Síndromes de quem não tem nada

Seria chique e japonês demais dizer que estou sofrendo da Síndrome de Paris, ao invés disso parece que é só mesmo a melancolia me pegou em cheio, distraído, horas antes de aterrissar na terra da guilhotina. Ao entrar no avião eu havia verificado na internet que a candidata a reeleição a presidência do meu país estava liderando o ranking de votos apurados e senti uma pontada no peito, logo eu que nunca me interessei por política, senti que minhas chances de felicidade, sucesso, realização e estabilidade, principalmente profissional porque emocionalmente só a venlaflaxina pra me ajudar, estavam ruindo e nem um presidente que se importasse comigo/minha classe trabalhadora, eu tinha. Eu que vinha de uma semana boa em um congresso de medicina da família que me fez sentir vontade de estudar mais e fazer melhor o que eu faço, vi uma mulher que não valoriza meu trabalho e minhas ideias cada vez mais próxima de passar mais quatro anos atrapalhando o crescimento do país onde o cosmos insistiu que eu nascesse.

Cheguei nesse ponto, de mal estar, vindo de alguns meses de pura avolia e apatia, quando pouquíssimos assuntos e pessoas me interessavam. Pareceu um bom plano, vir pra bem longe, nem que fosse para ficar o dia inteiro na cama dentro do albergue assistindo seriados americanos e lendo livros sobre diabetes. Mas estar em Paris e não ter o coração aquecido por esse fato só causa mais angústia e descontentamento, o mundo ali fora vivendo, quem não está aqui querendo estar e eu na cama até as duas da tarde? Agravo é que ainda nesse processos eu faço outras pessoas sofrerem, quem eu amo principalmente, que tem de conviver comigo nesse meu estado incômodo.

Li sobre a síndrome de Paris depois que o guia de um tour que fiz há dois dias falou sobre esse mal que acomete principalmente japoneses, que parecem ter um enorme choque de realidade/cultura quando chegam a capital da França e se deparam com batedores de carteiras, metrôs lotados, motorista grosseiros e garçons mal humorados. Aparentemente 20 deles surtam todos os anos e são diagnosticados com essa síndrome, que consiste em quadro de sintomas psiquiátricos que incluem estados de delírio, alucinações, sentimentos persecutórios, dissociação da realidade, ansiedade e sintomas psicossomáticos, como tonteira, taquicardia, sudorese e outros. Quase um chilique oriental. Não é bem o que sinto porque, queria eu, meu problema não é Paris, nem estar em Paris, mas estar em minha pele.

Tenho tanto medo porque a cada dia que passa parece que eu desisto mais de mim e do mundo ao meu redor. Não que eu não ache as pessoas e o mundo interessantes, mas parece que não tenho energia para interagir e mesmo que tivesse parece que eu não tenho mais o que acrescentar ou o que aprender, ou não quero, ou não sei mais conviver com as pessoas. Mas um dia eu soube conviver com as pessoas?

Ao invés de síndrome de Paris eu tenho algo análogo, uma síndrome de mim mesmo, quando percebi que eu nunca seria bom, ou bem sucedido, ou bonito, ou inteligente ou interessante o bastante, isso há cerca de uns seis anos atrás, parece que eu desisti de praticamente tudo. Parece que ao me deparar com minhas grandes limitações eu desisti de mim. Cheguei a essa conclusão ontem, quando andava admirando a bela tarde ensolarada que se abriu em Montmartre depois de três dias nublados e de repente vi um enorme cocô de cachorro já pisado por algum desapercebido. Como sempre, meu reflexo foi pensar que se eu tivesse um superpoder, como o de conjurar água, eu gostaria muito de lavar aquilo dali, mas logo me lembrei que ainda não tinha esse poder. E alguns passos depois, que eu nunca teria esse poder! Não, não estou alucinando, estou tentando fazer metáforas. Difíceis pra mim.

Uma amiga comentou em uma de minhas fotos sorrindo durante essa minha viagem que meu sorriso estava amarelo, e ela quis saber o porque d’eu estar triste mesmo estando em uma viagem tão bacana. Menos de um dia depois outra pessoa querida estranhou o fato d’eu estar sorrindo nas fotos já que eu falo tanto que não estou nada bem. Se está difícil me agradar e me entender, imaginem como é para fazer com que os outros tenham alguma empatia por mim. O que fazer? Continuar na terapia, fazer exercícios físicos e tomar inibidores de receptação de um monte de coisa no cérebro. A abraçar muito meus cachorros, estou morrendo de saudades daqueles dois bagunceiros de focinho preto e molhado.

Queria agora não estar assentado aqui no albergue esperando minha roupa terminar de ser lavada para coloca-la na máquina de secar. Queria estar na minha casa, debaixo do meu cobertor com meus cachorros, no escuro, torcendo muito para que em algum momento essa escuridão lá fora se desfizesse, porque eu estou cansado de estar em Paris e me sentir num prédio em chamas

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