“Medo escorre entre os meus dedos”

Ela me segurava pelo braço e dizia “Fábio, não” com uma ternura e um temor que me faziam congelar. Era a única criança que eu ouvia na época, a única capaz de sossegar o diabinho que nascera dentro de mim após a partida de Catarina. Ela sempre me puxava quando achava que eu estava extrapolando os limites, quando imaginava que eu estava me colocando em risco. Acho que meu mecanismo de medo e fuga devia ter vindo com defeito, algo desligado no meu sistema nervoso central, mecanismos bem primitivos no ser humano mas que em mim não pegavam, nem no tranco. Ser destemido não é mais uma característica que se aplica a minha pessoa de uma maneira geral, em alguns aspectos hoje em dia eu sou desbravador, mas na maioria do tempo sou mais um covarde na multidão, o que me incomoda e no alto dos meus 30  anos de vida me faz querer gritar, e mudar.

Eu era sempre o inteligente, o mais alto, o mais corajoso, o que ria na cara do perigo. Para eles, aquela turma de crianças de 9 a 11 anos, eu era como uma espécie de guia, modelo, irmão mais velho, e assim foi por um bom tempo. Eu tinha que inventar as brincadeiras e caso o grau de satisfação da turma não estivesse elevado eu ainda era responsável pelos planos B e C. Morria de medo de ser substituído por outra criança alfa, afinal existiam fortes candidatos, como a garota que nos introduzia a brincadeira “pular o toco”, ou o rapaz que comprou os primeiros dois metros de elástico da loja da Dona Elza destinados a recreação e não a sustentar as cinturas das calcinhas das avós. Mas acho que nenhum deles ameaçou meu reinado de propósito, eu era um bom governante, nunca fui tirano e nem pratiquei bulling e só havia esmurrado uma criança uma única vez, uma menina gorda da rua de baixo que queria bater no meu irmão. Me recordo de que quando havia briga entre as crianças eles me traziam os arruaceiros a justiça, e eu sempre achava que brigar era bobeira e que punição era algo ainda mais idiota. Eles me respeitavam pela maneira como eu deixava tanto os meninos quanto as meninas brincarem de rouba bandeira, eu acho. Ou porque eu era o dono da bola, da peteca, do bambolê, dos carrinhos e de quase todos os brinquedos.

Está aí algo que eu odiava: quando minha mãe me obrigava a dar meus brinquedos, eu sempre fui muito possessivo, na vida adulta eu tenho lutado muito contra isso, mas quando criança eu era um Sméagol protegendo my preciouss e meus melhores amigos se tornavam rivais quando minha mãe resolvia que eu estava com minha caixa de brinquedos muito cheia e que era hora de partilhar. Adorava que brincassem com as minhas coisas e nunca fui de humilhar meus amigos, mas gostava de deixar claro que o que era meu, era meu. Muito pouco cristão desde jovem, eu sei, mas é o meu jeitinho.

Hoje eu não tenho mais quem me segure pelo braço e diga “Fábio, não”. Internalizei essa voz com o passar dos anos e ela não mais se calou. O medo do novo, de me lançar em projetos e rotinas diferentes, já não me congela mais, mas me deixa de pernas bambas. Gosto muito de experimentar o novo, mas pra saber que ele existe e está ali, acessível, não necessariamente como algo primordial, obrigatório. Eventos aconteceram na minha vida de forma muito aleatória e me trouxeram onde estou hoje, não tive que escolher muito, não tive que abrir mão de muita coisa, e hoje quando me deparo com essa situações de bifurcação, de estar segurando com cada uma de minhas mãos a mão de uma pessoa pendurada num penhasco sabendo que só poderei salvar uma, eu piro. Mas acho que é para pirar. Não?

Liderar então é algo que não está em mim. Não consigo lidar nem com minha frustração, com a alheia então é algo martirizante, eu me deprimo em pensar que sou responsável pelo desenvolvimento de pessoas, ou de seja lá o que for que envolva fracasso para outros, em caso de insucesso do projeto. Com o meu fracasso eu sei lidar e crescer, mas ser responsável pelo fracasso alheio é demais. E o sucesso, bem, torço para que os outros o alcancem, e eu também, mas cada um com seus problemas.

Acabou mais uma semana e estou extremamente feliz. Feliz. Eu não superestimo a felicidade mas sei muito bem colher os louros do meu estado de espírito quando ela me invade, fico muito mais criativo e aberto para o mundo. Estar feliz me faz acreditar que vale a pena continuar nesse processo pelo qual estou passando, de me achar, de me apresentar para o mundo como o indivíduo único que sou e não só o vulto de quem eu gostaria de ser. Difícil viver na sombra de si mesmo. Eita, hora de fazer minha declaração de imposto de renda e esquecer tudo isso. Acho que fiquei muito emotivo, foi o bolo húngaro que comi hoje com pessoas muito especiais. Mas que felicidade é muito bom, e deveria ser vendida em lojas de departamento, ah, isso é.

If there is so much I must be,
Can I still just be me
The way I am?
Can I trust in my own heart
Or am I just one part
Of some big plan?

The Lion King 2 – “We are one”

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