O calango e o leão

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Era outra vez um leão que queria ser calango. Desses calangos verdes que tomam sol o dia todo e desaparecem a noite sem a real pressão de ter que ser, de ter que impressionar, improvisar. Foi quando veio um caçador com botas de couro de jacaré e atirou quase que de susto no nosso felino com distúrbio de identidade. Nosso herói se esquivou com um certo desdém daquele projetil que atingiu uma desses arbustos secos da savana, que só teve tempo de pensar “me ferrei, de novo”.

Desde aquele dia o leão continuou sendo o mesmo, no fundo de seu ser ele desejava não ter-se desviado da bala e estar hoje pendurado, mesmo que só a sua cabeça, na parede da casa do caçador. Já cabeças de calango não valiam nada.

Num novo dia ele andava praticamente distraído por uma ruela nos arredores de seu reino quando ouviu uma voz lhe chamando até um canto escuro. Era uma hiena vendendo esperanças a preço de mentiras. Depois de muito falatório ele só comprou algumas ironias a preços de banana e deixou a hiena com suas mercadorias, ela rindo sabe-se lá de que.

Seguindo seu caminho ele foi abordado por um grande mamute, que lhe disse, na verdade nada lhe disse, afinal mamutes não falam porque estão extintos. Mas se falassem, aquele diria algo do tipo: Leão, leão, leão, saia já dessa danação. Ou algo nesse estilo, sempre com rima que é uma característica dos dizeres de mamutes.

E ele chegou a uma enorme praça onde mães brincavam com seus filhotes e algumas aves comiam migalhas espalhadas pelo chão. No ponto mais distante ele viu um calango, deselegante que só ele, serpenteando por uma parede quente de ardósia, os pés mal tocavam a superfície enquanto o bicho tentava avidamente engolir um marimbondo que perto dele se arriscava.

No passo em que estava o leão seguiu até onde o réptil se encontrava e ao chegar bem perto ele disse em voz de vítima: “Eu sempre quis ser você. Não você, você, porque eu não te conheço e não sei da sua índole; mas você, um calango qualquer.”

O calango olhou para seu rei com cara de quem tinha ouvido apenas urros e rugidos ao invés de sentenças proferidas no idioma local e disse: “Mas eu não sou um calango qualquer, sou filho da Dona Calanga, primo do Calango da Locadora, e sou candidato a primeiro-ministro, você nunca viu um de meus vários cartazes espalhados pela cidade?”

O leão não respondeu, como se tivesse ouvido apenas uma série de sibilos e não a verdade sobre o significado que o calango dava a sua pequena e reptiliana vida.

E a tristeza não mais fez parte do dia-a-dia do leão. Pelo menos não depois de passados dois longos anos daquele encontro, tempo que ele levou para fazer terapia, se livrar dos antidepressivos e entender que o calango é o leão, que faltava um acento agudo na letra E no título desse texto e que querer ser quem você não é era bobagem, o que valia era ser você, mesmo que você não valesse a pena.

Fabio Oliveira de Souza, Belo Horizonte, 06/12/2013

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