Toque do sol

Ele acreditava que quando era criança o céu era mais próximo do chão e, que quando ficava na ponta dos pés, era capaz até mesmo de tocar uma cumulonimbus e com suas pequenas mãos dissipar tempestades que insistiam em cair no dia de seu aniversário. O seu presente de aniversário predileto eram seis ou sete raios de sol que o tocavam entre as oito e nove da manhã. Agora, por causa do aquecimento global e do cinismo das pessoas, o céu havia se distanciado e evitar tempestades já não era tarefa tão simples.

Então, no dia de seu trigésimo quarto aniversário, tomou fôlego e vestiu sua capa de chuva, verde, a ganhara há mais de uma década de um professor estranho, que ao vê-lo correndo na chuva para assistir a sua aula sobre a Regra de L’Hôpital, se enterneceu. Pegou um livro empoeirado qualquer e deixou sua casa, sem saber para onde ia.

Chovia. Ele resolveu que um local onde não se molhasse tanto e onde servissem café com broa de fubá seria ideal para poder usar o livro, que era o único instrumento que ele tinha para transformar aquele aniversário num dia especial. A casa de sua avó era muito longe naquela época e os sentimentos requentados por demais para que o café dela permanecesse saboroso.

Sorria. A moça do balcão parecia mais contente do que um moça de balcão deveria estar num dia chuvoso e úmido como aquele. Não havia mais broa de fubá, elas se vendiam com uma rapidez inimaginável em dias nublados, foi o que a moça respondeu oferecendo-lhe biscoitos de polvilho escaldado. Mas biscoitos de polvilho escaldado não têm gosto de sol, foi o que ele pensou.

Sofria. O livro não era o melhor que ele tinha em casa e a cada parágrafo que lia mais próximo seu rosto ficava da mesa. Por volta da página 13 ele havia adormecido.

Why did you touch me?

Why did you touch me?

Acordou com cutucões em seu ombro, o barulho dos outros clientes da cafeteria se misturava com o que a chuva provocava lá fora. Se espreguiçou, esqueceu o livro sobre a mesa e saiu pra rua.

Como a chuva insistia em não passar e ele já não tinha o que fazer no mundo exterior, resolveu voltar para casa e esperar pelos telefonemas que talvez não receberia naquele dia. Passo a passo ele se arrastou até o seu prédio e foi abordado pelo porteiro. O girassol “foi deixado por um entregador, sem cartão, há uns cinco minutos, ele só disse que era para o senhor”.

O sol que ele não encontrou nem no céu nem num livro enfadonho estava ali, com suas raízes sedentas por água cravadas num pouco de terra num vaso de barro enfeitado com uma fita azul. Naquele dia ele cuidou da planta como se ela fosse a última do planeta. Dias depois ela secou e morreu num canto escuro.

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