O poder, o cabelo, o medo e outras coisas do saco.

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Porque se fôssemos mesmo só um saco, um pacote de coisas ruins misturadas com coisas boas, tudo seria mais fácil.  O bom e o ruim estariam aqui dentro e eu saberia o que eles representam, rotulados e carimbados. Só que o pacote na verdade é cheio de coisas suas, se ruins ou boas é a sua experiencia com cada uma delas é que dirá. Naquela exata ocasião quem você é, onde está, que sapato está usando, como está emocionalmente, para onde está indo e com quem, tudo isso é que definirá se a coisa dentro de você é ruim ou boa ou as duas coisas.  Tudo isso pode fazer com que algo que ontem foi bom hoje seja o preludio do apocalipse.

O choro. Nesses últimos dias tirei essa coisa do pacote por três vezes. 1. Ao sentir que eu e o sistema havíamos falhado com um paciente. Fui pra dentro do meu carro e chorei por uns 10 minutos antes de sair pra almoçar. 2. Ao sentir que eu e o sistema havíamos sido eficientes com outro paciente. Chorei em casa, olhando para o teto e pensando que quando eu menos espero o universo conspira para que algo bom aconteça. Estudar ajuda o universo a conspirar a meu favor nesse caso. 3. Ao sentir que eu havia falhado comigo mesmo nesses últimos dias e que com isso havia magoado quem amava. Chorei um pouco a cada dia, choro que vinha de um suspiro ou de uma recordação. Chorar para mim já significou algo muito bom, chorava ao ver filmes que me tocavam, ao ouvir palavras que me emocionavam, ao me sentir triste com o mundo. Depois parei de chorar para não parecer fraco. E agora que voltei a chorar fiquei sem saber se era algo bom ou ruim num primeiro momento. Decidi que era bom porque pode ser um sinal de que ainda sou parte humano.

O medo. Baratas, aranhas e seres rastejantes a parte, eu quase nunca tive medo de nada nesse universo onde nos jogaram. Tenho que excluir lobisomens e altura também. A ultima já encaro numa boa, lobisomens já sei que não existem e o resto não deixei virar fobia. Aprendi a ter medo de minha finitude. Me disseram que isso era sinal de fraqueza. Então passei a ter medo mesmo só de decepcionar as pessoas, porque eu achava que não tinha esse poder e preferia não o ter de qualquer forma. Mas não é uma opção.

A força. Por muito tempo encarei o fato de alguém ser forte um risco de que essa pessoa se tornasse um tirano. Já vi tanta gente forte usando essa vantagem para oprimir e fazer sofrer. Maridos que batiam nas esposas, crianças maiores que humilhavam as menores. Eu preferia ser fraquinho e franzino e ter a voz fraca, não que eu me sujeitasse a ser oprimido, mas não queria de jeito nenhum ser opressor. Só que a força da gente está também é nas palavras e nos gestos, e eu cresci demais, e oprimir o próximo é mais fácil do que se pensa. Tudo que eu queria era que os meus atos incautos não repercutissem nas pessoas muitas vezes inocentes ao meu redor.

A culpa. Mãe é o melhor bicho que evolui das bactérias de bilhões de anos atrás do sopão primordial direto pra dentro de nossas casas. E são as melhores em plantar culpa em nossas mentes atormentadas. Sempre me senti culpado, tempo todo, um gasto enorme de energia. Por ser preguiçoso ou por ter tirado nota melhor que meu coleguinha ou por ser mais alto, ou mais feio, ou mais imperfeito, ou afeminado. Minha mãe achava que se eu me sentisse culpado eu cresceria mais robusto, mas a culpa tem horas que é tão pesada que não me deixar respirar direito. Acho que a culpa nunca é boa, mas pode ser necessária. Estou cheio dela.

O poder. Não o poder do tipo força descomunal ou habilidade de controlar a mente das pessoas, disso já falei. O poder no sentido de ser capaz de. Poder ser, poder ter, poder chegar, poder sentir, poder enxergar, poder comprar, poder sorrir, poder apagar. O meu poder esbarra nas minhas duvidas. Poder é bom e sempre será. Mas o poder devia andar sempre de mãozinhas dadas com o dever. Queria entender mais dos meus deveres para que os poderes não me soassem por vezes tão inúteis.

O cabelo. Quando eu era bobo, eu achava que um dia magicamente meus cabelos se tornariam volumosos, sedosos e viçosos e negros como algo muito preto. Eu teria um lindo topete e seria feliz para sempre. Só que quando eles, os cabelos, começaram a cair eu vi que não daria tempo pra que a transformação se desse e eu então fiquei deprimido e angustiado. Cabelo é bom porque protege a cabeça do sol, fora isso para que ele serve se não para nos dividir ainda mais? Para mim, se eu tivesse que decidir hoje, cabelo seria, sim, uma coisa ruim.

A vergonha. Como um tímido de humor duvidoso e personalidade borderline era de se esperar que a vergonha para mim fosse sempre algo ruim. Pronto, ruim. Mas é ela que mais me tira da minha zona de conforto, que me desestabiliza, que me faz refletir sobre minhas trapalhadas. Não humilhação que disso ninguém precisa, mas a vergonha me tira do sério. Já tive vergonha das minhas roupas, da voz, da sexualidade, da minha origem. Hoje só tenho vergonha de não aprender com meus erros. Vergonha de ainda acreditar demais no ser humano e acabar me machucando e machucando os outros por causa da minha ingenuidade/despreparo. Sim, vergonha é bom.

O erro. Quem muito se desculpa é quem muito erra. Mas também é quem se percebe como potencial agente causador de danos e de certa forma tem o cuidado de tentar no mínimo empatia com o sentimento do outro. Eu sempre me desculpei por tudo, mental ou verbalmente, desculpas por ser diferente, por ser burro, por ser inteligente, por ter atrasado, por não ter percebido, por ter te subestimado. Um dia me disseram para parar que estava chato. E estava. É bom mudar pelo menos com quem se erra já que os mesmos erros nos perseguem. Erro é ruim, e inevitável por vezes. Pedir desculpas é sempre bom.

E por aí vai. Você tira a coisa do seu pacote, olha bem pra ela e vê se naquela ocasião ela será boa ou não. Hoje eu tirei um bom punhado de saudades do meu pacote encardido. Olhei para ele, cintilava, pulsava e fazia doer. Na duvida se me faria bem ou mal, se era saudade boa ou ruim, a meti de volta no fundo do saco, debaixo da preguiça de acordar cedo  e da compulsão por chocolate. E a saudade está lá. Meia ruim por causa do momento, meia boa por sua natureza. Tem hora que não interessa se é bom ou não, o que é importa é se é hora de tirar de onde está ou não. Se vale a pena encarar, ou não.

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