Belo Horizonte, 27 de agosto de 2017

Amor da minha vida,

Antes de começarmos gostaria de fazer alguns pedidos. A saber:

Primeiro – Venha devagarinho e se instale num canto do meu coração que se encontre vazio, nada de empurrar meus cães do canto deles, nem queira mexer nos outros dois cantos, um deles ocupado pelas minhas coisas de mongolóide nerd e o outro pelos meus amigos e familiares. Meu coração é quase um cubo, oito cantos, escolha o seu e se aloje, espaço não falta, vou te deixar me ajudar a preencher os outros cantos com o passar dos anos. Prometo te levar a lua, às estrelas e ao cinema, pelo menos duas vezes por mês. Só num canto você não vai ficar.

Segundo – Traga-me sempre alimentos saborosos. E não só para o corpo, para a alma. Entendo como alimentos saborosos: estórias que sua avó te contava quando você era criança, suas marcas de bexiga, um livro que te fez suspirar, um sorriso que você guardou pra mim o dia todo. Inclua aí chocolate meio amargo, torta de maçã e sorvete de flocos, e pronto.

Terceiro – “Seja você, mesmo que seja estranho”. Na hora de te escolher fui criterioso e se você passou pelo crivo deite e relaxe. Cresça comigo, evolua no que você julgar necessário. Estarei ao seu lado pra te empurrar pra cima quando estiver subindo, e se você descer um degrau te darei a mão para erguê-lo novamente, se essa for a sua vontade. Não tenha pressa, não precisa vir pronto.

Quarto – Peça desculpas quando fizer algo de que não se orgulha, mas nunca peça desculpas quando você puder dizer obrigado no lugar. “Desculpa por te fazer perder o filme por causa da minha dor de cabeça”deverá sempre ser substituído por um “obrigado por ter ficado e cuidado de mim”.

Quinto – Não sei nada sobre o amor. Aprendi muito sobre a vida, o universo e tudo mais das outras vezes em que amei, mas sobre o amor em si, sobre ele, nada. Então ignore todas as minhas demandas e faça o que você julgar conveniente em cada momento que passarmos juntos.

Sexto – Entenda que eu nasci em 1980 e já estou mais perto dos 50 que dos 20 anos. Mas meus joelhos ainda aguentam muita coisa, minha retina ainda não está cansada e acho que a maioria das coisas que eu tenho que aprender nessa vida eu ainda não aprendi. Se um dia eu soar como um adolescente rebelde, ou me comportar como uma criança sonhadora, não se assuste, prometo ser o homem dos seus sonhos concomitantemente.

Sétimo – Não faça de mim a sua vida, não traga-me um pedestal. Quero estar ao seu lado, ao lado da bagagem que você vai trazer consigo. Nunca acima, nunca abaixo. Venha e me ame até fazer chover e trovoar, mas saiba viver sem mim. Sinta uma estranha admiração pelo meu comportamento exótico e prometo te amar até o fim dos dias. Não quero te deixar jamais, mas estarei pronto para o dia em que você disser que não se sente confortável com o carinho que te faço no queixo. Jane Austen escreveu que ninguém jamais seria capaz de amar mais de uma vez na vida, te digo que ela mentia.

Pedidos simples e que podem ser atendidos ao longo do prazo de uma vida. A não observação desses ítens pode levar a uma vida ainda melhor do que o esperado, vai saber. Lista sujeita a alteração sem aviso prévio.

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No final das contas, tudo vai ficar bem

Estou falido, mas estou feliz; sou pobre, mas sou gentil.

Sou frágil, mas sou saudável, sim!

Estou dopado, mas tenho os pés no chão.

Sou louco, mas estou fascinado. Estou perdido, mas tenho esperança, meu caro.

E no final das contas tudo vai ficar muito, muito bem.

Porque eu tenho uma mão no bolso e a com a outra dou um high five.

 

Eu me sinto bêbado, mas estou alerta. Sou jovem e sou mal pago.

Estou cansado, mas estou trabalhando, merda.

Eu me importo, mas estou inquieto. Estou aqui mas já parti a tempos, baby.

 

E no frigir dos ovos tudo vai ficar muito bem. E eu tenho uma mão no meu bolso e com a outra estou acendendo um cigarro.

No final das contas eu não entendi foi nada dessa vida. E estou com uma mão no meu bolso e com a outra fazendo o sinal da paz.

 

Sou livre, mas sou focado. Sou inocente, mas muito sábio. Sou duro, mas amigável, meu bem.

Estou triste, mas sorrio. Sou valente mas também um merda. Estou doente, mas eu sou lindo, baby.

 

E resumindo tudo isso, a verdade é que ninguém ainda entendeu nada de nada. E eu tenho uma mão no meu bolso e com a outra eu toco piano.

No final das contas, meus amigos, tudo vai ficar muito, muito bem. E continuo com uma mão no bolso e com a outra estou chamando meu táxi.

 

Palavras de Alanis Morissette, livre tradução de Hand in my pocket para o português.

O menino do pombo e o pombo ou O abismo das paixões

Na vila onde nascera era costume entre as meninas e mulheres solteiras escrever as características do homem desejado num pedaço bem pequeno de pano, amarrá-lo no pé direito de um pombo e então soltar a ave num dos bosques da região. Se aquele pombo sobrevivesse aos próximos três dias, o desejo seria atendido e o amor de sua vida apareceria no dia da morte da ave. Caso contrário (se a ave morresse antes de três dias ou fosse imortal), era melhor entrar para um convento. O grande problema detectado pelas gerações mais novas era que um pombo podia viver por até vinte anos e a maioria das mulheres não queria esperar todo aquele tempo para se casar. Foi então que o prefeito teve uma ideia brilhante: decidiu que o dia de soltar o pombo aconteceria sempre na segunda quinta-feira do mês de julho, ao invés de cada pessoa soltar o pombo no dia que preferisse. E ainda mais, no domingo subsequente seriam liberados falcões ferozes e enormes e famintos e devoradores de pombos, com o intuito de ajudar suas eleitoras encalhadas a arrumar maridos de forma mais rápida e eficiente.

Oportunistas escreveram livros sobre como escolher o pombo correto e as palavras a serem escritas no pano: “Nada de escrever palavras grandes e rebuscadas, seja lá quem for que lê os pedidos e os atende prefere palavras curtas e claras, como: rico, fiel, mantenedor. Evite expressões, como bom pai, grande amante, taludo, pois essas podem gerar confusões, e reclamações posteriores nunca são aceitas”. O tipo de pano utilizado era importante, “nada de juta ou algodão, escreva num pedaço de cetim ou seda pura, que podem ser encontradas no armazém do Seu Agamenon”. Os pet-shops das cidades vizinhas se especializaram em vender o que prometiam ser pombos de subespécies exóticas, alguns gordos e pouco velozes, boas presas para os falcões; outros que exalavam um cheiro forte que atraía predadores a quilômetros de distância.

Às vésperas do Primeiro Dia Oficial da Soltura do Pombo o menino sentia-se confuso: sua mãe soltou seu pombo aos 13 anos e conheceu seu pai aos 18. Sua avó soltara o pombo aos nove e aos 12 já estava casada com seu avô. Não haviam registros de que homens já haviam participado do ritual e ele acreditava que seu pedido seria aceito como o de qualquer outra pessoa pois vivia em tempos em que se dizia que amor era tudo igual. E ideia de ter seu pombo estraçalhado por um falcão três dias após sua soltura o deixava desesperado.

Esperava que o pombo alçasse voo bem alto, viajasse por outros vilarejos, experimentasse todos os tipos de sementes disponíveis nessas terras e em outras, antes de se deitar a noite num ninho quentinho e morrer de velho. O pombo que ele escolhera tinha nascido no quintal de sua casa, ele o resgatara alguns meses antes, ainda filhote, quase sem penas caído do telhado. Cuidou do bicho e acreditava que a mãe do despenado havia sido capturada para ser vendida no mercado negro.

Decidiu soltar sua ave em outro local. O motorista do ônibus para a Capital estranhou aquele menino sair sozinho da vila justo naquele dia, de celebrações e festejos. Mas dirigiu pelas ruas sinuosas rumo a cidade grande, com seu único passageiro a bordo carregando uma caixa de sapatos cuja tampa não queria ficar no lugar.

Desceu do ônibus no meio do caminho, no ultimo ponto antes do veículo abandonar os limites geográficos de seu vilarejo. Ele frequentava aquela região com seu avô quando o velho ainda fazia comercio de queijos com moradores da zona rural, mas agora ele estava muito velho e cansado e os queijos daquele lugar nao eram bons como antigamente. Distraído com essas memórias, andou até a beira de um grande desfiladeiro, chamado de Abismo das Paixões.

Seu avô nunca o deixara chegar tão perto do enorme vão que se estendia por quilômetros, até quase se perder de vista. Lá no fundo se viam algumas árvores tortuosas, distantes, desinteressadas no que acontecia fora do buraco onde viviam. Seu avô dizia que a vista era extasiante, apaixonante, e que era perigosa pois muita gente havia se apaixonado pela vista e se perdido nas profundidades do abismo em tempos de desespero.

Pegou seu amigo de penas com muito cuidado e deixou a caixa de lado. Hesitou antes de abrir as mãos e deixá-lo livre, O mundo lá fora era tão hostil, seria melhor mantê-lo seguro em casa, no galinheiro com cerca de tela de metal feita por seu pai. O pombo já estava aprendendo a se comportar como as galinhas e elas já não o bicavam de forma feroz como outrora. Mas algo dentro dele dizia que era a hora de deixar seu companheiro ir. Liberou um dedo de cada vez, relaxando a pressão que fazia sobre o corpo da ave. A mesma não voou logo de cara, num primeiro momento parecia estar com medo da ventania que se abatia sobre eles ali na beirada daquele precipício. Olhou ao redor, olhou para o menino, ergueu a cabeça, estufou o peito e se lançou no vazio.

Sete anos se passaram, ele viu seus amigos e amigas crescerem, se apaixonarem e se casarem; se divorciarem e não saberem lidar com a solidão. As pessoas perderam interesse no ritual com os pombos no dia em que a Apple lançou um pombo eletrônico que tinha painel de LCD sensível ao toque e se conectava a qualquer rede wi-fi sem muita dificuldade. Todos preferiam ficar com o pombo e utilizá-lo para acessar uma das trezes indispensáveis redes sociais disponiveis naquela época.

Num dia besta como outro qualquer, ele voltava do seu trabalho como balconista na mercearia da rua principal quando viu seu pombo descansando sobre a caixa de correio de uma casa na qual ele nunca tinha reparado até então. O não mais menino, o agora jovem rapaz, se aproximou do animal acreditando que também seria reconhecido, mas quando estava a dois passos de tocá-lo, a ave bateu asas e voou para longe. Ele ficou ali, decepcionado com tamanha indiferença, esperava pelo menos uma arrulhadinha de alegria (sim, os pombos arrulham; eles não miam, nem cacarejam).

Quando passou por aquele sentimento e voltou a si, encontrou um rapaz parado ao seu lado, olhando para o céu na mesma direção que ele, em direção ao nada. Os dois se entreolharam e riram da situação. Um deles ofereceu um café para o outro, não se sabe se o café foi aceito ou não, mas o que dizem é que os dois viveram a mais engrandecedora história de amor daquelas bandas do continente. Até que um dia chegou a notícia de que um pombo ardiloso havia mergulhado para a morte numa panela fervilhante de frango ao molho pardo no restaurante da dona Quinzinha. Não se sabe se o amor resistiu àquele molho.

FIM

 

O pedregulho feliz

Edit

Aquele pequeno colossal pedregulho vinha sendo arrastado num estreia de borracha preta aquecida pelo sol por vários quilômetros ao lado de centenas de milhares de companheiros que, como ele, tinham poucos pensamentos. Entre eles, o de que todos nesse mundo têm um caminho a trilhar e o que se deve é ater-se a isso.

Ficava extremamente desgosto quando um de seus parceiros de viagem caía da esteira acidentalmente de propósito. Desejava que eles todos seguissem o caminho que havia-lhes sido traçado tão meticulosamente por uma força maior.

Ter sido resgatado de um enorme buraco por uma máquina grotesca e violenta e ser levado a um lugar completamente novo e brilhante lhe parecia bom demais para ser verdade. Pois, além de toda a sorte que ele tinha por não ser poeira, pois poeira não pensa, não come nem trepa; estava-lhe sendo dada oportunidade de evoluir nessa vida onde pedra era feita somente para se tropeçar.

Entre solavancos e arrancadas bruscas ele chegou ao fim da esteira e a realidade que lhe foi apresentada era insólita: estavam sendo arrastados a um triturador de minério e já era tarde demais para acidentalmente sair de sua trilha. Poeira se fez.

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Velhos costumes

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A garotinha com roupa de hospital correu até a septuagenária que chegara à enfermaria numa cadeira de rodas pela quinta vez naquele mês: “Minha mãe odeia a senhora, mas eu te amo tanto”. Ah, a inocência e a espontaneidade das crianças. A mãe da menina logo a puxou pelo braço e levou até o leito onde ela estava em observação. Câncer no cérebro, a pobre menina estava aguardando resultados de exames e início da quimioterapia para então ser operada, a ala pediátrica estava interditada devido a casos de infecção hospitalar e o oncologista resolveu colocá-la junto dos adultos para evitar que a mãe voltasse para o interior e entregasse o destino da filha nas mãos do pastor local.

A história das duas começou ao mesmo tempo, ou melhor, a da menina começara e a da senhora entrara na reta final.

As enfermeiras desconfiavam que Dona Diva simulava as crises de desmaio para voltar ao hospital e ficar perto da menina. Os médicos não concordavam, como eles sempre fazem. Preferiam deixá-la por dois dias em observação e a liberar quando tivessem certeza de que não aconteceriam novas crises. A velha não tinha mais família, todos fizeram questão de morrer antes dela. Morava sozinha no primeiro andar de um prédio antigo e quando passava mal ligava para o vizinho de seu celular de ultima geração pedindo socorro.

As duas se conheceram na primeira internação das vidas delas. Na ocasião, as enfermeiras tentavam convencer a criança a deixá-las colher sangue para exames, dizendo que não doeria e que seria rápido. A senhora chegou devagar e desmentiu em alto e bom tom, olhando nos olhos da garota, disse que doeria muito e que era melhor ela se acostumar, pois aquilo seria sua rotina a partir dali.  As enfermeiras e a mãe da garota ficaram furiosas mas contentes porque a menina parou de se debater e estendeu o braço para a agulhada.

Minutos depois Dona Diva se aproximou novamente, passou a mão nos cabelos da menina e disse que uma cuidaria da outra. A menina assustada não falava nada, só consentira balançando a cabeça os olhos brilhando de medo do por vir.

Quando Diva teve alta daquela internação, prometeu que traria novidades do mundo lá de fora. Tinha decidido que aquela criança seria seu ultimo projeto, sua redenção. Ficou três dias fora e quando voltou só esperou a mãe da menina sair para o banheiro para correr até a cabeceira do leito pediátrico. “Os gigantes, meu bem querer, eles tomaram conta da cidade. Por isso temos que ficar aqui, escondidas. Eu terei de ir lá fora lutar contra eles por alguns dias, mas estarei sempre de volta para te ver e te contar como estão as coisas”.

A mãe não gostava daquela amizade, preferia que a filha tivesse paz ao invés de ficar servindo de distração para uma idosa mentalmente instável. Mas até ela as vezes se distraía com as histórias de gigantes e as batalhas travadas contra eles nas ruas da cidade. No dia da cirurgia da menina, Dona Diva contou como estavam construindo uma bomba cheia de coisas boas que seria lançada no centro da cidade, sabidamente os gigantes detestavam coisas boas e depois da bomba ou eles morreriam ou iriam se mudar para Contagem.

A senhora teve alta sem poder ver a menina, ouviu das enfermeiras que a cirurgia tinha sido um sucesso e que tudo correra bem. Cinco dias depois voltou ao hospital, não encontrou ninguém além de uma outra idosa na enfermaria. Mais tarde ficou sabendo que houve complicação no pós-operatório, muita febre, convulsões e que a frágil garotinha sucumbira. Quis gritar, quis xingar deus, que subvertera a ordem das coisas. Ela voltava ao hospital por causa da menina e estava pronta para ser levada no lugar dela. Mas deus nunca facilitara as coisas para Dona Diva.

Depois daquele dia nunca mais voltou ao hospital, nem naquele nem a nenhum outro. Não conheceu mais crianças, não importunou mais o seu vizinho de apartamento. Juntou alguns pares de roupa e viajou para a praia. Sentia um frio nos ossos que tinha certeza de que só o calor da praia resolveria. Já não tinha certeza de mais nada mas queria muito que seu sofrimento acabasse. Abriu com dificuldade uma toalha sobre a areia, deitou-se devagar e tomou sol por cerca de meia hora, com roupa e tudo. Ergue-se sentindo-se mais viva do que nunca, tomou um chá gelado e resolveu que aquele seria o último dia ruim de sua vida.

Não foi o último, ela teve muitos mais dias ruins, quando o cachorro do vizinho a derrubou no hall de entrada do prédio, por exemplo. Ou quando na praça de alimentação do shopping duas adolescentes esbarraram nela e derramaram, cada uma, um copo de milk-shake de morango em suas roupas desbotadas. Ela sentia-se livre, não tinha mais a quem ajudar, nem mais a quem atrapalhar. Ela só precisava ser. Ser.

Todos os carnavais

Já era quase meio dia e o suor misturado com suas lágrimas derretiam toda a fantasia feita de papel crepom que a mãe levara a manhã inteira improvisadamente preparando. E ela tinha sido categórica, “se nos perdermos vá para perto do chafariz que eu te encontrarei lá”. Mas ele descobrira, logo depois de fazer o trato com sua mãe, que não queria ser encontrado, na verdade soltara a mão de sua irmã mais velha de propósito quando ela de súbito se distraíra com um marinheiro descamisado descendo a ladeira com uma garrafa de bebida nas mãos. Passaram-se pelo menos dez minutos até que todos que ele conhecia desaparecessem na multidão, que seguia uma banda de marchinhas politicamente incorretas.

“Porque um rapazinho tão elegante está chorando em pleno carnaval?” – Perguntou-lhe uma senhora vestida de bailarina fúnebre tentando arrumar o capacete de papel que se desfazia na cabeça do menino. Ele não chorava porque estava com medo ou por ter-se perdido, ele chorava de pânico por não entender o que estava acontecendo com as pessoas que pareciam hipnotizadas por aquele ritmo musical. A velha tentou arrastá-lo até um policial na esquina, mas ele se desvencilhou de suas mãos enrugadas e correu para o mais longe que pôde de todo aquele barulho. Observou sereias, bruxas, homens das cavernas e muitas borboletas passarem por ele. Todos com um sorriso plástico estampado no rosto. Quanto mais dentes ele via, mais o choro inconsolável tomava conta de sua alma.

Sentiu saudades da época em que carnaval era só na televisão, “sou o ultimo dos tristes”, ele pensou. Foi quando sua mãe entrou na mercearia onde ele estava escondido, furiosa, o sorriso plástico partido ao meio dando lugar a um ranger de dentes colérico. E ele se sentiu bem, havia conseguido salvar sua mãe de toda aquela alegria. Ela retirou os restos da fantasia pendurados no garoto, ele se sentiu mais leve, ela sentiu que o punia. “Para você não tem mais Carnaval esse ano, você ouviu?”-  ele ouviu e se deleitou com a ideia.

Os anos se passaram e o carnaval sempre vinha, inexorável e colorido. Dizem que em algumas ocasiões o menino se fantasiava e improvisava uma folia com seus amigos imaginários. Outros acreditam que ele nunca conseguia sair de casa nessa época do ano, como se fosse amaldiçoado pelos deuses pagãos. Evita-se falar sobre ele em rodas de samba e bloquinhos de rua. “O moleque que chora no carnaval”, é como ele ficou conhecido. Parece que ano que vem a sua vida será tema de samba enredo de uma escola de samba na capital, ainda estão decidindo se falam sobre ele ou sobre o fim da pororoca. Resta esperar, o ano novo talvez nem chegue, mas o carnaval do ano que vem já está marcado.

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Três quedas 

Naquela noite de natal ele aprendeu três coisas novas. A primeira foi que correr na chuva revigora o espírito dos mais velhos também, que não são só as crianças têm esse sacro privilégio. E ele passou duas horas na chuva, de patins, cambaleando na pista molhada, de braços e peito abertos. Por sua sorte não era um natal no século XVI e provávelmente ele não morreria de pneumonia na sequência. Naqueles tempos uma tosse qualquer significava uma única coisa: morte certa. Pegar um chuvisco: morte. Pegar sereno: morte. Dormir de cabelo molhado: morte lenta e agonizante. Por fim ele se cansou, as duas meias que usava por baixo dos patins, uma vestida por cima da outra, já estava encharcadas e os pés pesados, o que o impediam de voar, porque era essa a sensação que ele tinha, que era tão livre naquele momento que de repente, ele voaria dali. 

Houve um enorme tombo no fim dessa epifania. Chaves voaram para um lado, carteira e fones de ouvido para o outro. Um dos glúteos se encubiu de amortecer a queda e ficou escoriado e roxo. Era deus mostrando pra ele que os seres humanos mantinham uma relação com o chão mais forte do que se davam conta. Como ninguém presenciou o tombo e o grito de desespero, ele resolveu que não tinha doído e continuou a viver.

A segunda lição foi a de que por mais resistente que um galho de pé de fruta-do-conde aparente ser, ele não necessariamente se manterá íntegro ao suportar noventa quilos de vacilo. Por pouco o galho com ele e as frutas não caíram encima de seu cachorro amarelo, que nem se assustou, tão absorto estava com as borboletas no quintal. Se seu glúteo estivesse inteiro talvez ele não tivesse soltado aquele urro de dor antes de se deitar na grama e ficar contemplando o céu enegrecido por nuvens carregadas de chuva. O cão lambeu-lhe a face e continuou seu caminho. Ficou ali deitado por alguns minutos pensando em como seria a vida sem a gravidade, essa força  que insiste em nos pregar no chão.

As frutas se esmagaram com a queda e ele resolveu que não as queria de toda forma. Na geladeira encontrou duas mangas partidas e um pedaço de melão. Um belo suco para tomar com um sanduíche de queijo quente. Da janela admirou a árvore que agora estava menos inteira, partida, como ele.

A terceira e ultima lição do dia foi: nem sempre ficamos com o grande amor de nossas vidas (e tudo bem). Ele se traiu, havia prometido um dia sem internet mas, já deitado sob os lençóis, só esperava por Morfeu, quando resolveu bisbilhotar uma rede social, onde deu de cara com um texto que dizia exatamente isso, que muitas vezes o melhor que temos para oferecer ao grande amor de nossas vidas é um adeus. Essa foi a grande queda que nosso personagem sofreu naquele dia. Não que ele nunca tivesse pensado coisa parecida ou lido texto de auto-ajuda sobre o tema, mas é que o seu dia estava transcorrendo de forma tão suave que ele tinha começado a acreditar que ser feliz realmente era simples.

Dessa vez não houve escoriação, nem hematoma. Só o peso do vazio oprimindo seu peito. O cão, como que por instinto, lambeu-lhe novamente o rosto, desceu da cama e foi dormir num canto do quarto. Naquele noite todos dormiram sozinhos.