Discurso do prof. Marco Antônio, paraninfo da Turma de Medicina 121 – Cícero Ferreira – UFMG 2006

Sempre que vou a uma colação de grau fico nostálgico e o momento mais marcante da minha foi o discurso do querido Marco Antônio. Achei o arquivo na minha caixa de entrada de emails e fiquei feliz por poder me deleitar da mensagem que ele nos escreveu naquela ocasião sem precisar ver o DVD que é enorme e eu sempre durmo no início.

Meus queridos afilhados e afilhadas,

 

Não poderia começar de outra forma, senão dizendo da satisfação em ser seu paraninfo, o paraninfo da Turma Cícero Ferreira – a 121a. Turma de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Ter sido eleito seu paraninfo entre tantos colegas competentes e ilustres, confesso me deixou constrangido, porém me deixou ainda mais honrado. Vocês não podem imaginar a alegria que encheu meu coração e que transborda nesse momento em que tenho o privilégio de falar a vocês, valendo-me de poucas e simples palavras, para transmitir tanta emoção e tanto bem-querer.

Quando há seis anos vocês, em meio a festas e sonhos, entraram em nossa Faculdade traziam consigo um olhar terno, doce. Sonhavam com o momento em que tornando-se médicos e médicas estivessem preparados para exercer uma das mais antigas profissões, de um grau de beleza que é culturalmente compreendida como uma arte: a arte de curar, de cuidar e de consolar. Se ontem era o sonho, hoje é muito mais do que a realização desse sonho. É a prova da tenacidade e da persistência. É o prêmio a quem confiou em sua capacidade e aos que continuam acreditando que melhores dias virão.

Certamente vencida essa etapa, vocês estão mais fortes, mais maduros, mais capazes. Mas como herança desses anos, muitos também estão mais descrentes, mais frios, mais competitivos. Infelizmente, as Escolas de Medicina têm valorizado muito pouco qualidades como a percepção, a sensibilidade e a solicitude, em favor de uma postura mais racional e agressiva.

Precisamos, pois resgatar o melhor de ser humano, o dom da ternura que a modernidade insiste em esconder, para que a cada dia possamos ser mais educados, carinhosos, acolhedores e tolerantes para com quem busca conosco atenção à sua saúde. Na profissão médica ser prestativo e cultivar a amizade e o respeito dos colegas de profissão e de todas as pessoas que conosco trabalham cotidianamente, é uma norma de bem viver que não podemos esquecer jamais.

Quando soube que havia sido escolhido seu paraninfo, fui até alguns de vocês para tentar entender as razões que os levaram a essa insólita escolha. Foi então que ouvi repetidas vezes: «foi por sua dedicação, professor!» Pois quero que saibam, minhas afilhadas e meus afilhados, que essa dedicação é fruto do amor que nutro pela docência e pela paixão que tenho pela Medicina. Mas é também conseqüência da enorme honra de poder estar ali, no meu dia-a-dia, dando a minha pequena parcela de contribuição em sua formação, na formação de novos médicos e médicas.

Para mim tem sido motivo de grande orgulho: trabalhar por uma Universidade voltada à promoção do ser humano e comprometida com a justiça e com a liberdade; lutar por uma Universidade que incentive a criatividade e valorize o pensamento crítico e a postura ética; e sonhar com uma Universidade que possa usufruir a autonomia que se faz imprescindível, mas que redefina suas atividades prioritárias em função das necessidades da nossa comunidade.

E as necessidades do nosso povo são muitas! Por isso, nós os concitamos a pensar no nosso País: sendo profissionais capazes, técnica, ética e socialmente; buscando soluções criativas que possam amenizar os problemas de saúde de nossa gente e melhorar sua qualidade de vida. E lembrem-se : “Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer”. (Molière)

Minhas queridas, meus queridos, lidar com a saúde, os meandros da vida e da morte, é uma verdadeira missão, pois exige dedicação e renúncia. Sim, a Medicina tem também muito de sacerdócio. Por esta razão é preciso ter nascido para isto. É preciso ter vocação. Ensina-nos Gandhi : “Felicidade não vem das coisas, mas do trabalho e do orgulho com que o fazemos”. Não abandonem seus grandes sonhos de conhecer, fazer e conquistar, mas não se esqueçam do trabalho pequeno de cada dia. Quando trabalhamos realizamos parte do sonho mais longínquo da Terra, desempenhando assim missão que nos foi designada quando esse sonho começou. Trabalhem confiantes e não desanimem ante a aparência de caos e desordem. Lembrem-se: nada é mais parecido a um edifício em ruínas do que um edifício em construção.

Estamos em contínuo processo de evolução, coletivo e individual. Para melhor entendermos o nosso papel no mundo, torna-se necessário conhecermos e valorizarmos o pensamento e as edificações daqueles que nos antecederam. Mas para provarmos da verdadeira felicidade não é necessário que construamos complicadas teorias acerca da vida, basta que a vivamos em sua plenitude, com simplicidade e sintonizados com o Bem. Todos nós trazemos conosco a energia celestial. Saibamos utilizá-la. Afinal, “se dermos as costas à luz, nada mais veremos do que a nossa própria sombra”. (Zalkind Piatigoisky).

Com justificado orgulho, vocês estão colhendo agora o fruto do esforço e da dedicação despendidos durante esses anos. Ao mesmo tempo em que se encerra, neste momento, importante etapa de sua formação, abrem-se outras, repletas de possibilidades. Saibam aproveitá-las da melhor forma possível, em favor de sua evolução intelectual, moral e espiritual, e em prol da conquista de melhores condições de vida para vocês e para os seus.

Trabalhem e estudem muito. Todavia, lembrem-se: a Medicina não lhes oferecerá tudo. Evitem a obsessão pelo acúmulo de bens e riquezas materiais. “A melhor maneira de melhorar o padrão de vida está em melhorar o padrão do pensamento” (US Andersen). Não se rendam à mercantilização da Medicina e saibam desprezar com altivez as condenáveis disputas que ela freqüentemente estimula. Controlem sua ambição, sua vaidade, seu narcisismo e digam um não rotundo a toda forma de exploração, de racismo, de homofobia, de machismo, e a todos os demais tipos de preconceito e discriminação. Se o conhecimento gera poder, e inegavelmente gera, todavia gera também responsabilidade. Jamais usem o conhecimento e as habilidades adquiridos nessa Escola para manipular quem não teve o mesmo privilégio. Jamais façam mau-uso deles para conseguir seja o que for; esse fruto poderia até ser doce, mas aos poucos corroeria suas entranhas.

Seus pais e avós, de sangue ou de criação, com palavras e exemplos, ofereceram a vocês a base – os princípios de dignidade e responsabilidade. Apoiados por eles, vocês aprenderam a refletir, discernir e enfrentar os obstácu-los. E, neste momento, se é grande a nossa emoção, a deles é plena e justa – a emoção da missão cumprida. Aqui estão eles, os verdadeiros protagonistas desta conquista, os verdadeiros donos desta festa, todos presentes. Mesmo aquele que já se foi, hoje mais do que nunca sua presença carinhosa se faz sentir.

Saibam valorizar suas verdadeiras conquistas. Os amigos, esses com certeza são as nossas mais importantes conquistas. Não percam seus colegas de vista. As pessoas entram em nossas vidas por acaso; mas não é por acaso que elas ali permanecem. Segundo um antigo provérbio africano, “a amizade é um caminho que desaparece na areia, se não se pisa constantemente nele”.

E nunca se esqueçam: cuidem muito bem de sua saúde. A longa jornada de trabalho, a grande responsabilidade profissional, o contato freqüente com a dor e o sofrimento, o medo do erro médico, as más condições de trabalho, a falta de tempo para o lazer, a família e os amigos são alguns dos inimigos terríveis à sua saúde. Meus afilhados e minhas afilhadas, procurem consumir alimentos saudáveis e fujam dos excessos. Evitem o sedentarismo. Cuidem do seu descanso e do seu sono. Meditem, orem. Tirem férias, viajem. Cultivem atitudes positivas. Amem, muito! Permitam-se o prazer. Tenho aprendido que o mais importante não é ter saúde para ser feliz, mas ser feliz para ter saúde. Sejam pois tão felizes o quanto possam!

 

Minhas amadas, meus amados,

Confio plenamente em vocês, e em sua capacidade de construírem locais e momentos mais justos e alegres e de materializarem seus sonhos.

Preservem a espontaneidade e procurem expargir ao seu redor o amor e a boa energia daqueles que têm prazer em viver.

Vai então e «deixa algum sinal de alegria por onde passares.» (Chico Xavier)

E não se esqueçam : «fé na vida, fé no homem, fé no que virá, nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será».

Muito obrigado!!

 

Marco Antônio Gonçalves Rodrigues

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