Pedaço de sonho com chá

Parece mesmo é que

o pedaço teu dentro de mim

é maior que a maioria dos meus

pedacinhos.

Não consigo digeri-lo,

metaboliza-lo,

nem regurgitar

ou glicosilar

Vai ficar é aqui.

 

Sorte mesmo é que

a gente cresce,

pros lados e pra dentro.

E esse teu pedaço

que ocupa um espaço enorme agora,

em meses ocupará só um canto

do lado de um divertículo que

sempre me inflama.

 

Dia desses me roubaram

um beijo.

Sonhei com isso.

Mas no sonho era você.

Tentando devolver meu pedaço

que habita em ti.

Chorei no sonho.

Na vida real

tomei um tarja preta e voltei

a roncar.

 

Me sinto despedaçado.

 

É injusto pedir que você

me coloque no lugar.

Que sirva de

cola.

Para algo que não

partiu.

 

Pedaços de outros

também fazem parte

do que chamo de

eu.

A força que tenho

para me recompor,

roubei,

de um caixeiro viajante,

em São Francisco,

um aperto de mãos e

pah!

Me tornei forte assim.

 

Partes roubadas,

outras reformadas

algumas emprestadas,

outras compartilhadas.

Tem até parte

que enfiaram na gente.

Umas leves, outras pesadas.

A que deixastes em mim

é leve.

Cheiro de primeira chuva,

É cor de rosa e tem gosto de biscoito frito.

Tá aqui.

Se quiser vir buscar

Faço chá,

roubo-te um beijo

e digo

Adeus.

 

Alguém disse que você deve comprar ou se casar com qualquer coisa que te fizer dar uma risadinha, um sorriso ou gargalhar, não importa quem ou quão caro seja. Com o passar do tempo, sorrir de verdade vai ficando difícil, gargalhar raro e a gente para de distribuir risinhos bobos pra qualquer um. Uma parte de mim sorria sempre que te via, outra chorava de medo de você. Uma parte de mim gargalhava com as suas historias e outra queria muito fazer parte da sua vida. Uma parte de mim era infantil e soltava risos sapecas quando você caia no sono do meu lado, imaginando que você seria meu pra todo sempre, como uma maldição; e essa mesma parte de mim achava que você não gostava dela.

Tem partes da gente das quais a sentimos vergonha, outras que nos trazem orgulho, algumas mostramos pra todo mundo, outras só mostrei pra você. Tinha medo que você se livrasse de pedaços meus pelas quais estimo, assumo que sou apegado demais a coisas que não me fazem bem. Mas cuidado ao sair por ai arrancando pedaços das pessoas, pedaços da gente que não nos fazem bem com o tempo se dissolvem ou encolhem e fazem pouca diferença no meio do todo, não é gentil apagar pedaços das pessoas.

 

E o fim é parte da história, mesmo que súbito.

 

Fábio Oliveira de Souza, BH, 10 de julho de 2016.

 

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Não tire partes das pessoas, só acrescente.

Dar um tempo pro seu coração 

Essa música é poesia… De dor de cotovelo, mas é. Livre tradução.
“No dia que te conheci você disse pra nunca me apaixonar. Agora eu te entendo e sei que era na verdade só medo. Agora estamos aqui, tão perto e tão distantes, eu não passei no teste? 

Não quero partir seu coração, só quero dar a ele um tempo. Sei que você está assustado, não deveria ser assim, como se você tivesse cometido um erro. Só há uma vida pra se viver e não há tempo a se perder. Então deixe me dar um tempo pro seu coração.

Domingo você foi pra casa sozinho com lágrimas nos olhos. Eu liguei no seu celular, amor meu, mas você me ignorou. O mundo é nosso se nós o quisermos. E podemos tê-lo, se você segurar minha mão. Não há volta. Quero isso, você tem que entender.

Quando seus lábios tocam os meus, nossos corações batem como se fossem um só. Mas você escapa pelos meus dedos. Você sempre foge.

Porque você se feriu outrora, posso ver nos seus olhos. Você acha que afastará isso com um sorriso mas algumas coisas não dá pra disfarçar. Não quero partir seu coração e talvez eu consiga aliviar a dor. Deixe me dar um descanso pro seu coração. ”

E se?

Saudades das confusões do Apolo. E o mundo não mudou muito desde que publiquei isso. Só que o Apolo se foi =(

Fabio's hidden place

Estou lendo um pouco de pediatria, me atualizando. Gosto do tema mas tenho muita dificuldade com ele. Dos pacientes não gosto tanto, muito menos das mães neuróticas. Fiquei assustado quando li que no ano de 2010 morreram 12 crianças a cada minuto: de fome! É só um número que me apareceu no meio de um milhão de informações, poderia passar batido numa leitura dinâmica, que é o que costumo fazer com certos artigos. Mas isso me assustou. Uma criança a cada 5 segundos praticamente, em cinco segundos uma vidinha cheia de potencial… tempo que eu levo para fazer uma inspiração profunda no Pilates! Por falta de comida! Muito triste, desolador. Espero que esse número esteja em queda, meteórica e que em vários lugares do mundo o combate a fome seja priorizado frente a tópicos menos urgentes, como construção de pontes, estádios, e reajuste de salários de políticos. Tenho alguns pacientes…

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Pelo cheiro da lua

Só porque é o amor da sua vida não precisa ser pra vida toda e, acredite, você vai sobreviver a esse e a outros possíveis amores e a algumas crises de asma e quem sabe até ao ebola. Ou não. Mas o importante é que na hora certa você entende isso, é quando consegue tirar o último retrato da parede. Depois de semanas encarando a fotografia, inventando desculpas para deixá-la ali; você, de olhos marejados, com dor no peito e sob suspiros que interrompem sua mão errante de remover aquele instantâneo de um momento feliz e empurra-lo pra dentro de uma gaveta escura; conseguirá. Ontem foi a minha vez.

Aquele sentimento de que você fez tudo errado mais uma vez, que as coisas poderiam ter sido diferentes, que nunca mais você vai querer conhecer outra pessoa e que você não serve para a vida a dois, costuma ir para a gaveta junto com o retrato e lá dentro se unem a um universo paralelo de sentimentos que já estavam ali, de outros verões.  E em breve você estará leve como uma pluma para ir ler seu livro no parque mais próximo. Aconselha-se não mexer nessa gaveta para que a entalpia daquele microcosmos ali não se desestabilize e exploda na sua cara, pelo menos por um tempo deixe tudo, o amor, a dor, as mágoas e a saudade, eles se tornarão cometas errantes que vão causar extinções em massa em outras freguesias.

A lua hoje está alta e enorme e sedutora, parece que se eu inspirar perto da janela sentirei seu cheiro, que eu acho que é parecido com o de lima. Não sei se é porque o inverno acabou de começar ou se que ela está assim porque resolveu ser gentil comigo. Olhei pra ela agora e percebi que esse satélite natural não é capaz de me oferecer tudo que eu preciso ou desejo aqui e agora. É só uma bola enorme de rocha que gira por aí, como milhões de outras. Mas me sinto melhor com ela onde está, me apeguei ao seu contorno e suas crateras. Se ela se for eu serei menos Fábio, afinal eu não sou o mesmo que era antes de conhecê-la. Não poderia expulsá-la daqui de toda forma, mas poderia ignorá-la, ficar com raiva quando míngua ou fica escondida por entre nuvens. Mas gosto dela ali. Assim, às vezes perto, às vezes brilhante, as vezes nova ou ausente cuidando de seu problemas lunares em outro cantos da via láctea.

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O poder, o cabelo, o medo e outras coisas do saco.

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Porque se fôssemos mesmo só um saco, um pacote de coisas ruins misturadas com coisas boas, tudo seria mais fácil.  O bom e o ruim estariam aqui dentro e eu saberia o que eles representam, rotulados e carimbados. Só que o pacote na verdade é cheio de coisas suas, se ruins ou boas é a sua experiencia com cada uma delas é que dirá. Naquela exata ocasião quem você é, onde está, que sapato está usando, como está emocionalmente, para onde está indo e com quem, tudo isso é que definirá se a coisa dentro de você é ruim ou boa ou as duas coisas.  Tudo isso pode fazer com que algo que ontem foi bom hoje seja o preludio do apocalipse.

O choro. Nesses últimos dias tirei essa coisa do pacote por três vezes. 1. Ao sentir que eu e o sistema havíamos falhado com um paciente. Fui pra dentro do meu carro e chorei por uns 10 minutos antes de sair pra almoçar. 2. Ao sentir que eu e o sistema havíamos sido eficientes com outro paciente. Chorei em casa, olhando para o teto e pensando que quando eu menos espero o universo conspira para que algo bom aconteça. Estudar ajuda o universo a conspirar a meu favor nesse caso. 3. Ao sentir que eu havia falhado comigo mesmo nesses últimos dias e que com isso havia magoado quem amava. Chorei um pouco a cada dia, choro que vinha de um suspiro ou de uma recordação. Chorar para mim já significou algo muito bom, chorava ao ver filmes que me tocavam, ao ouvir palavras que me emocionavam, ao me sentir triste com o mundo. Depois parei de chorar para não parecer fraco. E agora que voltei a chorar fiquei sem saber se era algo bom ou ruim num primeiro momento. Decidi que era bom porque pode ser um sinal de que ainda sou parte humano.

O medo. Baratas, aranhas e seres rastejantes a parte, eu quase nunca tive medo de nada nesse universo onde nos jogaram. Tenho que excluir lobisomens e altura também. A ultima já encaro numa boa, lobisomens já sei que não existem e o resto não deixei virar fobia. Aprendi a ter medo de minha finitude. Me disseram que isso era sinal de fraqueza. Então passei a ter medo mesmo só de decepcionar as pessoas, porque eu achava que não tinha esse poder e preferia não o ter de qualquer forma. Mas não é uma opção.

A força. Por muito tempo encarei o fato de alguém ser forte um risco de que essa pessoa se tornasse um tirano. Já vi tanta gente forte usando essa vantagem para oprimir e fazer sofrer. Maridos que batiam nas esposas, crianças maiores que humilhavam as menores. Eu preferia ser fraquinho e franzino e ter a voz fraca, não que eu me sujeitasse a ser oprimido, mas não queria de jeito nenhum ser opressor. Só que a força da gente está também é nas palavras e nos gestos, e eu cresci demais, e oprimir o próximo é mais fácil do que se pensa. Tudo que eu queria era que os meus atos incautos não repercutissem nas pessoas muitas vezes inocentes ao meu redor.

A culpa. Mãe é o melhor bicho que evolui das bactérias de bilhões de anos atrás do sopão primordial direto pra dentro de nossas casas. E são as melhores em plantar culpa em nossas mentes atormentadas. Sempre me senti culpado, tempo todo, um gasto enorme de energia. Por ser preguiçoso ou por ter tirado nota melhor que meu coleguinha ou por ser mais alto, ou mais feio, ou mais imperfeito, ou afeminado. Minha mãe achava que se eu me sentisse culpado eu cresceria mais robusto, mas a culpa tem horas que é tão pesada que não me deixar respirar direito. Acho que a culpa nunca é boa, mas pode ser necessária. Estou cheio dela.

O poder. Não o poder do tipo força descomunal ou habilidade de controlar a mente das pessoas, disso já falei. O poder no sentido de ser capaz de. Poder ser, poder ter, poder chegar, poder sentir, poder enxergar, poder comprar, poder sorrir, poder apagar. O meu poder esbarra nas minhas duvidas. Poder é bom e sempre será. Mas o poder devia andar sempre de mãozinhas dadas com o dever. Queria entender mais dos meus deveres para que os poderes não me soassem por vezes tão inúteis.

O cabelo. Quando eu era bobo, eu achava que um dia magicamente meus cabelos se tornariam volumosos, sedosos e viçosos e negros como algo muito preto. Eu teria um lindo topete e seria feliz para sempre. Só que quando eles, os cabelos, começaram a cair eu vi que não daria tempo pra que a transformação se desse e eu então fiquei deprimido e angustiado. Cabelo é bom porque protege a cabeça do sol, fora isso para que ele serve se não para nos dividir ainda mais? Para mim, se eu tivesse que decidir hoje, cabelo seria, sim, uma coisa ruim.

A vergonha. Como um tímido de humor duvidoso e personalidade borderline era de se esperar que a vergonha para mim fosse sempre algo ruim. Pronto, ruim. Mas é ela que mais me tira da minha zona de conforto, que me desestabiliza, que me faz refletir sobre minhas trapalhadas. Não humilhação que disso ninguém precisa, mas a vergonha me tira do sério. Já tive vergonha das minhas roupas, da voz, da sexualidade, da minha origem. Hoje só tenho vergonha de não aprender com meus erros. Vergonha de ainda acreditar demais no ser humano e acabar me machucando e machucando os outros por causa da minha ingenuidade/despreparo. Sim, vergonha é bom.

O erro. Quem muito se desculpa é quem muito erra. Mas também é quem se percebe como potencial agente causador de danos e de certa forma tem o cuidado de tentar no mínimo empatia com o sentimento do outro. Eu sempre me desculpei por tudo, mental ou verbalmente, desculpas por ser diferente, por ser burro, por ser inteligente, por ter atrasado, por não ter percebido, por ter te subestimado. Um dia me disseram para parar que estava chato. E estava. É bom mudar pelo menos com quem se erra já que os mesmos erros nos perseguem. Erro é ruim, e inevitável por vezes. Pedir desculpas é sempre bom.

E por aí vai. Você tira a coisa do seu pacote, olha bem pra ela e vê se naquela ocasião ela será boa ou não. Hoje eu tirei um bom punhado de saudades do meu pacote encardido. Olhei para ele, cintilava, pulsava e fazia doer. Na duvida se me faria bem ou mal, se era saudade boa ou ruim, a meti de volta no fundo do saco, debaixo da preguiça de acordar cedo  e da compulsão por chocolate. E a saudade está lá. Meia ruim por causa do momento, meia boa por sua natureza. Tem hora que não interessa se é bom ou não, o que é importa é se é hora de tirar de onde está ou não. Se vale a pena encarar, ou não.

A abelha

A abelha que pousou em meu mousse de chocolate hoje na hora do almoço parecia confusa. De inicio, ela, ainda andando pelas bordas do prato, parecia mais interessada na calda do pudim de leite condensado, mas foi atraída para a montanha de mousse cremosa e aerada que se pôs em seu caminho. Ela subiu na sobremesa e de repente estava toda lambuzada com aquela massa marrom escura.

Fiquei preocupado com a saúde dela, morrer afogada na mousse não deve ser agradável. Nao tive nojo, tampouco medo dela, fiquei preocupado. Um ser vivo se vitimar na minha refeição não faria nada bem para meu coração já em frangalhos. Pensei em removê-la com meu garfo, mas ela se desvencilhou do doce e, ainda envolta nele, caiu sobre a mesa.

Se mexia e tentava bater as asas mas não conseguia se livrar daquela substancia pegajosa. Toda minúscula e frágil parecia estar perdendo a luta. Pensei em jogar umas gotas d’água nela, para que o doce escorresse por seu corpinho e ela então conseguisse sair dali voando.

Fiquei observando aquela terráquea alada com suas asas pregadas no corpo andando de um lado para o outro. Tudo por causa de uma mousse, que para meu paladar humanoide estava delicioso, mas pra abelha, que está acostumada a ir de flor em flor buscar substrato pra produzir mel, aquela minha sobremesa devia ter gosto de merda. E cor.

De repente ela conseguiu libertar uma patinha. Com essa, foi empurrando o doce de uma de suas asinhas até liberá-la da sujidade. Depois limpou suas costas e logo outra patinha, e outra patinha e a outra asa: livres! Em poucos segundos ela estava completamente limpa da sujeira da minha sobremesa. Ficou um tempo sobre a mesa batendo as asas sem voar, imagino que testando seu corpo, se aquecendo e esperando por um pedido de desculpas meu.

O garçom chegou e ela alçou voo, direto para o grande vão da porta da rua, onde se viam enormes árvores, algumas com flores, outras com faixas de “vende-se apartamento 3 quartos”. Ele praguejou: – Malditas moscas! Eu corrigi: – Não era uma mosca, era uma abelha. – Pior ainda, foi o que ele disse recolhendo meu prato. Pedi para que ele levasse também o da sobremesa, eu não a comeria, e ele: – A abelha sujou seu doce? Quer que eu troque? Acenei com a cabeça que não, na verdade o doce que era sujo, como muitas coisas que nós fazemos.

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To bee or not to bee?

O amor da minha vida

Não é difícil achar o amor da sua vida. A menos que você esteja trancado dentro de casa isolado do resto do mundo com medo de ser atingido pelo próximo apocalipse zumbi, não é difícil. O amor da sua vida estará sempre ali na esquina acenando pra você. Quando vai comprar pão sem lavar o rosto, quando você passa por ali correndo atrás do seu cão que fugiu em disparada pelo portão que sua tia esqueceu aberto, quando você vai manobrar o carro do seu irmão só de pijamas jurando que ninguém vai te ver porque está cedo ou tarde demais. O amor da sua vida estará ali acenando, com um vigor de um sinalizador de aeroporto em processo de balizagem, com bandeiras vermelhas e cones alaranjados. Nunca reparou?

Vida a gente só tem uma, é o que dizem os consensos, mas se pararmos para analisar são várias mini-vidinhas dentro de uma vidona que pode ser gigantesca caso você cuide de seus joelhos e venha a viver por muito tempo. É comum pessoas em abstinência de álcool, cocaína ou qualquer outra droga, e dispostos a assim se manterem, falarem sobre seu passado como “quando eu levava aquela vida…” Com o amor não é diferente. A droga mais bem aceita socialmente nos tira ou nos leva para vidas diferentes, e quando esse amor se vai costuma levar aquela mini-vida junto. Parece que o mundo vai-se acabar, que tudo perdeu o sentido. Mas calma, pode ser apenas o fim de uma mini-vida, a que se iniciará quando um novo amor da sua vida chegar pode ser bem mais interessante e apaixonante. Ou não. Queria mesmo é que a vida fosse só uma mesmo.

Como o amor é um sentimento anormal eu acredito que a maioria das pessoas ainda não encontrou o amor de suas vidas por possuírem genes mais evoluídos que as possibilitam ignorar essas pragas que atormentam a sociedade judaico-cristã-capitalista-ocidental desde os tempos do Éden. Porque enxergar algo que brilha e pisca e te hipnotiza e seduz, que vai te fazer se sentir a pessoa mais especial e sortuda e abençoada do mundo se isso um dia desaparecerá e só ficarão a desilusão, o vazio e o pra sempre que se acabou? Para que suspirar e se arrepiar ao toque de alguém que um dia estará tocando outros e outras com o mesmo carinho e proferindo as mesmas palavras doces? Parece instinto autodestrutivo e talvez a seleção natural esteja agindo rapidamente para que amores da vida sejam ignorados e para que vivamos e nos reproduzamos dentro de relações com menos pressão e envolvimento sentimental.

É mais fácil perder um piriguete ou um peguete do que um amor da vida. É mais fácil rejeitar ligações ou ignorar mensagens de um ficante do que do amor de sua vida. O amor da vida só aparece e toma conta de você se você assim permitir, se estiver de peito aberto e disposto a correr riscos. Se estiver leve e distraído ele pulará em você e te fará a pessoa mais feliz do mundo, por tempo a ser determinado. As outras opções trarão prazer rápido e fugaz enquanto você fica na espreita, achando que o amor de sua vida não vem, ou fazendo o maior esforço para que ele nunca apareça.

Caso você seja você mesmo o amor de sua vida poderá ficar mais tempo ao seu lado, a menos que você seja desinteressante e chato. Fingir ser quem não é pode terminar em tragédia, você poderá atrair o amor da vida de outra pessoa e mais cedo ou mais tarde isso terminará em lágrimas. Se você fizer o amor de sua vida rir e comprar-lhe doces e bombons ele pousará ao seu lado, sereno, mas doces e bombons causam doenças e tem gente que acaba perdendo um dedo, dentes ou até os pés por causa deles. Se você for rico e bem-sucedido você pode até oferecer mais conforto para seu amor, mas dizem que o bom vida está nos detalhes que somente a simplicidade pode trazer.

Repito. Não é difícil achar o amor da sua vida. Mas você quer achar? E quando achar, o que fará dele?

Eu achei o amor da minha vida. Sempre morri de medo que eu não fosse o amor da vida dele, mas é um medo que não devo sentir porque não é algo que eu possa controlar e aprendi que ter medo de coisas assim é perda de tempo. Tema para outra discussão. O que eu sempre quis era que  o amor da minha vida sempre me fizesse rir e me arrepiar quando estivesse ao meu lado, porque a vida não é fácil e os outros amores geralmente nos fazem sofrer por demais. O que eu sempre quis era que o amor fosse pela vida, pela minha, pela dele, e que o resto a gente resolvesse comendo pudim e ouvindo Frank Sinatra.

sonhar beijar amar