Todos os carnavais

Já era quase meio dia e o suor misturado com suas lágrimas derretiam toda a fantasia feita de papel crepom que a mãe levara a manhã inteira improvisadamente preparando. E ela tinha sido categórica, “se nos perdermos vá para perto do chafariz que eu te encontrarei lá”. Mas ele descobrira, logo depois de fazer o trato com sua mãe, que não queria ser encontrado, na verdade soltara a mão de sua irmã mais velha de propósito quando ela de súbito se distraíra com um marinheiro descamisado descendo a ladeira com uma garrafa de bebida nas mãos. Passaram-se pelo menos dez minutos até que todos que ele conhecia desaparecessem na multidão, que seguia uma banda de marchinhas politicamente incorretas.

“Porque um rapazinho tão elegante está chorando em pleno carnaval?” – Perguntou-lhe uma senhora vestida de bailarina fúnebre tentando arrumar o capacete de papel que se desfazia na cabeça do menino. Ele não chorava porque estava com medo ou por ter-se perdido, ele chorava de pânico por não entender o que estava acontecendo com as pessoas que pareciam hipnotizadas por aquele ritmo musical. A velha tentou arrastá-lo até um policial na esquina, mas ele se desvencilhou de suas mãos enrugadas e correu para o mais longe que pôde de todo aquele barulho. Observou sereias, bruxas, homens das cavernas e muitas borboletas passarem por ele. Todos com um sorriso plástico estampado no rosto. Quanto mais dentes ele via, mais o choro inconsolável tomava conta de sua alma.

Sentiu saudades da época em que carnaval era só na televisão, “sou o ultimo dos tristes”, ele pensou. Foi quando sua mãe entrou na mercearia onde ele estava escondido, furiosa, o sorriso plástico partido ao meio dando lugar a um ranger de dentes colérico. E ele se sentiu bem, havia conseguido salvar sua mãe de toda aquela alegria. Ela retirou os restos da fantasia pendurados no garoto, ele se sentiu mais leve, ela sentiu que o punia. “Para você não tem mais Carnaval esse ano, você ouviu?”-  ele ouviu e se deleitou com a ideia.

Os anos se passaram e o carnaval sempre vinha, inexorável e colorido. Dizem que em algumas ocasiões o menino se fantasiava e improvisava uma folia com seus amigos imaginários. Outros acreditam que ele nunca conseguia sair de casa nessa época do ano, como se fosse amaldiçoado pelos deuses pagãos. Evita-se falar sobre ele em rodas de samba e bloquinhos de rua. “O moleque que chora no carnaval”, é como ele ficou conhecido. Parece que ano que vem a sua vida será tema de samba enredo de uma escola de samba na capital, ainda estão decidindo se falam sobre ele ou sobre o fim da pororoca. Resta esperar, o ano novo talvez nem chegue, mas o carnaval do ano que vem já está marcado.

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Toque do sol

Ele acreditava que quando era criança o céu era mais próximo do chão e, que quando ficava na ponta dos pés, era capaz até mesmo de tocar uma cumulonimbus e com suas pequenas mãos dissipar tempestades que insistiam em cair no dia de seu aniversário. O seu presente de aniversário predileto eram seis ou sete raios de sol que o tocavam entre as oito e nove da manhã. Agora, por causa do aquecimento global e do cinismo das pessoas, o céu havia se distanciado e evitar tempestades já não era tarefa tão simples.

Então, no dia de seu trigésimo quarto aniversário, tomou fôlego e vestiu sua capa de chuva, verde, a ganhara há mais de uma década de um professor estranho, que ao vê-lo correndo na chuva para assistir a sua aula sobre a Regra de L’Hôpital, se enterneceu. Pegou um livro empoeirado qualquer e deixou sua casa, sem saber para onde ia.

Chovia. Ele resolveu que um local onde não se molhasse tanto e onde servissem café com broa de fubá seria ideal para poder usar o livro, que era o único instrumento que ele tinha para transformar aquele aniversário num dia especial. A casa de sua avó era muito longe naquela época e os sentimentos requentados por demais para que o café dela permanecesse saboroso.

Sorria. A moça do balcão parecia mais contente do que um moça de balcão deveria estar num dia chuvoso e úmido como aquele. Não havia mais broa de fubá, elas se vendiam com uma rapidez inimaginável em dias nublados, foi o que a moça respondeu oferecendo-lhe biscoitos de polvilho escaldado. Mas biscoitos de polvilho escaldado não têm gosto de sol, foi o que ele pensou.

Sofria. O livro não era o melhor que ele tinha em casa e a cada parágrafo que lia mais próximo seu rosto ficava da mesa. Por volta da página 13 ele havia adormecido.

Why did you touch me?

Why did you touch me?

Acordou com cutucões em seu ombro, o barulho dos outros clientes da cafeteria se misturava com o que a chuva provocava lá fora. Se espreguiçou, esqueceu o livro sobre a mesa e saiu pra rua.

Como a chuva insistia em não passar e ele já não tinha o que fazer no mundo exterior, resolveu voltar para casa e esperar pelos telefonemas que talvez não receberia naquele dia. Passo a passo ele se arrastou até o seu prédio e foi abordado pelo porteiro. O girassol “foi deixado por um entregador, sem cartão, há uns cinco minutos, ele só disse que era para o senhor”.

O sol que ele não encontrou nem no céu nem num livro enfadonho estava ali, com suas raízes sedentas por água cravadas num pouco de terra num vaso de barro enfeitado com uma fita azul. Naquele dia ele cuidou da planta como se ela fosse a última do planeta. Dias depois ela secou e morreu num canto escuro.