O tapinha me dói

Já que os crimes prescreveram, agora posso abordá-los. Não que eu concorde com as leis atuais que proíbem palmadas e chineladas em crianças incontroláveis, mas acho que eu apanhei demais quando era pequeno. E olha que eu nem era assim tão levado. Acho que na minha época e no local onde cresci era quase que rotina dos pais em determinado horário do dia dar uma espancadinha em seus filhos, tipo um chá das cinco, só que ao invés de vir com torradas vinha com pancadas. Ah, como eu odiava aquilo, achava tão humilhante minha mãe puxando minha orelha para eu entrar pra casa às duas da manhã quando eu estava na rua contando histórias de vampiros pros meus amigos.
Sempre que ela me chamava por mais de três vezes sem obter resposta eu levava uma surra. As de chinelo eram as mais comuns e as que menos doíam, mas varas e cintos faziam parte do meu cardápio de punições, sendo que o espanador era o meu maior inimigo. Nem sempre minha mãe me achava, na verdade eu conseguia fugir na maioria das vezes e com o passar do tempo ela criou um sistema cumulativo e ao invés de receber uma surra diária recebia duas ou três semanalmente, com chineladas triplicadas.
Eu odiava ajudar minha mãe nos afazeres domésticos, mas me recordo de que eu ia para a casa de minha avó e minhas tias me colocavam para limpar o quintal delas. Isso deixava minha mãe irritadíssima e ela só não cuspia fogo porque não tinha glândulas para tal. E eu não fazia para irritá-la, com minhas tias tudo era mais divertido, e elas me convenciam a fazer o trabalho porque tinham que estudar, fazer pesquisas pra escola. Achava lindo os trabalhos de ciências sociais que elas faziam em cartolinas coloridas cheias de brocal e papel laminado colorido.
Eu não sei porque eu irritava tanto minha mãe e não sei o que se passava na cabeça dela pensando que me batendo daquele jeito algo mudaria. Meu pai me batia de vez em quando, a última vez que apanhei dele eu tinha cerca de 8 anos e o motivo foi o mais banal: eu e minha bexiga descontrolada entramos em desacordo e eu fiz xixi na roupa, meu azar é que eu estava usando uma bermuda do meu irmão e ele me denunciou. Eu e minha bexiga, tantos vexames que serão material de outro texto, um dia.
Não sei se crescer assim me fortaleceu, me traumatizou ou me deixou perturbado como hoje eu sou, isso deixo para análise que um dia vou terminar. Minha mãe se arrepende, eu nem me lembrava de ter apanhado quando criança, há alguns meses minha mãe tocou no assunto dizendo que se achava uma mãe terrível por no passado ter levantado a mão para seus filhos. Não concordo com ela, acho que por mais gauches que eu e meu irmãos possamos ser, ela fez um bom trabalho. Éramos cinco homens e ela, coitada. Muita cueca.
Acho que se eu tivesse um filho eu não bateria nele, não por causa da lei, mas por convicção. Pode ser que na construção da minha pessoa umas palmadinhas tenham ajudado, mas acho que usaria de outras ferramentas. Meus pais não eram de conversar, falar o que era o certo e o errado, através da surra acreditavam passar todas as mensagens. Eu hoje pago por isso, não aprendi a conversar com eles, estou adquirindo essa habilidade hoje, não aprendi a dizer não, mas não lancei mão de violência para me expressar. De repente não violência explícita, mas implícita, indireta, acho que pratico muito e acabo ferindo quem eu gosto sem querer. Não aprendi a ser agressivo na medida certa, o que aprendi foi a odiar a violência, pelo menos algo eu aprendi bom eu sei que tirei disso tudo.
O mais próximo de um filho que tive foi o Apolo. Bati nele algumas vezes e me arrependo tanto, não digo isso agora porque ele não está mais aqui, eu me arrependi logo depois das agressões. Ele era tão inocente em suas travessuras, eu perdi a cabeça algumas vezes e sinto vergonha por tê-lo subjugado. Violência não se justifica, fico me lembrando daquele cachorro enorme e forte quietinho enquanto eu lhe dava umas chineladas. Tadinho. Nunca o machuquei, ainda bem, eu morreria de remorso, mas só de tê-lo um dia agredido me sinto mal. Acho que é isso que minha mãe sente. Vou conversar com ela sobre isso e espero que Apolo tenha me perdoado lá do Céu.

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