O que acontece quando as cabras se assustam?

O sentimento que brincou de ser gente

Era uma vez um sentimento disfarçado de gente.

Ele se encolheu ao ponto de entrar na pele e

pelos poros e orifícios se esgueirou.

Invadiu a garganta,

encheu dois pulmões inteiros com muito cuidado.

Esticou um pseudópode em cada buraco do corpo de onde saía um membro

estranhou o perceber do mundo ao seu redor.

Tudo que sempre houve

de repente se tornou novidade.

E ficou ali quietinho por um tempo,

Maquinando um plano para se misturar,

um plano para encantar o mundo.

Quando quis andar, desabou

As pernas não o obedeciam

As vistas embaçadas não focaram no caminho

O fôlego fugiu

Coração veio a boca

E a cabeça não funcionava adequadamente.

“Como eles conseguem viver assim?”

– o nobre sentimento pensou.

Quis desistir e voltar a ser éter.

Lembrou-se de Freud,

o moço disse que os humanos eram feitos de carne,

mas tinham de viver como se fossem de ferro.

O peso da existência.

Daria conta?

Olhou para o céu e viu um mar de estrelas presas num fundo negro.

Resolveu persistir, perdeu o senso,

se encantou ouvindo estrelas.

Na segunda tentativa conseguiu se pôr de pé.

Olhou para o horizonte sem nada ver

Vacilando.

… e um moço de olhos azuis,

belo como um emaranhado de átomos,

lhe segurou pelo braço.

Nas órbitas os globos oculares de repente funcionaram

O coração bateu na aorta

Os cheiros do mundo o invadiram

E a cabeça, ainda sem funcionar, ficou leve.

Não se pode explicar o que o sentimento descobriu naquele dia.

Não com palavras.

Mas o que se diz por aí é que

ele desistiu da carreira

e ainda habita aquele corpo

e vive do lado daquele moço com cheiro de estrela.

E que todos os dias eles se dizem

e se querem.

E quando esquecem de dizer

eles se abraçam e o mundo se silencia,

e o sentimento,

que agora é gente,

morre de medo de escapar

pelo poros,

virar poeira,

deixar de

ser.

Fabio Oliveira de Souza

Imagem

Queria muito que o mundo estivesse sentindo um centésimo do que estou sentindo agora, talvez assim seria mais fácil para me entenderem. Uma sensação de incompletude quase essencial, cheia de inquietude. Foi-se o tempo em que o medo me paralisava, não sou mais como aquelas benditas cabras  desmaiadeiras do YouTube que levam um susto e caem duras, se tornando vítima fácil para predadores. Eu reajo, às vezes mais lentamente do que deveria, mas tenho me tornado cada vez mais senhor do meu destino e devo admitir que não é fácil, deveria me sentir envergonhado ao assumir isso do alto dos meus quase trinta e três anos de idade, mas é isso o que tenho sentido.

Ninguém disso que seria fácil  sair da minha zona de conforto e minha vontade em noites como essa é de entrar no carro e dirigir até o mar, dar um grito bem alto, gritar para o tempo que eu estou cansado e que mereço um descanso, mas o mar está longe demais e não acredito nessa coisa de tempo, nem no sentido físico nem em nenhum outro. No final do dia é apenas mais um dia que acabou, deixando marcas, algumas que terei de apagar, outras que se tornarão cicatrizes e outras que, eventualmente, sumirão, em seu devido tempo, depois de me terem modificado como se era esperado.

Dear heart, why him? And I am not complaining. Love me, fuck me. Listening to the stars. :-)

 

O AMOR BATE NA AORTA

Cantiga do amor sem eira

nem beira,

vira o mundo de cabeça

para baixo,

suspende a saia das mulheres,

tira os óculos dos homens,

o amor, seja como for,

é o amor.

Meu bem, não chores,

hoje tem filme de Carlito!

O amor bate na porta

o amor bate na aorta,

fui abrir e me constipei.

Cardíaco e melancólico,

o amor ronca na horta

entre pés de laranjeira

entre uvas meio verdes

e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,

meu amor, não te atormentes.

Certos ácidos adoçam

a boca murcha dos velhos

e quando os dentes não mordem

e quando os braços não prendem

o amor faz uma cócega

o amor desenha uma curva

propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro

o amor subiu na árvore

em tempo de se estrepar.

Pronto, o amor se estrepou.

Daqui estou vendo o sangue

que escorre do corpo andrógino.

Essa ferida, meu bem,

às vezes não sara nunca

às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor

irritado, desapontado,

mas também vejo outras coisas:

vejo corpos, vejo almas

vejo beijos que se beijam

ouço mãos que se conversam

e que viajam sem mapa.

Vejo muitas outras coisas

que não ouso compreender…

Carlos Drummond de Andrade

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