Catarina, os biscoitos de polvilho e a melancolia

Ela não sabia e nem eu, mas Catarina foi a minha primeira namoradinha, e a última. Era uma menina estranha, mais estranha do que eu naquela década, e hoje entendo que na verdade a família dela era muito pobre e desestruturada, de estranha ela não tinha nada, só era uma sobrevivente. Foi a primeira pessoa que me fez sair da minha casa escondido, mentir para meus pais e roubar biscoitos. Sempre me recordo dela em flashes e há alguns dias sonhei com Catarina e acordei me sentindo feliz.

Tinha a cabeça desproporcionalmente grande, era muito magra, muito branquela, e seus cabelos eram encaracolados sempre na altura dos ombros, sem muito brilho ou vida. Ela sempre usava vestidos de chita puída, herdava os mesmos de sua irmã Benta, que era uns quatro anos mais velha mas tinha a mesma altura de Catarina, só que gorda. Para mim sua irmã era a pessoa mais gorda do mundo e um dia explodiria, pelo menos era o que meu avô dizia, “essa menina é uma leitoa, um dia explode!”. O vestido que Catarina mais usava era um azul-claro, que tinha uma fita amarela encardida na cintura, de tão velho parecia prestes a se desfazer quando a garota pulava amarelinha na calçada.

Minha mãe não se dava com a família delas, vivia dizendo que eles eram todos uns encapetados. Benta escrevia na calçada revestida de ardósia de minha casa com pedaços de pedra, e eu, quando a pegava no flagra, a ajudava. Na época eu não sabia escrever muita coisa e então desenhava, principalmente árvores. Pelos meus desenhos Benta também levava a culpa. Dos pais delas não me recordo, acho que quem mais cuidava delas era uma avó velhinha e seca que morava com as garotas e sempre as chamava na hora do almoço e tarde da noite quando ainda brincávamos na rua.

Elas moravam bem perto da minha casa, quase enfrente, numa construção velha que mais lembrava um barracão de fazenda onde se armazena milho para as galinhas. A casa não tinha muros nem cercas e eu não sabia lidar com aquilo, não sabia meu limite e sempre que queria chamar Catarina para brincar eu sofria, ficava do outro lado da rua a vigiando, acenando, até que ela me via. Eu não tinha coragem de ir até a casa dela por que não sabia até onde um visitante podia chegar sem ser um intruso. Estranho, mas aquele já era eu.

Um dos nossos programas favoritos era colecionar penduricalhos que vinham como brindes em chicletes e outros doces, tipo sorvete de maria-mole ou pipocas de arroz. Meu fetiche maior era por umas pulseirinhas que iam sendo montadas com pequenas flores de plástico coloridas, cada flor vinha em um chiclete. Os miolos das flores eram como os elos que mantinham a pulseira coesa e se destacavam das pétalas, que eram de cores diferentes. Ficávamos tardes inteiras fazendo diferentes combinações de cores e comprimentos das pulseiras. Não sorriamos muito, como eu ela era uma menina triste, melancólica. Ela pelos motivos dela, eu pelos meus.

Catarina e a velhinha que cuidava dela adoravam quando eu levava o resto do pacote de biscoito de polvilho para comer na casa delas enquanto brincávamos. Meu pai costumava trazer aqueles biscoitos todos os dias a tarde quando chegava do trabalho, comíamos a metade e o resto costumava ficar envelhecendo em uma lata. A senhora não tinha dentes e brincava que aquele biscoito na verdade era comida de criança e velho sem dentes.

Não sei quando exatamente Catarina partiu, acredito que eu tinha na época uns oito anos. Fiquei por meses esperando ela voltar, pois nem ela nem ninguém haviam me dito que ela se mudaria. Hoje sei que a família foi despejada na época pela prima deles que era dona do terreno. Na época eu achava que a qualquer momento eles voltariam, pois pra mim a minha vida e a da Catarina dependiam de estarmos juntos. Sei que eu sobrevivi, mas nunca mais tive notícias dela.

Com a mudança de Catarina meu universo se expandiu e eu tive que descobrir as outras crianças da rua, que eram muito mais coloridas e barulhentas. Fui prontamente absorvido pelo grupo e Catarina ficou como uma sombra, só fui me recordar dela agora adulto. Fico triste pensando que o futuro dela pode ter sido muito ruim, ou nem ter sido. Fico triste ao imaginar que aquela menina pode ter-se perdido nesse mundo de adultos irresponsáveis e governos corruptos, ao imaginar que ela pode ter sido engolida por usa melancolia.

Minha tristeza me acompanhou até hoje acho que se ela me deixar eu me sentirei incompleto, dela retiro energia para viver, tomar minhas decisões e mudar o rumo da minha vida. Ela convive direitinho com minha felicidade, meus desgostos e meu amor por cachorros. Catarina parecia ser a personificação desse sentimento, e como se alimentar de algo que é sua essência? Que medo. Me lembro daquele filme com título Melancholia do Lars von Trier, parece que a melancolia é mesmo algo que vem como um planeta e colide com a pessoa, inevitavelmente, ela está em nossa rota e um dia ela chega. Tem como se preparar para uma catástrofe dessas?

Onde estiver, espero que você esteja bem. Prefiro pensar que você está casada, que tem filhos e que mesmo que eles usem chita, eles sorriam. Sorrir é bom. Sorrir me ilumina.

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