Laura e meu terceiro dedo

Eu teria morrido velho e carrancudo sem nunca assumir que foi Laura que quase quebrou meu dedo naquela tarde quente de setembro. Eu tinha quase oito anos e estava praticamente na segunda serie, era o mais alto da minha turma, o que tinha a melhor letra cursiva e o que já sabia a diferença entre ditongos e hiatos. Só a Laura e a professora da turma não gostavam de mim. Laura porque ela era a líder de uma gangue de meninas gordas e fortes da segunda série que batiam em todo mundo e odiavam até a si mesmas. A professora porque me achava muito lerdo e porque eu tinha quebrado o melhor apagador dela, sem querer.

Eu estava praticando o meu autismo próximo a uma pilastra quando ela e sua turma me cercaram. Eu não tinha nada para oferecer naquele dia, não tinha levado biscoitos recheados nem cigarrinhos de chocolate pra escola. Laura esboçou um sorriso, jogou minha merendeira do He-Man no chão e me empurrou, foi quando quase quebrei o terceiro dedo da mão direita, caí estatelado e rolei pra longe dela. Na hora não senti nada, só doeu meu orgulho, ralado e ferido, mas dali até o fim do recreio houve tempo suficiente pro meu dedo ficar do tamanho de uma mexerica suculenta. Engoli o choro com medo de rirem de mim, havia dezenas de crianças sendo crianças no pátio poeirento da escola estadual onde estudei até a terceira série.

A professora me viu entrando na sala de aula logo após tocar o sinal de fim do recreio com cara de dor e o dedo enorme, pulsando, e ao invés de me acolher fez cara de que não era aquela a década de se combater o bullying e continuou escrevendo no quadro negro, indiferente, usando gizes de várias cores para desenhar palavras que começavam com “d” de dor e “e” de extraordinária.

Quando o sinal tocou novamente algumas horas depois eu corri pra fora da sala e minha prima me esperava pra irmos embora juntos. Ela me alertou que minha mãe me bateria por eu estar voltando machucado pra casa, de novo, e não aceitou mentir comigo, dizer que eu havia caído. Ela achava mais nobre que minha mãe soubesse que eu estava apanhando de uma coleguinha. Na época não havia transporte escolar e as mães nos deixavam mais soltos no mundo. Acho que existiam menos psicopatas comedores de criancinha, ou não.  Não sei como que aquelas mães se ocupavam tanto que não podiam buscar seus filhos na escola! Pauta pra um novo post.

Cheguei em casa e minha mãe me levou de uniforme e tudo pro pronto socorro, ganhei uma talinha de dedo e ela, compadecida, ainda me pagou um sorvete. Não apanhei de mais ninguém naquele dia e voltei de ônibus pra casa, me sentindo um herói de guerra, exibindo meu curativo que já estava todo lambuzado de sorvete.

Graças ao sistema ultrapassado de educação e avaliação, Laura tomou bomba e não me acompanhou pra segunda série,  naquela época a turma praticamente não mudava de um ano pro outro, muitas vezes até o professor passava de ano com a turminha. Depois de me ter mandado pro pronto-socorro ela nunca mais mexeu comigo, mas eu ainda assim morria de medo dela e dentro de minha cabeça eu dava pulos de alegria quando ela faltava a escola.

Hoje em dia toda vez que dou uma topada com o dedo em algum lugar me lembro daquela maldita menina. E dos meus amiguinhos de turma não consigo me recordar de nenhum. Injusto esse mecanismo de memória primitiva que imprimiu na minha cabeça a cara de Laura e deixou que todos os outros ficassem no esquecimento.  Espero nunca reconhece-la se um dia cruzar novamente o seu caminho.

Lembrei desse episódio essa semana quando conversava  com minha irmã/cunhada sobre a decisão dela e de meu irmão de matricularem Izabelle na escolinha infantil. Achei louvável a iniciativa mas dentro da minha cabeça fiquei imaginando as Laura’s soltas pelo mundo correndo atrás de Izzie tentando roubar seus cigarrinhos de chocolate. Mas afinal não vendem mais cigarrinhos de chocolate, aquilo sim era uma imoralidade! Acho que Izzie ficará segura. Ou não.

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