Médico guerreiro, guerreiro, médico?

Hospitalários

Hospitalários

E a minha dor em todo corpo, no cabelo e nas unhas começa assim. A paciente com seus setenta e poucos entra no consultório com a melhor cara do mundo sorrindo de orelha a orelha, você até acha que será uma daquelas consultas fáceis e prazerosas, que no final ela dirá que no mês que vem, junto com os resultados de exames, te trará um pouco de goiabada cascão que ela faz com as frutas que cultiva em seu quintal porque você foi um médico muito bom e atencioso. Só que não.

Ela se assenta e olha ao redor examinando todo o consultório e apesar daquela ser a sua vigésima terceira consulta naquele mesmo lugar em menos de dez meses, age como se não conhecesse aquela decoração carinhosamente criada pela equipe de saúde da família para esconder a tinta bege doente que a prefeitura sempre escolhe para pintar as paredes.

– Quero ver se o senhor é bom como os outros médicos que por aqui passaram. Vim trazer os exames e pedir para que o senhor me prescreva meus remédios. – ela disse em tom desafiador logo após responder o meu bom dia apenas com um aceno de cabeça.

Os exames laboratoriais estavam ótimos e eu fiquei com vergonha, o HDL dela é duas vezes o valor do meu, e ela tem quase duas vezes e meia a minha idade, vive de pensão e nunca come fruta porque não sobra dinheiro. Eu deverei morrer antes dela.

– Eu já sabia que estava tudo bem porque eu não sou médica mas sou meio médica. – O tom agora era quase de escárnio mas como ela era apenas a segunda paciente do dia eu resolvi contar até dez mentalmente e continuar com a consulta. Odeio quase médico quase como odeio médicos que se acham superiores a tudo só porque são médicos.

Fui aferir sua tensão arterial e ela riu largamente, exibindo sua bela dentadura branca e rosa quando eu desajeitadamente deixei o estetoscópio cair no chão. Me senti nu, aquela senhora enrugada parecia estar enxergando dentro de mim, minhas fraquezas, meus erros, meus medos. Ela estava me desconcertando. Enquanto eu tentava ouvir a bulhas e sons de Korotkoff ela me olhava nos olhos, me lendo, tentando chegar bem no fundo. A cada batida do coração ela me devorava um pouco.

Pedi para que ela descesse da maca e retornasse à cadeira para que eu lhe passasse as últimas orientações. Agora ela que mostrou sua fraqueza, escorregou ao descer e quase caiu no chão, eu tive tempo apenas de segurar seu braço fino e frágil, tive medo de machuca-la mas foi instintivo. Seu olhar não foi de agradecimento mas sim de reprovação, e ela ainda soltou: – O senhor deixa todas as suas pacientes caírem de boca? – Usei meu sorriso mais amarelo e depois de leva-la pelo braço até a cadeira me assentei e passei as minhas observações.

– E o meu diazepam? Vai fazer a receita logo? – Acho que ela já estava cansada por causa da demora da consulta, cansada de ter gasto quase meia hora me explicando como os médicos de outrora eram bons e faziam tudo o que ela pedia e ela nunca fazia nada do que eles a orientavam. E eu estava devastado querendo que ela saísse logo da minha frente e parasse de me provocar.

– Mas eu não estou te perguntando se o senhor quer passar o medicamento, meu lindo, eu só estou te mandando fazer a receita. Você é meu médico, eu não sou sua paciente, sou paciente desse posto, todo mês te um médico diferente aqui, e já esqueceu que eu sou médica também? – Minha vontade foi de fazer um encaminhamento a equipe de saúde mental da unidade, mas acho que as psicólogas e a psiquiatra não fizeram nada de ruim para mim para que eu as presenteasse com esse cavalo de troia. Respirei fundo, pensei que em cerca de quarenta dias nesse mesmo horário eu estaria pegando sol em um praia bem linda no leste da Austrália e expliquei que minha conduta naquele dia não incluía prescrição daquele medicamento e que eu estava disposto a ajudar a paciente a vencer a dependência do mesmo.

Achei que ela jogaria sua bolsinha com estampa de pequenos gatinhos rosados em minha cara. Preparei os meus ouvidos para ouvir desaforos e quem sabe berros desesperados. Mas ao invés disso um choro tímido com fungar de nariz.

– O senhor talvez seja o melhor médico que eu já vi. Primeira vez que tentam me ajudar a parar com essa praga desse remédio. – Ela me desarmou. Minha vontade foi de me levantar, dar a volta na mesa e abraça-la, mas eu ainda tinha um pouco de medo dela e não sabia se ela estava tentando me fazer me aproximar para dar-me uma facada ou uma mordida na orelha.

Eu já estava sem energia e fiz todo o discurso de higiene do sono, autocuidados, atividade física, dieta regrada, lazer e prazer. Ela me olhava com olhos ávidos, até vi um brilho naqueles olhos murchos e cansados. Parecia que ela não conseguia mais me ler, eu havia me tornado algo que ela não compreendia.

Ela saiu do consultório sorrindo, me parecia um pouco mais leve, me deixou para trás em frangalhos, me causou uma montanha russa de emoções e então se foi. Parecido com o que meu ex-namorado me fez uns meses atrás.

Porque tanto sofrimento? Acho que estou perdendo o tato com a medicina da família, quanto mais tento mais eu me afasto daquele modelo de médico que promove saúde e previne doenças, a cada dia tenho menos prazer fazendo o que faço. Dá tanto trabalho ouvir e educar e desmistificar e (re)construir conceitos com o paciente. Não quero chegar ao ponto de me entregar e simplesmente renovar uma receita de diazepam, seria menos penoso para mim e para eles, mas as custas de que? Os pacientes chegam ao centro de saúde cada vez mais armados e encontram os profissionais fragilizados, mas preparados para a guerra, não contra a doença e o adoecer, mas guerra entre trabalhador e usuário.

Mais uma crise. Chegar todo dia no trabalho e ver aquele tanto de gente passando mal de pé, sem lugar para se assentarem aguardando acolhimento, e isso acontece há anos, desde que entrei no sistema, e o poder público não faz nada? Não há praia no leste ou no oeste da Austrália que me faça engolir isso. Faltam profissionais, principalmente médicos, mas o que mais falta é um cuidado especial com as pessoas e o sistema de saúde.

Parece que somente eu e alguns colegas persistentes ficamos encarregados de fazer saúde ali onde trabalho, me sinto um soldado mal pago que é mandado para o fronte de batalha e o pior é que não há uma tropa de elite atrás de mim que virá e consertará o que precisa de concerto quando eu for sacrificado. Nunca precisei disso. Acho que preciso mesmo voltar a estudar e tomar outros rumos em minha vida profissional. Espero que existam muitos médicos e enfermeiros e outros profissionais que continuem dando conta, porque eu estou prestes a jogar a toalha.

 

Os Hospitalários


Nome completo: Cavaleiros Hospitalários de S João, Jerusalém, Rhodes e Malta



Formada depois da Primeira Cruzada, A Ordem dos Hospitalários dedicou-se originalmente à medicina, curando e provendo o repouso para os peregrinos. 
Devido às contínuas invasões muçulmanas, os Hospitalários adotaram a filosofia guerreira dos Templários e rapidamente dedicaram-se à defesa Militar da Cristandade.
 Porém, os Cavaleiros Hospitalários nunca esqueceram suas origens e sempre mantiveram hospitais para cuidar dos doentes e feridos. Os Cavaleiros de São João têm uma filosofia de cura, e todos são treinados em medicina . 
Os Hospitalários foram a única Ordem a sobreviver incólumes aos turbulentos séculos (ainda hoje a Ordem Hospitalária é atuante, com Sede na Ilha de Malta, no Mediterrâneo) em que atuaram.
Durante os últimos séculos, eles agiram freqüentemente em auxílio ao braço da espionagem do Vaticano.


A maioria das pessoas os vêm como dedicados à obras beneficentes, especialmente em auxílio pelo mundo inteiro em serviços de ajuda a desastres.
 Os membros desta Ordem, aparecem em público, normalmente, muito bem vestidos.
Como a maioria dos médicos, eles acreditam em padrões altos de limpeza e higiene. Seu uniforme cerimonial é negro com uma cruz branca (a Cruz maltesa).
 Ocasionalmente, os guerreiros monges mais antigos, usam batas vermelhas com a Cruz maltesa branca.
 Desde que foram expulsos de sua sede na Ilha de Malta em 1.700, por Napoleão, os Hospitalários tiveram que contentar-se com uma propriedade pequena perto do Vaticano em Roma. Porém, foi permitido recentemente aos cavaleiros, reaverem seu castelo de Valletta; entretanto, o maltês já não os aceita como senhores.
 Os membros desta Ordem são geralmente escolhidos entre os médicos, homens de ciência ou com tendências ao sacerdócio. Conforme comentamos acima, um braço dos Hospitalários foi fortemente envolvido na espionagem do Vaticano, durante séculos.

O autor levanta a suspeita de que ainda hajam membros da Ordem dedicados à esta tarefa. Esta é a Ordem mais tradicional (do ponto de vista de submissão ao Papa) e coloca grande ênfase em religião e cerimônias religiosas. Como resultado, só são permitidas para as mulheres servir dentro da Ordem de uma maneira não combatente. O Hospitalários têm um forte sensos de justiça. Eles não auxiliarão nenhuma pessoa ou criatura que eles pensam que são más e isto os põe freqüentemente em conflito os com o Templários e Teutônicos.

– Fonte: Wikipedia

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