Velhos costumes

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A garotinha com roupa de hospital correu até a septuagenária que chegara à enfermaria numa cadeira de rodas pela quinta vez naquele mês: “Minha mãe odeia a senhora, mas eu te amo tanto”. Ah, a inocência e a espontaneidade das crianças. A mãe da menina logo a puxou pelo braço e levou até o leito onde ela estava em observação. Câncer no cérebro, a pobre menina estava aguardando resultados de exames e início da quimioterapia para então ser operada, a ala pediátrica estava interditada por causa de casos de infecção hospitalar e o oncologista resolveu colocá-la junto dos adultos para evitar que a mãe voltasse para o interior e entregasse o destino da filha nas mãos do pastor local.

A história das duas começou ao mesmo tempo, ou melhor, a da menina começara e a da senhora entrara na reta final, na verdade.

As enfermeiras desconfiavam que Dona Diva simulava as crises de desmaio para voltar ao hospital e ficar perto da menina. Os médicos não concordavam, como eles sempre fazem. Preferiam deixá-la por dois dias em observação e a liberar quando tivessem certeza de que não aconteceriam novas crises. A velha não tinha mais família, todos fizeram questão de morrer antes dela. Morava sozinha no primeiro andar de um prédio antigo e quando passava mal ligava para o vizinho de seu celular de ultima geração pedindo socorro.

As duas se conheceram na primeira internação das vidas delas. Na ocasião, as enfermeiras tentavam convencer a criança a deixá-las colher sangue para exames, dizendo que não doeria e que seria rápido. A senhora chegou devagar e desmentiu em alto e bom tom, olhando nos olhos da garota, disse que doeria muito e que era melhor ela se acostumar, pois aquilo seria sua rotina a partir dali.  As enfermeiras e a mãe da garota ficaram furiosas mas contentes porque a menina parou de se debater e estendeu o braço para a agulhada.

Minutos depois Dona Diva se aproximou novamente, passou a mão nos cabelos da menina e disse que uma cuidaria da outra. A menina assustada não falava nada, só consentira balançando a cabeça os olhos brilhando de medo do que estava por vir.

Quando Diva teve alta daquela internação, prometeu que traria novidades do mundo lá de fora para a criança. Tinha decidido que aquela criança seria seu ultimo projeto, sua redenção. Ficou três dias fora e quando voltou só esperou a mãe da menina sair para o banheiro para correr até a cabeceira do leito pediátrico. “Os gigantes, meu bem querer, eles tomaram conta da cidade. Por isso temos que ficar aqui, escondidas. Eu terei de ir lá fora lutar contra eles por alguns dias, mas estarei sempre de volta para te ver e te contar como estão as coisas”.

A mãe não gostava daquela amizade, preferia que a filha tivesse paz ao invés de ficar servindo de distração para uma idosa mentalmente instável. Mas até ela as vezes se distraía com as histórias de gigantes e as batalhas travadas contra eles nas ruas da cidade. No dia da cirurgia da menina, Dona Diva contou como estavam construindo uma bomba cheia de coisas boas que seria lançada no centro da cidade, sabidamente os gigantes detestavam coisas boas e depois da bomba ou eles morreriam ou iriam se mudar para Contagem.

A senhora teve alta sem poder ver a menina, ouviu das enfermeiras que a cirurgia tinha sido um sucesso e que tudo correria bem. Cinco dias depois voltou ao hospital, não encontrou ninguém além de uma outra idosa na enfermaria. Mais tarde ficou sabendo que houve complicação no pós-operatório, muita febre, convulsões e que a frágil garotinha sucumbira. Quis gritar, quis xingar deus, que subvertera a ordem das coisas. Ela voltava ao hospital por causa da menina e estava pronta para ser levada no lugar dela. Mas deus nunca facilitara as coisas para Dona Diva.

Depois daquele dia nunca mais voltou ao hospital, nem naquele nem a nenhum outro. Não conheceu mais crianças, não importunou mais o seu vizinho de apartamento. Juntou alguns pares de roupa e viajou para a praia. Sentia um frio nos ossos que tinha certeza de que só o calor da praia resolveria. Já não tinha certeza de mais nada mas queria muito que seu sofrimento acabasse. Abriu com dificuldade uma toalha sobre a areia, deitou-se devagar e tomou sol por cerca de meia hora, com roupa e tudo. Levantou-se e sentiu-se mais viva do que nunca, tomou um chá gelado e resolveu que aquele seria o último dia ruim de sua vida.

Não foi o último, ela teve muitos mais dias ruins, quando o cachorro do vizinho a derrubou no hall de entrada do prédio, por exemplo. Ou quando na praça de alimentação do shopping duas adolescentes esbarraram nela e derramaram, cada uma, um copo de milk-shake de morango em suas roupas desbotadas. Ela sentia-se livre, não tinha mais a quem ajudar, nem mais a quem atrapalhar. Ela só precisava ser. Ser.

Pedaço de sonho com chá

Parece mesmo é que

o pedaço teu dentro de mim

é maior que a maioria dos meus

pedacinhos.

Não consigo digeri-lo,

metaboliza-lo,

nem regurgitar

ou glicosilar

Vai ficar é aqui.

 

Sorte mesmo é que

a gente cresce,

pros lados e pra dentro.

E esse teu pedaço

que ocupa um espaço enorme agora,

em meses ocupará só um canto

do lado de um divertículo que

sempre me inflama.

 

Dia desses me roubaram

um beijo.

Sonhei com isso.

Mas no sonho era você.

Tentando devolver meu pedaço

que habita em ti.

Chorei no sonho.

Na vida real

tomei um tarja preta e voltei

a roncar.

 

Me sinto despedaçado.

 

É injusto pedir que você

me coloque no lugar.

Que sirva de

cola.

Para algo que não

partiu.

 

Pedaços de outros

também fazem parte

do que chamo de

eu.

A força que tenho

para me recompor,

roubei,

de um caixeiro viajante,

em São Francisco,

um aperto de mãos e

pah!

Me tornei forte assim.

 

Partes roubadas,

outras reformadas

algumas emprestadas,

outras compartilhadas.

Tem até parte

que enfiaram na gente.

Umas leves, outras pesadas.

A que deixastes em mim

é leve.

Cheiro de primeira chuva,

É cor de rosa e tem gosto de biscoito frito.

Tá aqui.

Se quiser vir buscar

Faço chá,

roubo-te um beijo

e digo

Adeus.

 

Alguém disse que você deve comprar ou se casar com qualquer coisa que te fizer dar uma risadinha, um sorriso ou gargalhar, não importa quem ou quão caro seja. Com o passar do tempo, sorrir de verdade vai ficando difícil, gargalhar raro e a gente para de distribuir risinhos bobos pra qualquer um. Uma parte de mim sorria sempre que te via, outra chorava de medo de você. Uma parte de mim gargalhava com as suas historias e outra queria muito fazer parte da sua vida. Uma parte de mim era infantil e soltava risos sapecas quando você caia no sono do meu lado, imaginando que você seria meu pra todo sempre, como uma maldição; e essa mesma parte de mim achava que você não gostava dela.

Tem partes da gente das quais a sentimos vergonha, outras que nos trazem orgulho, algumas mostramos pra todo mundo, outras só mostrei pra você. Tinha medo que você se livrasse de pedaços meus pelas quais estimo, assumo que sou apegado demais a coisas que não me fazem bem. Mas cuidado ao sair por ai arrancando pedaços das pessoas, pedaços da gente que não nos fazem bem com o tempo se dissolvem ou encolhem e fazem pouca diferença no meio do todo, não é gentil apagar pedaços das pessoas.

 

E o fim é parte da história, mesmo que súbito.

 

Fábio Oliveira de Souza, BH, 10 de julho de 2016.

 

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Não tire partes das pessoas, só acrescente.

Pelo cheiro da lua

Só porque é o amor da sua vida não precisa ser pra vida toda e, acredite, você vai sobreviver a esse e a outros possíveis amores e a algumas crises de asma e quem sabe até ao ebola. Ou não. Mas o importante é que na hora certa você entende isso, é quando consegue tirar o último retrato da parede. Depois de semanas encarando a fotografia, inventando desculpas para deixá-la ali; você, de olhos marejados, com dor no peito e sob suspiros que interrompem sua mão errante de remover aquele instantâneo de um momento feliz e empurra-lo pra dentro de uma gaveta escura; conseguirá. Ontem foi a minha vez.

Aquele sentimento de que você fez tudo errado mais uma vez, que as coisas poderiam ter sido diferentes, que nunca mais você vai querer conhecer outra pessoa e que você não serve para a vida a dois, costuma ir para a gaveta junto com o retrato e lá dentro se unem a um universo paralelo de sentimentos que já estavam ali, de outros verões.  E em breve você estará leve como uma pluma para ir ler seu livro no parque mais próximo. Aconselha-se não mexer nessa gaveta para que a entalpia daquele microcosmos ali não se desestabilize e exploda na sua cara, pelo menos por um tempo deixe tudo, o amor, a dor, as mágoas e a saudade, eles se tornarão cometas errantes que vão causar extinções em massa em outras freguesias.

A lua hoje está alta e enorme e sedutora, parece que se eu inspirar perto da janela sentirei seu cheiro, que eu acho que é parecido com o de lima. Não sei se é porque o inverno acabou de começar ou se que ela está assim porque resolveu ser gentil comigo. Olhei pra ela agora e percebi que esse satélite natural não é capaz de me oferecer tudo que eu preciso ou desejo aqui e agora. É só uma bola enorme de rocha que gira por aí, como milhões de outras. Mas me sinto melhor com ela onde está, me apeguei ao seu contorno e suas crateras. Se ela se for eu serei menos Fábio, afinal eu não sou o mesmo que era antes de conhecê-la. Não poderia expulsá-la daqui de toda forma, mas poderia ignorá-la, ficar com raiva quando míngua ou fica escondida por entre nuvens. Mas gosto dela ali. Assim, às vezes perto, às vezes brilhante, as vezes nova ou ausente cuidando de seu problemas lunares em outro cantos da via láctea.

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O amor da minha vida

Não é difícil achar o amor da sua vida. A menos que você esteja trancado dentro de casa isolado do resto do mundo com medo de ser atingido pelo próximo apocalipse zumbi, não é difícil. O amor da sua vida estará sempre ali na esquina acenando pra você. Quando vai comprar pão sem lavar o rosto, quando você passa por ali correndo atrás do seu cão que fugiu em disparada pelo portão que sua tia esqueceu aberto, quando você vai manobrar o carro do seu irmão só de pijamas jurando que ninguém vai te ver porque está cedo ou tarde demais. O amor da sua vida estará ali acenando, com um vigor de um sinalizador de aeroporto em processo de balizagem, com bandeiras vermelhas e cones alaranjados. Nunca reparou?

Vida a gente só tem uma, é o que dizem os consensos, mas se pararmos para analisar são várias mini-vidinhas dentro de uma vidona que pode ser gigantesca caso você cuide de seus joelhos e venha a viver por muito tempo. É comum pessoas em abstinência de álcool, cocaína ou qualquer outra droga, e dispostos a assim se manterem, falarem sobre seu passado como “quando eu levava aquela vida…” Com o amor não é diferente. A droga mais bem aceita socialmente nos tira ou nos leva para vidas diferentes, e quando esse amor se vai costuma levar aquela mini-vida junto. Parece que o mundo vai-se acabar, que tudo perdeu o sentido. Mas calma, pode ser apenas o fim de uma mini-vida, a que se iniciará quando um novo amor da sua vida chegar pode ser bem mais interessante e apaixonante. Ou não. Queria mesmo é que a vida fosse só uma mesmo.

Como o amor é um sentimento anormal eu acredito que a maioria das pessoas ainda não encontrou o amor de suas vidas por possuírem genes mais evoluídos que as possibilitam ignorar essas pragas que atormentam a sociedade judaico-cristã-capitalista-ocidental desde os tempos do Éden. Porque enxergar algo que brilha e pisca e te hipnotiza e seduz, que vai te fazer se sentir a pessoa mais especial e sortuda e abençoada do mundo se isso um dia desaparecerá e só ficarão a desilusão, o vazio e o pra sempre que se acabou? Para que suspirar e se arrepiar ao toque de alguém que um dia estará tocando outros e outras com o mesmo carinho e proferindo as mesmas palavras doces? Parece instinto autodestrutivo e talvez a seleção natural esteja agindo rapidamente para que amores da vida sejam ignorados e para que vivamos e nos reproduzamos dentro de relações com menos pressão e envolvimento sentimental.

É mais fácil perder um piriguete ou um peguete do que um amor da vida. É mais fácil rejeitar ligações ou ignorar mensagens de um ficante do que do amor de sua vida. O amor da vida só aparece e toma conta de você se você assim permitir, se estiver de peito aberto e disposto a correr riscos. Se estiver leve e distraído ele pulará em você e te fará a pessoa mais feliz do mundo, por tempo a ser determinado. As outras opções trarão prazer rápido e fugaz enquanto você fica na espreita, achando que o amor de sua vida não vem, ou fazendo o maior esforço para que ele nunca apareça.

Caso você seja você mesmo o amor de sua vida poderá ficar mais tempo ao seu lado, a menos que você seja desinteressante e chato. Fingir ser quem não é pode terminar em tragédia, você poderá atrair o amor da vida de outra pessoa e mais cedo ou mais tarde isso terminará em lágrimas. Se você fizer o amor de sua vida rir e comprar-lhe doces e bombons ele pousará ao seu lado, sereno, mas doces e bombons causam doenças e tem gente que acaba perdendo um dedo, dentes ou até os pés por causa deles. Se você for rico e bem-sucedido você pode até oferecer mais conforto para seu amor, mas dizem que o bom vida está nos detalhes que somente a simplicidade pode trazer.

Repito. Não é difícil achar o amor da sua vida. Mas você quer achar? E quando achar, o que fará dele?

Eu achei o amor da minha vida. Sempre morri de medo que eu não fosse o amor da vida dele, mas é um medo que não devo sentir porque não é algo que eu possa controlar e aprendi que ter medo de coisas assim é perda de tempo. Tema para outra discussão. O que eu sempre quis era que  o amor da minha vida sempre me fizesse rir e me arrepiar quando estivesse ao meu lado, porque a vida não é fácil e os outros amores geralmente nos fazem sofrer por demais. O que eu sempre quis era que o amor fosse pela vida, pela minha, pela dele, e que o resto a gente resolvesse comendo pudim e ouvindo Frank Sinatra.

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Preciso Aprender a Ser Só

Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
Que sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou

Ah, o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem
É tão triste, vê
Meus olhos choram a falta dos teus
Esses teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor
Ah o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem
É tão triste, vê
Meus olhos choram a falta dos teus
Esses teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

Saudade roxa

É normal a gente ter saudade do que a gente jurava que tinha mas nunca teve? Bicho homem é o mais estranho de todos, com suas caras chatas, esse andar ereto desafiando a gravidade. Não dá pra confiar.

AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Linda Prado

Caiu no poço. Quem te tira?

Sob raios de sol que da janela iluminavam a porta do banheiro eu te vi chorar

Você disse que preferia não mais me amar

E deixou as minhas flores para trás

Era insustentável a leveza das pétalas

As marcas dos espinhos ficaram para sempre

Obcecado e devastado

Não consigo preparar o meu café

Eu me escondo do sol em todos os cantos

E choro

Porque isso é muito mais do que um simples adeus

Porque quando eu olhava em seus olhos,

Eu só via o azul

E você não estava mais lá

É apenas um sentimento, só mais um sentimento que eu tenho

Porque é difícil acreditar que acabou

Te tomei pela mão e te levei ao fundo do meu poço

Perdi o controle e em algum momento te quis de volta

Mas você fico por lá.

É difícil acreditar

Mas aquilo era tudo o que eu tinha naquele momento

Venha, tire sua roupa, confesse que ainda é meu

Estou rolando em uma cama de lágrimas

Ainda deitado no escuro

Sem sol, sem luz, sem você

Tanta coisa para dizer

Não é só o jeito como você sorri

É o jeito que vê através de meus olhos.

E do meu mais escuro olhar você se recusaria a fugir

a fugir do amor que se esforçou tanto para salvar

De todos os bichos do mundo eu quis você

(adaptação livre de Just a Feeling, Maroon Five)