A macumba e eu – Este post não contem macumba!

No one mourns the wicked

Eu estava voltando da casa de amigos que moravam a umas três quadras de mim, nós tínhamos brincado a tarde inteira de rouba-bandeira, eu estava completamente sujo de tanto cair no chão de terra vermelha e minha camiseta branca estava cheia de marcas das patas do dálmata enorme que eles tinham. Não me lembro do nome do cão, sei que ele era surdo, Monica e Richard não gostavam de brincar com ele porque, segundo a mãe, cachorros eram cheios de doenças, ainda mais aquele, que era deficiente. Eles só mantinham o cão porque o pai o havia ganhado de um sócio da empresa. Estranho, eu tinha mais carinho ainda pelo cão pelo fato dele ser deficiente, me compadecia, me lembro que ele gostava tanto quando eu corria atrás dele, Monica achava que eu tinha algum problema mental, eu ficava imaginando quando eles me proibiriam de entrar na casa deles, e na verdade eu tinha, eu tinha a mente mais inquieta do bairro. Bem, mas essa história não é sobre dálmatas surdos nem sobre minhas doenças mentais.

Resolvi tirar a camisa encardida para evitar que minha mãe brigasse comigo ao me ver chegar em casa. Não foi uma boa ideia. Quando eu estava dobrando a rua, minha camisa escorregou do meu ombro e caiu dentro de um prato de farofa de macumba. – Ahn, não! – foi o que eu gritei levando a mão a boca. Quais são as chances disso acontecer? Quase nulas se eu tivesse virado na rua de baixo, ou pelo menos na esquina de cima, mas não. Aquela esquina era famosa pelas macumbas fartas que recebia toda semana. Eu mais que depressa peguei a camiseta e sacudi a farofa, um pouco voou nos meus olhos e enquanto eu os esfregava para voltar a enxergar eu ouvi uma voz conhecida. Era meu vizinho, o garoto mais chato do bairro, morava bem naquela esquina e tinha visto tudo. Eu previ que seria motivo de chacota pro resto da rua em questão de minutos.

– Você está brincando com a macumba, Fábio!? Você é estranho demais! – ele me perguntou surpreso, a voz cheia de maldade. Eu nunca tinha gostado dele, ele batia nas crianças menores e, diziam as más línguas, que ele cheirava cola e, o que era pior, só estava na quarta-série porque colava, muito.

Fingi que não tinha ouvido e saí correndo. Caí, ralei o cotovelo, me levantei e em poucos segundos já estava dentro da minha casa debaixo do chuveiro. Fiquei pensando se a maldição da macumba poderia ter pegado em mim, passei álcool no corpo todo, menos nos olhos onde tinha caído farofa, porque eu era estranho mas não imbecil. Fiquei desesperado, não queria contar pra minha mãe, ela pensaria que eu estava brincando com a macumba, mas eu tinha que pedir pra ela me levar a igreja, afinal só mesmo o padre poderia purificar meus olhos.

Nessa hora eu quis tanto ser cristão, se eu fosse cristão minha mãe nunca acharia que eu brincaria na macumba dos outros. Queria tanto que minha mãe não me achasse estranho só por uma vez.

Saí do banho me sentindo sujo, enrolado na toalha fui atrás dela. Estava nervosa com meu irmão que tinha acabado de quebrar uma xícara de porcelana, presente de casamento. Vendo ela gritar daquele jeito por causa de um xícara e sabendo o tanto que ela era católica, achei melhor não dizer que eu estava contaminado com macumba naquele momento.

Vesti meus shorts, coloquei uma camiseta limpa e imaginei que talvez a macumba fosse um pedido por algo bom, talvez eu não estivesse condenado a morrer, quem sabe eu não ganharia no jogo do bicho ou me casaria com alguém rico? Saí de casa em direção a casa de minha avó.

– Tia, macumba pode ser pro bem? – perguntei a uma de minhas tias como quem não quer nada, mas ela notou que havia algo estranho em mim, talvez tenha sentido em minha aura o peso que eu carregava. Ela respondeu que eu não deveria ficar pensando nessas coisas e que macumba era só do diabo. Se era macumba, era do diabo e pronto. Se eu quisesse algo de bom eu deveria pedir pra Deus, e Ele não aceitava macumba.

Eu estava f*dido. Eu estava de mal de Deus e contaminado com algo que só ele poderia resolver. Resolvi que eu era criança e que Deus tinha que me aceitar de volta, afinal era uma urgência.

Voltei pra casa e corri pro meu quarto pensando em me ajoelhar e rezar, mas na época eu dormia com meu irmão e ele estava fazendo para-casa na cama dele. Pedi para que ele fosse pra mesa, afinal lá era o local adequado pra fazer a tarefa, apesar de que eu nunca a usava. Ele se recusou e eu o arrastei a força.

Sozinho, me ajoelhei e rezei. Pedi para que Deus e Jesus e os santos tirassem a macumba do meu olho, que eu era uma pessoa boa e que eu não tinha encostado naquilo por vontade própria. Eu rezava e ao mesmo tempo pensava que, se Deus era mesmo onipresente, ele deveria já saber que tudo aquilo era um mal entendido e tirar logo a macumba de mim, ou melhor, não deveria nem ter deixado minha camisa cair na farofa, ou mais, não deveria deixar existir macumbaria. Enfim, eu não estava em condições de questionar Deus. Rezei.

Dormi como um anjo naquela noite e no dia seguinte acordei cedo, voltei a dormir e mais uma vez cheguei atrasado na aula. Não tive tempo de pensar em outra coisa que não estudos-sociais e matemática e na hora do recreio meu vizinho que tinha me visto envolto na macumba veio até a mim. Tudo me voltou a cabeça e fiquei tenso. Ele me disse que não mais caçoaria de mim porque ele tinha visto que eu não era um moleque bobo, porque tinha-se que ser muito homem pra mexer em macumba. Achei aquilo o máximo, afinal eu era maior do que ele mas morria de medo do meliante, e a macumba de certa forma tinha me oferecido proteção. Ufa!

Cheguei em casa, almocei e fui pra rua procurar pelos meus amigos, não achei ninguém e fui até a esquina onde estava o prato de farofa com as velas vermelhas e pretas e um vaso de flores murchas. Fiquei olhando aquele amontoado de coisas e não consegui ver muito sentido em nada. Não vi nem deus nem o diabo naquilo. Me virei e nunca mais pensei naquele episódio, até hoje pela manhã, quando estava vindo pro plantão e vi uma macumba numa esquina perto do hospital.

Hoje em dia vira e mexe eu esbarro em algo pela rua que de certa forma me contamina, vezes pro bem, vezes para o mal. Não mudou muita coisa nesses mais de vinte anos, ainda fico perturbado quando algo fora da rotina me ocorre, quase sempre tenho reações desproporcionadas e sofro sem necessidade. Mas no fim vem aquela voz que me diz “calma, um dia de cada vez, o seu mundo ainda está em construção, o mundo muda num segundo e você também”. Das coisas ruins posso tirar sempre algo bom, e se não tirar, outros dias virão. E macumba é só macumba, como uma laranja é só uma laranja.

Meus pacientes estão se acumulando lá fora. Sábado lindo, dia de sol e eu trabalhando. Feliz.

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