A abelha

A abelha que pousou em meu mousse de chocolate hoje na hora do almoço parecia confusa. De inicio, ela, ainda andando pelas bordas do prato, parecia mais interessada na calda do pudim de leite condensado, mas foi atraída para a montanha de mousse cremosa e aerada que se pôs em seu caminho. Ela subiu na sobremesa e de repente estava toda lambuzada com aquela massa marrom escura.

Fiquei preocupado com a saúde dela, morrer afogada na mousse não deve ser agradável. Nao tive nojo, tampouco medo dela, fiquei preocupado. Um ser vivo se vitimar na minha refeição não faria nada bem para meu coração já em frangalhos. Pensei em removê-la com meu garfo, mas ela se desvencilhou do doce e, ainda envolta nele, caiu sobre a mesa.

Se mexia e tentava bater as asas mas não conseguia se livrar daquela substancia pegajosa. Toda minúscula e frágil parecia estar perdendo a luta. Pensei em jogar umas gotas d’água nela, para que o doce escorresse por seu corpinho e ela então conseguisse sair dali voando.

Fiquei observando aquela terráquea alada com suas asas pregadas no corpo andando de um lado para o outro. Tudo por causa de uma mousse, que para meu paladar humanoide estava delicioso, mas pra abelha, que está acostumada a ir de flor em flor buscar substrato pra produzir mel, aquela minha sobremesa devia ter gosto de merda. E cor.

De repente ela conseguiu libertar uma patinha. Com essa, foi empurrando o doce de uma de suas asinhas até liberá-la da sujidade. Depois limpou suas costas e logo outra patinha, e outra patinha e a outra asa: livres! Em poucos segundos ela estava completamente limpa da sujeira da minha sobremesa. Ficou um tempo sobre a mesa batendo as asas sem voar, imagino que testando seu corpo, se aquecendo e esperando por um pedido de desculpas meu.

O garçom chegou e ela alçou voo, direto para o grande vão da porta da rua, onde se viam enormes árvores, algumas com flores, outras com faixas de “vende-se apartamento 3 quartos”. Ele praguejou: – Malditas moscas! Eu corrigi: – Não era uma mosca, era uma abelha. – Pior ainda, foi o que ele disse recolhendo meu prato. Pedi para que ele levasse também o da sobremesa, eu não a comeria, e ele: – A abelha sujou seu doce? Quer que eu troque? Acenei com a cabeça que não, na verdade o doce que era sujo, como muitas coisas que nós fazemos.

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To bee or not to bee?

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