“Homem que nada teme é homem que nada ama”

Entre minhas pesquisas acerca da síndrome abdominal aguda e sobre os medos que venho sentindo ultimamente eu consegui chegar a algumas conclusões bem interessantes, algumas mais do que o fato de que o pâncreas está envolvido em grande parte dos casos de abdome agudo atendido em serviços de urgência, e que a abordagem nem sempre é cirúrgica. Legal né? Ok, nem tanto. Descobri que isso que sinto é praticamente determinado por alguns genes que eu carrego, que se tratam tão somente de alguns dos maiores medos da minha raça, a humana, e que não há nada de exclusivo do meu serzinho, e por mais que eu tenha essa tendência de achar que comigo tudo é pior, não, é só mesmo mais uma experiência de ser humano que estou vivendo e as chances d’eu sobreviver a ela são enormes. Já escrevi sobre medo antes, http://wp.me/p1fLo0-7C, acho que é o sentimento que mais me tem definido ultimamente.

Love is in the air. Sheldon Cooper feelings.

Love is in the air. Sheldon Cooper feelings.

Quarta-feira passada achei que eu teria um peripaque, nunca havia sentido isso que meus pacientes histéricos descrevem tão bem. Saí do trabalho atordoado com o tanto de casos de dengue que havia atendido, a falta de estrutura do serviço e tudo mais. Fiquei pensando no cara por quem estou meio apaixonado, nas minhas férias, na minha tia que teve um AVE, no meu cachorro que morreu há mais de um ano e no meu colesterol que está alto como nunca. Senti meu coração na boca enquanto eu fazia exercício de legpress na academia. Parei por uns minutos e senti meu coração disparado, um angústia enorme e sensação iminente de morte. Eu ri porque sabia do que se tratava,  e então me levantei, bebi um água e cinco minutos depois meu primeiro ataque histérico havia se findado.

Medo de falhar. No trabalho meu maior medo não é falhar no sentido de falta de conhecimento técnico, mas sim do ponto de vista humano.  Não que eu não corra risco de cometer uma imperícia a qualquer momento, mas é o lidar com as doenças não orgânicas, a parte não-biológica e mais psicossocial da minha relação com meus paciente é que está mais comprometida. A cada dia eu tenho menos paciência com eles, e eles a cada dia precisam mais que eu tenha essa qualidade/poder. E na vida amorosa, droga, morro de medo de fazer escolhas ou deixar de fazê-las e perder oportunidades que não vão se repetir, me vejo congelado e aleijado, daí fico ansioso, então deprimido e durmo.  Porque ser tão arrogante a ponto de achar  que eu não posso errar e que meu erro vai mudar o curso da humanidade? Fica a pergunta pra mim mesmo. Entra na fila na oito centésima quinta posição.

Medo de rejeição. Fico pensando se isso não é mais um traço de minha personalidade narcisista e arrogante ou até que ponto eu ainda me projeto no outro para ter tanto medo ser rejeitado. O medo na verdade é de não ser bom o suficiente e o outro jogar isso na sua cara?  Já fui tão rejeitado que quase não me incomodo mais com isso e muitas vezes parto do pressuposto de que isso vai acontecer inexoravelmente.  Mas um instinto, talvez o de preservação, sempre me leva a acreditar que eu estou melhor dessa vez que da anterior e que dessa vez não serei rejeitado tão facilmente, e que o cara vai querer pelo menos passar um final de semana romântico comigo antes de dizer que eu não sirvo. Medo, medo, medo.

Não se proteja do amor, let it snow let it snow, let it snow :-)

Não se proteja do amor, let it snow let it snow, let it snow 🙂

Medo de intimidade. Acho que esse engloba os anteriores. Deixar o outro olhar dentro da gente não é fácil, ver nossa mortalidade, nossa fragilidade escondida sobre uma capa de sorrisos e gracejos. Acho que o que eu tenho mais medo não é de me expor, e sim do que isso vai causar no outro. A maioria das pessoas se assusta quando há esse tipo de abertura do companheiro, não sei se simplesmente por não gostar do que viu/sentiu ou se medo de ter que ser recíproco, ter que se abrir em seguida para que o relacionamento continue progredindo. Daí as pessoas se afastam.  Eu tenho que assumir que já me afastei de pessoas que abriram demais sua intimidade para mim, acho que esse processo deve ser lento e de acordo com o que o outro quer ver e descobrir de você, processo autocontrolado, sem passar por cima de outros eventos que vão acontecendo ao longo do tempo que dois indivíduos estão se permitindo conhecer. Eu tenho medo de intimidade, mais que de lobisomens.

Medo continua escorrendo entre os meus dedos mas é hora de dormir. Amanhã uma horda de zumbis pacientes com dengue me guardam no centro de saúde.

Boa noite mundo. Tenham medo, muito medo, e que ele não nos congele, porque há tanto o que viver.

Medo

Pitty

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo de ter, medo de perder
Cada um tem os seus
E todos tem alguns
Suando frio, as mãos geladas
Coração dispara até sufocar

Só trememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos
Homem que nada teme
É homem que nada ama

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Paranóia hi tech é a sindrome
Contagioso, manipulador
Antiga batalha:
O homem e seu pavor
Nocivo se paralisa

Só trememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos
Homem que nada teme
É homem que nada ama

Se corre o bicho pega
Se fica o bicho come

Se corre o bicho pega
Se fica o bicho come

Se corre o bicho pega
Se fica o bicho come

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

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