Três quedas 

Naquela noite de natal ele aprendeu três coisas novas. A primeira foi que correr na chuva revigora o espírito dos mais velhos também, que não são só as crianças têm esse sacro privilégio. E ele passou duas horas na chuva, de patins, cambaleando na pista molhada, de braços e peito abertos. Por sua sorte não era um natal no século XVI e provávelmente ele não morreria de pneumonia na sequência. Naqueles tempos uma tosse qualquer significava uma única coisa: morte certa. Pegar um chuvisco: morte. Pegar sereno: morte. Dormir de cabelo molhado: morte lenta e agonizante. Por fim ele se cansou, as duas meias que usava por baixo dos patins, uma vestida por cima da outra, já estava encharcadas e os pés pesados, o que o impediam de voar, porque era essa a sensação que ele tinha, que era tão livre naquele momento que de repente, ele voaria dali. 

Houve um enorme tombo no fim dessa epifania. Chaves voaram para um lado, carteira e fones de ouvido para o outro. Um dos glúteos se encubiu de amortecer a queda e ficou escoriado e roxo. Era deus mostrando pra ele que os seres humanos mantinham uma relação com o chão mais forte do que se davam conta. Como ninguém presenciou o tombo e o grito de desespero, ele resolveu que não tinha doído e continuou a viver.

A segunda lição foi a de que por mais resistente que um galho de pé de fruta-do-conde aparente ser, ele não necessariamente se manterá íntegro ao suportar noventa quilos de vacilo. Por pouco o galho com ele e as frutas não caíram encima de seu cachorro amarelo, que nem se assustou, tão absorto estava com as borboletas no quintal. Se seu glúteo estivesse inteiro talvez ele não tivesse soltado aquele urro de dor antes de se deitar na grama e ficar contemplando o céu enegrecido por nuvens carregadas de chuva. O cão lambeu-lhe a face e continuou seu caminho. Ficou ali deitado por alguns minutos pensando em como seria a vida sem a gravidade, essa força  que insiste em nos pregar no chão.

As frutas se esmagaram com a queda e ele resolveu que não as queria de toda forma. Na geladeira encontrou duas mangas partidas e um pedaço de melão. Um belo suco para tomar com um sanduíche de queijo quente. Da janela admirou a árvore que agora estava menos inteira, partida, como ele.

A terceira e ultima lição do dia foi: nem sempre ficamos com o grande amor de nossas vidas (e tudo bem). Ele se traiu, havia prometido um dia sem internet mas, já deitado sob os lençóis, só esperava por Morfeu, quando resolveu bisbilhotar uma rede social, onde deu de cara com um texto que dizia exatamente isso, que muitas vezes o melhor que temos para oferecer ao grande amor de nossas vidas é um adeus. Essa foi a grande queda que nosso personagem sofreu naquele dia. Não que ele nunca tivesse pensado coisa parecida ou lido texto de auto-ajuda sobre o tema, mas é que o seu dia estava transcorrendo de forma tão suave que ele tinha começado a acreditar que ser feliz realmente era simples.

Dessa vez não houve escoriação, nem hematoma. Só o peso do vazio oprimindo seu peito. O cão, como que por instinto, lambeu-lhe novamente o rosto, desceu da cama e foi dormir num canto do quarto. Naquele noite todos dormiram sozinhos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s