Quando fico tristinho ou O chiclete e a bomba de Hiroshima

Há muitos anos atrás, quando a realidade era dura demais para um adolescente espinhento poder levar a vida a sério, quando a Disneyworld  era de madeira, quando o meu melhor não era bom o bastante; naquela época eu costumava chorar muito, ficava revoltado com a minha incapacidade de me adaptar para ser aceito, com a minha estoicidade, e com a minha origem perturbada ou falta total de origem, com a minha dureza, com a minha inflexibilidade, com as minhas poucas palavras, e menos amigos ainda.

Hoje eu apenas aceito essa merda de verdade, afinal de contas quando eu nasci nenhum anjo torto apareceu por lá me dando dicas de como ser isso ou aquilo outro, então eu cresci torto por que eu não tinha muito parâmetro e onde quer que eu chegasse seria lucro. Se eu não sabia de onde eu vinha, sabia menos ainda onde tudo aquilo ira parar.

Quando alguém que não me conhecia, não entendia minha tortuosidade ou o porque de minha pele macilenta, eu me torturava para não parecer tão estranho, para esconder a minha fraqueza, para tentar fazer parte daquele todo que não me aceitava, e que eu também não via com bons olhos.

Hoje eu criei esse muro alto e resiliente, ando distraído e uso fones de ouvido com abafadores de som ambiente, e o que pensam e dizem, ou não, sobre mim, me importa menos do que a cor da terceira faixa vertical da bandeira da Irlanda.

E então do que estou reclamando, se tenho meu muro e meus fones? Sou essencialmente solitário e por mais que eu aceite isso, ser assim só complica a minha existência harmônica com o restante da espécie humana, e canina, na maior parte do tempo. Dia desses ouvi sem querer minha mãe comentando com uma amiga dela que eu “gosto mesmo é de solidão, e que tem gente que é assim mesmo.”

Quando fico triste e me isolo, as pessoas simplesmente pensam que eu estou sendo egoísta, arrogante; e não que nesses momentos o que eu mais queria, mesmo, de verdade, era deixar de ser…

Triste mesmo é não acreditar num ser magico para quem uma simples prece que eu fizesse faria toda essa angustia, todo o peso do mundo, passar.

Quando eu era criança eu coloquei um chiclete no cabelo do meu irmão e minha mãe quase me matou por conta daquilo. Por que tanta repressão, e gritos e alvoroço? Na minha cabeça se tratava de uma travessura simples, afinal era só cabelo e voltaria a crescer. Hoje eu assumo que meu pensamento continua o mesmo. E errado. Estou redondamente errado. Cabelo nunca é só cabelo, e chiclete nunca é só chiclete. As coisas nunca são o que elas parecem ser, ou na verdade elas são exatamente o que são e seja conveniente pensar que são. E mesmo nós somos vários que se transformam em outros o tempo todo, e eu não sei direito quem sou eu ou o que eu estou fazendo da minha vida. Mas sei que estou fazendo errado.

Eu queria mesmo é me sentir culpado por ser assim tão estranho. Queria ou preciso?

O que eu queria mesmo é que o mundo se distraísse pra sempre com a Copa do Mundo e parasse de apontar o dedo pra mim.

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