Sobre a morte e outras coisas que andam a cavalo

Três das quatro figuras masculinas mais importantes de minha infância eram alcoólatras, dois tios e meu avô, por sorte meu pai não se incluiu entre elas. Eu e meus primos éramos os únicos que se divertiam com essa alta incidência de dependentes de álcool na família, pois bêbados eles costumavam nos encher de balas, doces, chocolates e as melhores histórias de monstros e gigantes de terras distantes eram contadas por vozes que exalavam um hálito etílico que aparentemente deixava tudo mais interessante.

Meu avô foi sem sombra de dúvida uma das fpessoas mais marcantes na minha infância e um dos meus maiores definidores de caráter, pro bem e pro mau. Poucos sabem mas uma das minhas tatuagens é uma homenagem a ele. Ele morava quase em frente a minha casa, trabalhava muito quando estava sóbrio e nessas condições eu raramente o via. Era um homem muito alto, infinitamente alto pra mim naquela época, com o tempo foi  se enrugando e encolhendo, mas os cabelos pretos e brilhantes o acompanharam até o fim. Era vaidoso e usava cremes para pentear.

Não sei o que se passava na cabeça de nossas mães que não tinham medo de nos deixar soltos por aí, me recordo de que eu e um dos meus primos mais próximos ficávamos ao lado de meu avô o tempo todo quando ele estava bêbado, como dois cachorrinhos que cercam uma criança devorando uma linguiça, rezando para que pedaços lhes sejam atirados ou eventualmente escorreguem por entre os dentes. No caso não queríamos cachaça, mas as guloseimas. E entre a bebedeira e sairmos para a padaria, nós ouvíamos as histórias, que a cada dia ficavam mais longas e ricas em detalhes. Minhas prediletas eram sobre a morte.

Ela era na verdade uma assombração que tinha recebido uma foice de presente de Deus. Andava num cavalo muito magro, com pelos negros como ônix (não sabia e na verdade ainda não sei o que é ônix, vou jogar no Google), brilhantes como raios de sol entre as gotas de orvalho. Arrastava pelas estradas por onde passava caixões de madeira que usava para carregar suas vítimas que não tinham família para velar o defunto. Segundo ele, ela era muito bonita e tinha o rosto triste e sofrido.

Meu avô dizia tê-la encontrado em duas oportunidades durante toda a sua vida no campo, uma delas quando ainda era criança e outra na vida adulta. Não me recordo como foram essas experiências ou o que se sucedeu, mas acredito que pelo menos quando adulto meu avô deve ter esbarrado com a ceifadeira após uma de suas festas regadas a cachaça. Ele disse que fugiu dela contando histórias sobre gigantes e que a morte ficava encantada com o mundo dos humanos. Ainda segundo ele, ela até queria muito que meu avô mostrasse para ela o mundo, o que ele havia lhe prometido. Gostaria que ele tivesse encantado essa dama mais uma vez e não tivesse nos deixado há alguns anos, gostaria de tê-lo aproveitado mais.

Ouvindo meu avô descrever o lugar onde ele nasceu, cresceu, se casou e teve com minha avó todos os meus tios e tias me fazia viajar para um lugar idílico. Nada se parecia com a terra árida que minha mãe e minha avó descreviam, nada se parecia com os relatos de minhas tias de um lugar isolado do resto do mundo e esquecido por Deus. Eu preferia a terra de meu avô, fértil e cheia de seres mágicos, onde para ser feliz bastava inventar uma história e acreditar nela.

Quando perdi minha inocência e me tornei cético deixei de gostar da companhia de meu avô, e foi aí que o afastei. Tive vergonha dele por muito tempo, mal o cumprimentava e paciência era o que eu menos tinha para ouvir suas histórias bobas. Meu avô não sabia ler, adorava jogar baralho com os netos nos finais de semana, quebrou a casa da minha avó inteira por diversas vezes, bateu em minhas tias, brigou e ameaçou matar meus tios, trabalhou como um louco e criou 11 filhos. Era um lutador, deve ter sofrido muito em sua infância, crescido com todas as adversidades que o início do século XX tinha para oferecer para um menino do campo.  Mas ele me deixou marcas tão boas e fortes. Se não fosse por ele eu e minha imensa família não estaríamos aqui.

Não posso voltar no tempo, não o tenho mais para me contar como ele enganava duendes e outros seres que o importunavam no caminho pra roça, mas seja lá onde estiver acho que ele deve estar encantando alguém com suas palavras. Se um dia eu puder me redimir com alguém, será com ele.

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