Nota

O depois não existe, ainda.

Be yourself. Everyone else is taken. - Oscar Wild

Be yourself. Everyone else is taken. – Oscar Wild

E tem aqueles dias que eu me pego nada inspirado ouvindo canções inapropriadas pro momento e digo pra mim mesmo, em alto e bom som, me olhando no espelho: diga algo ou eu desistirei de você!”. Pode uma pessoa desistir dela mesma sem cometer suicídio, daqueles tipos em que o individuo pula de prédio ou entra na frente de um trem?

Insisto na imagem do leão, desavisado, preguiçoso, vagaroso, imponente, se arrastando no calor empoeirado da savana africana. Ele não se preocupa com nada, nem com o daqui a pouco. Meu leão se ocupa dele dos momentos, de achar uma sombra agora. Quando achar a sombra um novo universo de possibilidades se apresentará pro meu querido felino imaginário, ele poderá sair da sombra em cinco minutos e ir beber um gole de água lamacenta na poça há três quilômetros dali, ou poderá ficar ali deitado vendo as leoas sensualmente espantando as moscas que insistem em sobrevoar suas cabeças enquanto elas tomam seus banhos de gato. Ele se ocupa do momento, ele dorme a noite e no dia seguinte se der fome ele vai comer, se não ele vai vadiar. Eu acho que ele nem imagina que amanhã ele poderá sentir fome, deve ser interessante, a fome aparece como que algo mágico e a solução é instintiva: caçar, pra matar a fome naquela hora. Depois, o depois não existe, ainda.

Eu tenho que me ocupar e me preocupar com tudo o tempo todo, caso contrário eu serei categoricamente rotulado e jogado no mesmo grupo que os vagabundos, preguiçosos, imbecis, nada ambiciosos e fracassados seres humanos que insistem em existir. O hoje em dia não vale nada hoje em dia, o que vale é o amanhã, cheio de glórias, cheio de realizações que só chegarão se você abdicar de você mesmo e seguir o padrão que a sociedade traçou pra você, ou não, se você não for bom ou souber se aproveitar de quem pode te elevar, você será só mais um fracassado, que pelo menos tentou. Claro, se não fosse assim nossa espécie não teria dominado o planeta e não estaríamos o destruindo e matando tudo o que há de belo como fazemos. Isso tem seu preço, e o preço é o meu tempo.

Quando as pessoas me perguntam de que eu mais gosto eu devia responder: tempo. Ele nem existe do ponto de vista metafísico, nós tentamos prendê-lo dentro de relógios de pulso e cucos, mas ele escapa porque não é feito de átomos nem de energia, é feito da substância que nos diferencia dos outros animais: a nossa consciência de finitude. Ele não passa, a gente é que passa e ele continua, eterno, indiferente, independente de termos sido felizes ou realizados ou meros fracassados amadores de ursos polares e cachorros sorridentes. Eu amo tanto os ursos polares que eu poderia até explodir e virar fumaça com cheiro de lima da pérsia se eu de repente ficasse sabendo que eles não correm mais risco de extinção.

Mas isso é o que eu penso e sinto e, no final das contas, não faz diferença nenhuma porque não há tempo ou oportunidade pra se ensaiar a vida, a vida já é isso aqui e eu já tenho 33 anos e se eu estiver no caminho errado, tendo os pensamentos e atitudes erradas… Oops, fodeu. Não tem volta.

Hoje eu quis mesmo era transcender. Entrar no espelho e dizer pra mim mesmo: “calma, você não é tão ruim a ponto de estar desperdiçando todo esse oxigênio que você converte em gás carbônico”. Mas ao invés disso que comi algumas uvas e fui rolar no chão com meus cachorros.

 

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