão que se estendia por quilômetros, até quase se perder de vista. Lá no fundo se viam algumas árvores tortuosas, distantes, desinteressadas no que acontecia fora do buraco onde viviam. Seu avô dizia que a vista era extasiante, apaixonante, e que era perigosa pois muita gente havia se apaixonado pela vista e se perdido nas profundidades do abismo em tempos de desespero.

Pegou seu amigo de penas com muito cuidado e deixou a caixa de lado. Hesitou antes de abrir as mãos e deixá-lo livre, O mundo lá fora era tão hostil, seria melhor mantê-lo seguro em casa, no galinheiro com cerca de tela de metal feita por seu pai. O pombo já estava aprendendo a se comportar como as galinhas e elas já não o bicavam de forma feroz como outrora. Mas algo dentro dele dizia que era a hora de deixar seu companheiro ir. Liberou um dedo de cada vez, relaxando a pressão que fazia sobre o corpo da ave. A mesma não voou logo de cara, num primeiro momento parecia estar com medo da ventania que se abatia sobre eles ali na beirada daquele precipício. Olhou ao redor, olhou para o menino, ergueu a cabeça, estufou o peito e se lançou no vazio.

Sete anos se passaram, ele viu seus amigos e amigas crescerem, se apaixonarem e se casarem; se divorciarem e não saberem lidar com a solidão. As pessoas perderam interesse no ritual com os pombos no dia em que a Apple lançou um pombo eletrônico que tinha painel de LCD sensível ao toque e se conectava a qualquer rede wi-fi sem muita dificuldade. Todos preferiam ficar com o pombo e utilizá-lo para acessar uma das trezes indispensáveis redes sociais disponiveis naquela época.

Num dia besta como outro qualquer, ele voltava do seu trabalho como balconista na mercearia da rua principal quando viu seu pombo descansando sobre a caixa de correio de uma casa na qual ele nunca tinha reparado até então. O não mais menino, o agora jovem rapaz, se aproximou do animal acreditando que também seria reconhecido, mas quando estava a dois passos de tocá-lo, a ave bateu asas e voou para longe. Ele ficou ali, decepcionado com tamanha indiferença, esperava pelo menos uma arrulhadinha de alegria (sim, os pombos arrulham; eles não miam, nem cacarejam).

Quando passou por aquele sentimento e voltou a si, encontrou um rapaz parado ao seu lado, olhando para o céu na mesma direção que ele, em direção ao nada. Os dois se entreolharam e riram da situação. Um deles ofereceu um café para o outro, não se sabe se o café foi aceito ou não, mas o que dizem é que os dois viveram a mais engrandecedora história de amor daquelas bandas do continente. Até que um dia chegou a notícia de que um pombo ardiloso havia mergulhado para a morte numa panela fervilhante de frango ao molho pardo no restaurante da dona Quinzinha. Não se sabe se o amor resistiu àquele molho.

FIM

 

Pedaço de sonho com chá

Parece mesmo é que

o pedaço teu dentro de mim

é maior que a maioria dos meus

pedacinhos.

Não consigo digeri-lo,

metaboliza-lo,

nem regurgitar

ou glicosilar

Vai ficar é aqui.

 

Sorte mesmo é que

a gente cresce,

pros lados e pra dentro.

E esse teu pedaço

que ocupa um espaço enorme agora,

em meses ocupará só um canto

do lado de um divertículo que

sempre me inflama.

 

Dia desses me roubaram

um beijo.

Sonhei com isso.

Mas no sonho era você.

Tentando devolver meu pedaço

que habita em ti.

Chorei no sonho.

Na vida real

tomei um tarja preta e voltei

a roncar.

 

Me sinto despedaçado.

 

É injusto pedir que você

me coloque no lugar.

Que sirva de

cola.

Para algo que não

partiu.

 

Pedaços de outros

também fazem parte

do que chamo de

eu.

A força que tenho

para me recompor,

roubei,

de um caixeiro viajante,

em São Francisco,

um aperto de mãos e

pah!

Me tornei forte assim.

 

Partes roubadas,

outras reformadas

algumas emprestadas,

outras compartilhadas.

Tem até parte

que enfiaram na gente.

Umas leves, outras pesadas.

A que deixastes em mim

é leve.

Cheiro de primeira chuva,

É cor de rosa e tem gosto de biscoito frito.

Tá aqui.

Se quiser vir buscar

Faço chá,

roubo-te um beijo

e digo

Adeus.

 

Alguém disse que você deve comprar ou se casar com qualquer coisa que te fizer dar uma risadinha, um sorriso ou gargalhar, não importa quem ou quão caro seja. Com o passar do tempo, sorrir de verdade vai ficando difícil, gargalhar raro e a gente para de distribuir risinhos bobos pra qualquer um. Uma parte de mim sorria sempre que te via, outra chorava de medo de você. Uma parte de mim gargalhava com as suas historias e outra queria muito fazer parte da sua vida. Uma parte de mim era infantil e soltava risos sapecas quando você caia no sono do meu lado, imaginando que você seria meu pra todo sempre, como uma maldição; e essa mesma parte de mim achava que você não gostava dela.

Tem partes da gente das quais a sentimos vergonha, outras que nos trazem orgulho, algumas mostramos pra todo mundo, outras só mostrei pra você. Tinha medo que você se livrasse de pedaços meus pelas quais estimo, assumo que sou apegado demais a coisas que não me fazem bem. Mas cuidado ao sair por ai arrancando pedaços das pessoas, pedaços da gente que não nos fazem bem com o tempo se dissolvem ou encolhem e fazem pouca diferença no meio do todo, não é gentil apagar pedaços das pessoas.

 

E o fim é parte da história, mesmo que súbito.

 

Fábio Oliveira de Souza, BH, 10 de julho de 2016.

 

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Não tire partes das pessoas, só acrescente.

O poder, o cabelo, o medo e outras coisas do saco.

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Porque se fôssemos mesmo só um saco, um pacote de coisas ruins misturadas com coisas boas, tudo seria mais fácil.  O bom e o ruim estariam aqui dentro e eu saberia o que eles representam, rotulados e carimbados. Só que o pacote na verdade é cheio de coisas suas, se ruins ou boas é a sua experiencia com cada uma delas é que dirá. Naquela exata ocasião quem você é, onde está, que sapato está usando, como está emocionalmente, para onde está indo e com quem, tudo isso é que definirá se a coisa dentro de você é ruim ou boa ou as duas coisas.  Tudo isso pode fazer com que algo que ontem foi bom hoje seja o preludio do apocalipse.

O choro. Nesses últimos dias tirei essa coisa do pacote por três vezes. 1. Ao sentir que eu e o sistema havíamos falhado com um paciente. Fui pra dentro do meu carro e chorei por uns 10 minutos antes de sair pra almoçar. 2. Ao sentir que eu e o sistema havíamos sido eficientes com outro paciente. Chorei em casa, olhando para o teto e pensando que quando eu menos espero o universo conspira para que algo bom aconteça. Estudar ajuda o universo a conspirar a meu favor nesse caso. 3. Ao sentir que eu havia falhado comigo mesmo nesses últimos dias e que com isso havia magoado quem amava. Chorei um pouco a cada dia, choro que vinha de um suspiro ou de uma recordação. Chorar para mim já significou algo muito bom, chorava ao ver filmes que me tocavam, ao ouvir palavras que me emocionavam, ao me sentir triste com o mundo. Depois parei de chorar para não parecer fraco. E agora que voltei a chorar fiquei sem saber se era algo bom ou ruim num primeiro momento. Decidi que era bom porque pode ser um sinal de que ainda sou parte humano.

O medo. Baratas, aranhas e seres rastejantes a parte, eu quase nunca tive medo de nada nesse universo onde nos jogaram. Tenho que excluir lobisomens e altura também. A ultima já encaro numa boa, lobisomens já sei que não existem e o resto não deixei virar fobia. Aprendi a ter medo de minha finitude. Me disseram que isso era sinal de fraqueza. Então passei a ter medo mesmo só de decepcionar as pessoas, porque eu achava que não tinha esse poder e preferia não o ter de qualquer forma. Mas não é uma opção.

A força. Por muito tempo encarei o fato de alguém ser forte um risco de que essa pessoa se tornasse um tirano. Já vi tanta gente forte usando essa vantagem para oprimir e fazer sofrer. Maridos que batiam nas esposas, crianças maiores que humilhavam as menores. Eu preferia ser fraquinho e franzino e ter a voz fraca, não que eu me sujeitasse a ser oprimido, mas não queria de jeito nenhum ser opressor. Só que a força da gente está também é nas palavras e nos gestos, e eu cresci demais, e oprimir o próximo é mais fácil do que se pensa. Tudo que eu queria era que os meus atos incautos não repercutissem nas pessoas muitas vezes inocentes ao meu redor.

A culpa. Mãe é o melhor bicho que evolui das bactérias de bilhões de anos atrás do sopão primordial direto pra dentro de nossas casas. E são as melhores em plantar culpa em nossas mentes atormentadas. Sempre me senti culpado, tempo todo, um gasto enorme de energia. Por ser preguiçoso ou por ter tirado nota melhor que meu coleguinha ou por ser mais alto, ou mais feio, ou mais imperfeito, ou afeminado. Minha mãe achava que se eu me sentisse culpado eu cresceria mais robusto, mas a culpa tem horas que é tão pesada que não me deixar respirar direito. Acho que a culpa nunca é boa, mas pode ser necessária. Estou cheio dela.

O poder. Não o poder do tipo força descomunal ou habilidade de controlar a mente das pessoas, disso já falei. O poder no sentido de ser capaz de. Poder ser, poder ter, poder chegar, poder sentir, poder enxergar, poder comprar, poder sorrir, poder apagar. O meu poder esbarra nas minhas duvidas. Poder é bom e sempre será. Mas o poder devia andar sempre de mãozinhas dadas com o dever. Queria entender mais dos meus deveres para que os poderes não me soassem por vezes tão inúteis.

O cabelo. Quando eu era bobo, eu achava que um dia magicamente meus cabelos se tornariam volumosos, sedosos e viçosos e negros como algo muito preto. Eu teria um lindo topete e seria feliz para sempre. Só que quando eles, os cabelos, começaram a cair eu vi que não daria tempo pra que a transformação se desse e eu então fiquei deprimido e angustiado. Cabelo é bom porque protege a cabeça do sol, fora isso para que ele serve se não para nos dividir ainda mais? Para mim, se eu tivesse que decidir hoje, cabelo seria, sim, uma coisa ruim.

A vergonha. Como um tímido de humor duvidoso e personalidade borderline era de se esperar que a vergonha para mim fosse sempre algo ruim. Pronto, ruim. Mas é ela que mais me tira da minha zona de conforto, que me desestabiliza, que me faz refletir sobre minhas trapalhadas. Não humilhação que disso ninguém precisa, mas a vergonha me tira do sério. Já tive vergonha das minhas roupas, da voz, da sexualidade, da minha origem. Hoje só tenho vergonha de não aprender com meus erros. Vergonha de ainda acreditar demais no ser humano e acabar me machucando e machucando os outros por causa da minha ingenuidade/despreparo. Sim, vergonha é bom.

O erro. Quem muito se desculpa é quem muito erra. Mas também é quem se percebe como potencial agente causador de danos e de certa forma tem o cuidado de tentar no mínimo empatia com o sentimento do outro. Eu sempre me desculpei por tudo, mental ou verbalmente, desculpas por ser diferente, por ser burro, por ser inteligente, por ter atrasado, por não ter percebido, por ter te subestimado. Um dia me disseram para parar que estava chato. E estava. É bom mudar pelo menos com quem se erra já que os mesmos erros nos perseguem. Erro é ruim, e inevitável por vezes. Pedir desculpas é sempre bom.

E por aí vai. Você tira a coisa do seu pacote, olha bem pra ela e vê se naquela ocasião ela será boa ou não. Hoje eu tirei um bom punhado de saudades do meu pacote encardido. Olhei para ele, cintilava, pulsava e fazia doer. Na duvida se me faria bem ou mal, se era saudade boa ou ruim, a meti de volta no fundo do saco, debaixo da preguiça de acordar cedo  e da compulsão por chocolate. E a saudade está lá. Meia ruim por causa do momento, meia boa por sua natureza. Tem hora que não interessa se é bom ou não, o que é importa é se é hora de tirar de onde está ou não. Se vale a pena encarar, ou não.

O amor da minha vida

Não é difícil achar o amor da sua vida. A menos que você esteja trancado dentro de casa isolado do resto do mundo com medo de ser atingido pelo próximo apocalipse zumbi, não é difícil. O amor da sua vida estará sempre ali na esquina acenando pra você. Quando vai comprar pão sem lavar o rosto, quando você passa por ali correndo atrás do seu cão que fugiu em disparada pelo portão que sua tia esqueceu aberto, quando você vai manobrar o carro do seu irmão só de pijamas jurando que ninguém vai te ver porque está cedo ou tarde demais. O amor da sua vida estará ali acenando, com um vigor de um sinalizador de aeroporto em processo de balizagem, com bandeiras vermelhas e cones alaranjados. Nunca reparou?

Vida a gente só tem uma, é o que dizem os consensos, mas se pararmos para analisar são várias mini-vidinhas dentro de uma vidona que pode ser gigantesca caso você cuide de seus joelhos e venha a viver por muito tempo. É comum pessoas em abstinência de álcool, cocaína ou qualquer outra droga, e dispostos a assim se manterem, falarem sobre seu passado como “quando eu levava aquela vida…” Com o amor não é diferente. A droga mais bem aceita socialmente nos tira ou nos leva para vidas diferentes, e quando esse amor se vai costuma levar aquela mini-vida junto. Parece que o mundo vai-se acabar, que tudo perdeu o sentido. Mas calma, pode ser apenas o fim de uma mini-vida, a que se iniciará quando um novo amor da sua vida chegar pode ser bem mais interessante e apaixonante. Ou não. Queria mesmo é que a vida fosse só uma mesmo.

Como o amor é um sentimento anormal eu acredito que a maioria das pessoas ainda não encontrou o amor de suas vidas por possuírem genes mais evoluídos que as possibilitam ignorar essas pragas que atormentam a sociedade judaico-cristã-capitalista-ocidental desde os tempos do Éden. Porque enxergar algo que brilha e pisca e te hipnotiza e seduz, que vai te fazer se sentir a pessoa mais especial e sortuda e abençoada do mundo se isso um dia desaparecerá e só ficarão a desilusão, o vazio e o pra sempre que se acabou? Para que suspirar e se arrepiar ao toque de alguém que um dia estará tocando outros e outras com o mesmo carinho e proferindo as mesmas palavras doces? Parece instinto autodestrutivo e talvez a seleção natural esteja agindo rapidamente para que amores da vida sejam ignorados e para que vivamos e nos reproduzamos dentro de relações com menos pressão e envolvimento sentimental.

É mais fácil perder um piriguete ou um peguete do que um amor da vida. É mais fácil rejeitar ligações ou ignorar mensagens de um ficante do que do amor de sua vida. O amor da vida só aparece e toma conta de você se você assim permitir, se estiver de peito aberto e disposto a correr riscos. Se estiver leve e distraído ele pulará em você e te fará a pessoa mais feliz do mundo, por tempo a ser determinado. As outras opções trarão prazer rápido e fugaz enquanto você fica na espreita, achando que o amor de sua vida não vem, ou fazendo o maior esforço para que ele nunca apareça.

Caso você seja você mesmo o amor de sua vida poderá ficar mais tempo ao seu lado, a menos que você seja desinteressante e chato. Fingir ser quem não é pode terminar em tragédia, você poderá atrair o amor da vida de outra pessoa e mais cedo ou mais tarde isso terminará em lágrimas. Se você fizer o amor de sua vida rir e comprar-lhe doces e bombons ele pousará ao seu lado, sereno, mas doces e bombons causam doenças e tem gente que acaba perdendo um dedo, dentes ou até os pés por causa deles. Se você for rico e bem-sucedido você pode até oferecer mais conforto para seu amor, mas dizem que o bom vida está nos detalhes que somente a simplicidade pode trazer.

Repito. Não é difícil achar o amor da sua vida. Mas você quer achar? E quando achar, o que fará dele?

Eu achei o amor da minha vida. Sempre morri de medo que eu não fosse o amor da vida dele, mas é um medo que não devo sentir porque não é algo que eu possa controlar e aprendi que ter medo de coisas assim é perda de tempo. Tema para outra discussão. O que eu sempre quis era que  o amor da minha vida sempre me fizesse rir e me arrepiar quando estivesse ao meu lado, porque a vida não é fácil e os outros amores geralmente nos fazem sofrer por demais. O que eu sempre quis era que o amor fosse pela vida, pela minha, pela dele, e que o resto a gente resolvesse comendo pudim e ouvindo Frank Sinatra.

sonhar beijar amar

Bala de canhão

floating or falling?

Ainda há um pouco de seu gosto na minha boca
Ainda há um pouco de você embolado em minha dúvida
Ainda é um pouco difícil de dizer o que está acontecendo

Ainda há um pouco de sua presença, sua energia
Ainda há um pouco de seu rosto que eu não beijei
Aos poucos você me invade
E ainda não consigo ver o que está acontecendo

Pedras me ensinaram a voar
O amor me ensinou a mentir
A vida me ensinou a morrer
Sendo assim, não é tão difícil cair
Quando você flutua como uma bala de canhão

Ainda há um pouco de sua música em meus ouvidos
Ainda há um pouco de suas palavras que desejo ouvir
Você se aproxima um pouco de mim
Tão próximo, que eu não consigo ver o que está acontecendo

Pedras me ensinaram a voar
O amor me ensinou a mentir
A vida me ensinou a morrer
Então não é tão difícil cair
Quando você flutua como um canhão

Pedras me ensinaram a voar
O amor me ensinou a chorar
Então venha, coragem!
Ensine-me a ser tímido
Porque não é difícil cair
E eu não quero assustá-lo
Não é difícil cair
E eu não quero perder
Não é difícil crescer
Quando você está ciente de que você simplesmente… não sabe nada

Damien Rice – tradução livre.

A interpretação de muitos mundos ou É assim

Afagos e carícias não trocados

me doem.

Das gargalhadas que ainda não ouvi

sinto falta.

Quando descobrimos que a felicidade chegou

o que dela fica?

O que se esvai?

 

As pessoas mudam.

Ou são sempre aquilo pro que elas nasceram?

São os erros que se repetem.

Porque achamos que eventualmente se tornarão acertos?

Ou porque o que é errado para um

é a verdade cravada na carne do outro?

 

O amor que eu quero para mim

é ainda aquele amor feinho

que planta beijo de três cores ao redor da casa.

Ou ele se transformou nesse meio tempo

com as revistas de moda, os esteroides, as cirurgias plásticas?

Foi ele que mudou e me deixou pra trás

ou eu que fiquei aqui, estoico, sozinho?

 

Eu que nem sou dono de mim

e insisto em querer ser a pessoa de outro alguém.

Eu que nem mudo.

Que vejo a beleza nas pequenas coisas.

E me esqueço que tem um mundo ao meu redor.

Que não gira em torno de mim,

mas me acerta em cheio quando roda e gira e se mexe.

 

Dizem que amor feinho não tem ilusão,

que o que ele tem é Esperança.

Mas não me disseram que ele sangra.

Que ele se esmaga quando o mundo passa por cima dele.

Que o amor feinho não olha pros outros,

mas que uma hora ele deixaria de olhar também…

para mim.

Fabio Oliveira de Souza,

photo

“Nich mehr und nich weniger”

“We act as though comfort and luxury were the chief requirements of life, when all that we need to make us really happy is something to be enthusiastic about.” - Charles Kingsley

“We act as though comfort and luxury were the chief requirements of life, when all that we need to make us really happy is something to be enthusiastic about.” – Charles Kingsley

 

Te dou um segundo pra pensar
 no que a vida leva e traz
 e em tudo o que fazemos com muito empenho e suor e etc e tal e ela assim, num átimo de tempo, desfaz.
 E outro segundo para vossa mercê esquecer tudo o que te apraz e você já nem tem mais. Se conseguiu, meus parabéns. Eu levei 33 anos para, copiosamente, falhar. As nossas vidas são mesmo um ciclo nada virtuoso que se repete escancaradamente em nossas fuças sem que se perceba ou consiga interferir? Por falha nossa? Culpa do sistema? Do PT, da Dilma? Procuramos sempre pelo mesmo, e, fatidicamente, sempre terminaremos onde começamos? Que eu estou ficando velho e cometendo os mesmos erros todos nós já sabemos, mas um dia isso vai ser diferente porque eu vou aprender a ser gente?

Dia desses estava estudando síndrome coronariana aguda com a TV ligada e dento do tubo Carrie Bradshaw se perguntava “Assim, quando se trata de finanças e namoro, eu não posso evitar, e pergunto: Por que continuamos a investir?” É óbvio que eu parei de estudar e fui prestar atenção, na ingênua expectativa de que aquele episódio secreto de Sex and the city contivesse a resposta para uma das perguntas primordiais. Eu já havia, inclusive, assistido àquele episódio.

Parece mesmo que os pensamentos são ladrões
 que só servem para me roubar tempo e levar a minha paz e me impedir de aprender a manejar uma dor torácica na sala de emergência. Bom seria se eu fosse aquele leão lá do mato… Sinto que estou só pra descobrir o que é bom, ou ruim, ou tanto faz; pois não adianta ouvir dos outros, ler o que um especialista escreveu ou acreditar que um ser todo-poderoso-imaginário vai em algum momento me abençoar com o poder de escolher o caminho que devo seguir, para, então, ser feliz. Estou com medo, parece que de tanto não entender, de tanto errar, que eu vou desaparecendo,
 mas estou sempre lá,
 parece que por um momento
 eu fujo, sem nunca ter saído do meu incomodo lugar.

E eu não vivo de ilusão, não, a ilusão é que vive de mim, me assediando. Atrás de mim, me esfregando na cara que NUNCA terei o que persigo, mas que não devo nunca parar, porque senão me foge e eu serei, para sempre, esse ser que finge que é feliz, que acredita que é feliz mas que na verdade nem sabe o que é essa tal felicidade.

Tenho escutado muita música nos últimos dias e, providencialmente, treinado meu alemão. Hoje na academia o modo aleatório do aplicativo de música me trouxe uma chamada Willst du bei mir bleiben, que em português quer dizer algo do tipo “Você quer/vai ficar comigo?” Segue abaixo minha tradução livre e inspirada. Alemão é uma língua dura, como a vida, e, como ela, pode emocionar e causar arrepios.

Dê-me alguns segundos.

Hum, o que te dizer?

Talvez você até já tenha adivinhado,

talvez não.

Quero te perguntar algo

e tomo todo meu fôlego

Meu coração na mão, e então eu ouso…

 

Você quer ficar comigo?

a partir de agora, até o final?

Quer ser meu aconchego,

nesse mundo de caos?

Você vai ficar comigo?

nessa longa jornada,

até que o espetáculo termine pra nós dois?

 

Talvez não seja sempre fácil,

mas a carga dos dias pesados ​​será mais leve

se a compartilharmos

e ajudarmos um ao outro

Diga silenciosamente ou grite em voz alta…

Diga, se tiver certeza, então que se atreva…

 

Você quer ficar comigo?

a partir de agora, até o final?

Quer ser meu aconchego, nesse mundo de caos?

Você vai ficar comigo?

Nessa longa jornada, até que o espetáculo termine pra nós dois?

– Klee