“Tudo dito, nada feito, fito e deito”

Comecei a desconfiar da existência de um ser onipotente e onisciente quando eu ainda era criança e minha mãe me levava para tomar vacina no posto de saúde em Ribeirão das Neves, perto de onde minha avó ainda vive. Naquela época íamos a pé, uma caminhada caprichada, o sol sempre ardendo no céu e pouco antes de chegar ao local, um último obstáculo, um morro quase adequado para realização de rapel. Minha mãe ia me arrastando pela maior parte do caminho, meus irmãos mais novos iam inocentes achando que estávamos tão somente indo escalar uma montanha.

Eu pensava: se deus quer nosso bem, se ele nos criou para sermos bons e felizes, porque raios eu tenho que deixar essa enfermeira gorda me machucar com essa pistola de vacina!? Não sei quantas mil vacinas tomei, mas eram tantas, e naquela época se usava aquele revólver com mais frequência, na minha opinião ele era mais traumático pelo barulho apocalíptico que emitia. Para mim seria melhor que a enfermeira atirasse logo com uma arma calibre 42 e acabasse logo com meu sofrimento. Se deus era tão bom, porque ele criara enfermeiras e vacinas? Porque não podíamos nascer imunes a tudo ou simplesmente não existir doenças?

Claro que minha mãe sempre tinha uma resposta na ponta da língua, que geralmente se restringia a um “Deus faz a parte dele e a gente a nossa, meu filho” ou então “Essas doenças aparecem porque as pessoas não respeitam Deus”. Era então um castigo? Mas eu nem tinha feito nada pra deus estar irritado comigo, as respostas da minha mãe só aumentavam minha desconfiança. Eu era obrigado a ir a missa todo domingo, catequese aos sábados, novenas, procissões, folias de reis, coroação e tudo que é tipo de evento educativo/social/ritualístico que a igreja oferecia. Por um tempo eu até esperava que nesses locais eu encontrasse respostas, mas o que eu ouvia era sempre que deus era misericordioso, que devíamos ser bons pra ele e uns com os outros.

Na minha adolescência resolvi tirar deus da equação, poderia ser bom comigo mesmo e com os outros, e se deus existisse ou não isso não faria diferença. Foi uma época tão chata, meus pais acreditavam que eu estava perdido e rezavam pela minha salvação. Isso me irritava porque eu não sentia que estava fazendo nada que precisasse das preces deles para ser salvo. Por eles continuei meus estudos bíblicos e até fui crismado. Durante os encontros do curso de preparação para a crisma era uma guerra, eu sempre questionava e racionalizava tudo e acho que eles só não me deram bomba porque teriam de me aguentar mais um ano.

Hoje adulto eu acredito que haja alguma espécie de energia que mantém nosso universo coeso. Como se fosse uma cola que impede que tudo se desfaça no vácuo. Não sei explicar como seria isso nem mesmo identifico o peso que isso tem na minha vida. Mas me sinto bem pensando assim, sinto que acreditar em uma força que originou tudo o que nos cerca me faz bem, melhor do que pensar que estamos realmente sozinhos nessa jornada pelo espaço. Não frequento igreja e não acho que algum dia eu encontre uma fé que me apeteça, acredito na bondade do ser humano e no poder da nossa espécie em se transformar a cada dia, a cada geração em uma espécie mais plena e justa consigo mesma e com o planeta.

Era isso. Vamos ser bons uns com os outros.

eu ontem tive a impressão

que deus quis falar comigo

não lhe dei ouvidos

quem sou eu pra falar com deus?

ele que cuide de seus problemas

que eu cuido dos meus”

                             Paulo Leminski in Distrídos Venceremos

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