Flores em minh’alma

Belo Horizonte, 06 de março de 2012

Tenho várias pessoas próximas, amigos, conhecidos e conhecidos de conhecidos, que viveram relacionamentos que duraram por anos e anos e de repente, após um término súbito, ou não, conheceram outra pessoa, se apaixonaram e em meses se casaram. Síndrome do Recém Separado que Nunca se Casou, ou SIRESENCA é como eu chamo essa situação quase clínica, patológica aos olhos de um leigo, mas extremamente confortável e embasada em mecanismo freudianos ainda não muito bem estudados que podem levar o indivíduo a um estado de felicidade mais plena e a verdadeira euforia.

Não sei ainda como se inicia a SIRESENCA, acho que ela nasce de um relacionamento onde o diálogo é fraco, falho ou mesmo inexistente. Por anos os indivíduos acham que se comunicam, às vezes até tentam, ou não, mas no final tudo se estrumbica porque o que precisava ser dito, ouvido, discutido, simplesmente não foi. Além do diálogo outro grande fator de risco para o surgimento dessa síndrome é o egoísmo. Se um dos envolvidos não estiver disposto a compartilhar, a ceder, a conviver… O prognóstico é ruim, como pode ser observado em um estudo duplo-cego realizado por uma universidade na Carolina do Norte, ou em Massachussetts, não sei direito onde, mas foi feito. E se esse estudo não foi feito nem precisa, pois minha avó já me dizia que quem não fala o que sente fica doente”.  Doente com SIRESENCA.

Eu estou sofrendo de SIRESENCA e espero que em meu caso a síndrome evolua para sua forma mais grave, que em breve eu esteja casado com a casa cheia de filhos e meus cachorros no quintal. Ok, dispenso os filhos por hora, mas casa com marido e meus cachorros… Hummm… Eu gosto. Se eu estiver mesmo com a forma clássica da síndrome sei que vou evoluir para isso. E como o tempo médio entre o início da síndrome e o casamento costuma variar entre 6 e 18 meses, prevejo meu casamento para maio de 2013 e todos já estão convidados.

Brincadeiras a parte, estou vivendo uma semana de cortes. Hoje ainda é terça feira e já ouvi sermão de chefe, mãe, ex-namorado e amigos. Não que eu não merecesse os sermões, pelo contrário, acho que só coincidiu de acontecer tudo de uma vez. Sou muito fechado a maior parte do tempo e não é sempre que opiniões de outros me fazem refletir tanto. Porque de cortes? Porque depois de muito ouvir falarem sobre mim e meu comportamento notei que estou vivendo uma situação ímpar na minha vida: estou livre e dono de minhas decisões, tenho todo um universo de possibilidades e a grande maioria delas é muito promissora.  O que me prende na minha situação de tristeza e desolação sou apenas eu, o que mantem o que me faz sofrer perto de mim sou eu. Cortar. Esse é o verbo da semana. Cortar o que não me faz bem, o que já não me pertence mais, os planos que não deram certo, os investimentos que ruíram. A começar pelo trabalho.

Não, não vou me demitir e ficar o dia inteiro dentro de casa curtindo ócio. Nem quero isso, ócio demais me faz mal, me deixa mais lerdo. Mas posso escolher não sofrer no trabalho, mudar de emprego, rever minha rotina, repensar minhas prioridades. Não preciso sofrer com algo que na verdade é só um meio para mim. O que mais dificulta minha saída do meu atual local de trabalho são os vínculos que criei, tenho ali pessoas que amo como se fossem da família e me prendo ao pensamento de que as estaria abandonando. Acho que posso é leva-las comigo para onde eu for e incluí-las, ou mantê-las, na minha vida “apenas” como amigos e não mais como colegas de trabalho.

Como eu já escrevi milhões de vezes eu tenho muita dificuldade com esses processos de mudança, sofro, fico perdido, crises de ansiedade, tristeza. Sempre fui assim. Não acho que muita coisa muda nesse sentido ao longo do tempo, o que estou aprendendo é lidar com a ansiedade e não deixa-la virar sofrimento. Mudar costuma se tão bom, mas tenho um medo que só vendo.

Outras coisas me incomodam além do trabalho, e sempre haverá algo que acho que está fora do lugar. Mas meu projeto para 2012 é o trabalho, estou estudando para fazer residência, pretendo me dedicar bastante a projetos dentro do PSF, estou com pedido de transferência de centro de saúde preenchido. Removendo um pouco da angústia do trabalho me restará mais energia para investir em outros campos da minha vida.

2012 é um ano de corte e costura. E estou preparando minha linha, porque a tesoura já veio e decepou o que precisava. Terminou-se um namoro de quase oito anos, diga-se de passagem amanhã seria meu aniversário de 8 anos, e de repente surgiram perspectivas tão boas que eu me recusei a acreditar num primeiro momento, recusei-me a entrar em SIRESENCA, mas acho que a síndrome é mais forte do que eu. Depois de anos num vai e vem infindável acredito que as duas partes concordaram que era melhor seguir caminhos distintos e parece que está sendo bom para todos, dessa vez acredito que ninguém sofreu e não ficaram mágoas.

Quando se acaba um relacionamento antigo assim, num primeiro momento o indivíduo fica meio sem referencia, fico sem saber o que era coisa do casal e o que é meu. Muitas vezes me pego num processo de avaliação do que me pertence e o que apenas agreguei ao meu cotidiano, com música e televisão/cinema isso é mais nítido. Estranha a sensação, mas ao mesmo tempo libertadora. Não que eu tenha criado hábitos ou rotinas ruins, mas parece que com o fim da relação deixei de ter que cumprir com alguns rituais que me despendiam muita energia e pude desviar minha atenção para processos meus, que estavam parados devido a inércia em que se pode entrar quando se namora.

Estou terminando um longo dia de trabalho, contando os segundos para ir para minha aula de pilates e relaxar um pouco enquanto me estico, tremo de dor e suo como uma chaleira. Levei uma bronca tão devastadora de minha gerente, crítica bem dura e negativa, acho que não merecia tanto, isso me deixou bem desmotivado. O que me alenta é que serei consolado daqui a pouco, me ofereceram um ombro amigo e não estou em condições de negar.

Era isso.

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