Perdoai, mas eu preciso ser outros.

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Último dia no meu primeiro local de trabalho. Na verdade não foi o primeiro, mas considero como tal porque foi onde eu consegui assumir uma equipe de saúde da família e tentei fazer prevenção e promoção de saúde. Se passaram exatos 5 anos, 2 meses e oito dias desde aquele abril quando estava desesperado para achar um lugar para trabalhar e poder pagar as prestações de meu carro, na época achava que tinha que pegar o primeiro emprego que aparecesse e custei a descobrir que por hora nós médicos ainda temos o privilégio de poder escolher onde queremos trabalhar, pelo menos com PSF. Eu escolhi o Minas Caixa no susto, foi o lugar que me recomendaram e eu não sabia nem podia dizer não, por medo de não achar coisa melhor.

Vivi momentos importantíssimos da minha vida enquanto estava trabalhando ali, dentro e fora da unidade. Fiz amigos, ganhei uma avó, nasceu a Izabelle, morreu meu Apolo, terminei um namoro, alisei meu cabelo, aprendi a nadar, comecei a usar antidepressivos e me tornei fã de Kate Perry. Acredito que muito disso ocorreria comigo independente de onde eu estivesse, mas fico feliz por ter sido ali. Saio com um peso enorme no coração, amo tanta gente ali, inclusive alguns pacientes, tão cordiais, nem parecem pacientes de posto. Mas minha hora de mudar já passou, dessa vez não vou ficar emotivo e voltar atrás na última hora. Ou vou?

Sou um dos mais novos praticantes do Desapego, confesso que não estou ainda muito bem treinado, titubeio muito e sou fácilmente vencido por um abraço mais terno ou uma palavra doce. Estou almoçando e com muito medo de voltar ao trabalho, medo de me despedir, medo de estar saindo sem ter dado o meu melhor, sem ter feito alguma diferença. Insegurança é mesmo uma praga, e achar que eu sou o umbigo do mundo não ajuda nessas horas, mas é triste ver que sou totalmente susbtituível. Fico imaginando daqui a alguns dias alguém assumindo meu posto de trabalho e fazendo tudo o que eu faço, muito provavelmente melhor do que eu. Treva.

Entrei um Fábio e estou saindo outro, entrei me sentindo powerfull e saio me sentindo powerless. Mas isso é bom, afinal de contas poder nós todos temos, um pouco ou muito, como usá-lo é que define se somos ou não poderoso. E a sensação de falta de poder que me transpassa agora é passageira, eu espero, acredito que seja fruto da insegurança do que vou encontrar no meu novo emprego e de como serei recebido pelos colegas e pacientes novos. Mas como não tenho controle sobre nada disso prefiro ligar o fodas e comer mais uma batata frita.

Mudança. Muita coisa nova em 2012, muita informação, muito trabalho, muita gente entrando e saindo da minha vida, nunca tive vida social tão agitada, nunca fui tão dono do meu tempo e da minha energia. Falta praticar isso na vida profissional, que não está ruim, mas pode melhorar muito.

Desapego. Desapego. Vou tomar um capuccino e continuar desapegando.

Tenham uma ótima quarta-feira 🙂 E desapeguem-se, sem perder a ternura.

 

“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.”

          Manoel de Barros

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