Até logo e obrigado pelos biscoitos

Há 9 dias perdi um grande amigo, Apolo, um Golden retriever de dois anos e meio, 35kg, mais fofo do que se pode imaginar. Apesar de ter sido vacinado, ele acabou pegando cinomose, doença que acomete o sistema nervoso central, de evolução rápida para tetraplegia nos casos mais agressivos. Quando notei que meu companheiro estava mancando fique muito preocupado. Ele já estava em tratamento de uma otite, com antibiótico tópico e oral, e não seria de se esperar que ele começasse a claudicar. Fiquei tenso desde então. Foi colhida amostra de sangue para sorologias, eu torci tanto para que fosse leishmaniose, por pior que seja essa doença, ela tem tratamento e a qualidade de vida do paciente pode ser preservada.

Quando saiu o resultado do exame, quatro dias depois, Apolo já não andava. Estava usando seis tipos de medicamento, não se levantava nem para fazer as necessidades fisiológicas. Era cinomose, e a veterinária resolveu esperar mais alguns dias para ver como ele reagiria, pois a doença é muito paciente dependente, por isso o prognóstico, apesar de obscuro, poderia nos surpreender para o bem.

Não foi o que aconteceu. Consegui passar a maioria dos dias em que ele esteve doente ao seu lado, aconteceram paralisações no meu trabalho, um feriado, o que foi muito bom mas ao mesmo tempo muito angustiante. Eu esperava sempre por um sinal de melhora, que nunca veio, e eu sabia que o quadro neurológico dele pouco melhoraria caso a doença parasse de progredir. Sabia que ele nunca mais seria o Apolo travesso, que comia os bolos da minha mãe, fazia xixi no edredom da minha prima, mordia minha bunda quando eu chegava do trabalho. Sentia que eu estava o perdendo e não podia fazer nada. Dois dias antes da sua morte ele parou de abanar o rabo quando eu chamava pelo seu nome.

No dia 20 de agosto de 2011 ele não quis mais comer, nem mesmo os biscoitos Scooby que ele tanto amava. Até o dia anterior ele comia com dificuldade, eu tinha de ajuda-lo, colocar na boca. A mesma coisa com líquidos. Quando ele rejeitou comida eu entrei em pânico. Ele estava muito desidratado e eu não conseguia fazê-lo beber água, nem com a seringa. Nesse momento eu perdi minhas forças. Eu sabia que se o levasse ao veterinário eles sugeririam a eutanásia, mas como eu poderia permitir algo assim, era o Apolo, não meu cachorro, mas meu amigo, meu irmãozinho, meu filhinho. Eu nunca tinha perdido o controle como aconteceu naquela noite.

Fui com ele ao médico, uma aluna de medicina veterinária acompanhou o profissional na consulta e o veredicto não foi diferente do que eu esperava. Ele sugeriu a eutanásia, pois a qualidade de vida dele seria péssima e naquele estágio da doença ele começaria a ter crises de mioclonia por todo corpo. Eu chorei na frente deles, abracei Apolo que estava inerte na mesa, esperando pela minha decisão. Eles saíram da sala e me deixaram pensar. Apolo ele estava emagrecido, mas ainda assim um grande cão, imponente, o pelo macio, dourado. Senti seu coração batendo acelerado, sua respiração fraca. Fiquei ali debruçado sobre ele por alguns minutos, quando resolvi que não tinha mais o que ser feito, que ele estava sofrendo muito e que eu deveria deixa-lo ir. O veterinário voltou, eu o comuniquei sobre minha decisão e ele começou o procedimento. Fiquei ali segurando a patinha do Apolo, senti seu coraçãozinho parar de bater e seu sofrimento acabar.

Saí da clínica desolado. Não conseguia acreditar no que tinha acontecido, nem que eu tinha que tomar aquela decisão. Há dez dias ele estava bem, normal, correndo para baixo e para cima, brincando, destruindo as coisas. Agora estava deitado sem vida, olhos fixos no horizonte. Foi o pior momento da minha vida, e eu estava sozinho.

Ainda não me recuperei, sinto falta dele o tempo todo, ele estava sempre atrás de mim, fazendo companhia, querendo brincar. Agora sou eu e a Vida, a casa está vazia, Vida fica procurando por ele. Não acredito que me recuperarei tão cedo, foi tudo muito rápido, muito cruel com meu amigo. O veterinário disse que é raro isso acontecer, que a vacina contra a doença costuma ser eficiente. Não tivemos sorte. Espero que essa culpa que me esmaga passe logo, estou vítima do “e se”, mesmo sabendo que fiz tudo que podia, que estive ao seu lado nos melhores e nos piores momentos e que nunca desisti dele, apesar de no momento final eu tê-lo deixado partir.

Apolo, eu te amo, onde quer que você esteja. Você foi o cãozinho mais fofo que eu já conheci, o mais companheiro, o mais fiel. 

 

Anúncios

3 comentários sobre “Até logo e obrigado pelos biscoitos

  1. Anônimo disse:

    Para mim é extremamente difícil falar sobre o Apolo. Como você disse ele foi o cachorro mais feliz,fiel,companheiro e puro com quem eu tive a graça de conviver. Ele nao viveu por muitos anos,mas viveu tempo suficiente para tornar a vida de quem conviveu com ele muito mais feliz. Apolo foi um animalzinho imponente e frágil, enorme e tão dócil e mal se podiam ver suas presas enormes,pois ele sorria o tempo todo. Apolo, o cachorro, foi humano em seu sentido essencial, foi solidário,leal,sensível e amoroso. Apolo, o cachorro, se foi deixando um vazio muito maior do que seu tamanho colossal e o Apolo, amigo,companheiro,filho,irmao, será sempre lembrado por ter sido quem foi, uma das criaturas mais doces,felizes e amaveis que Deus já criou. E o Apolo, o Sol de tantos dias de quem com ele conviveu foi muito,muito,muito amado e tinha a certeza absoluta de que vc fez absolutamente tudo por ele.

  2. Fénelon disse:

    Para mim é extremamente difícil falar sobre o Apolo. Como você disse ele foi o cachorro mais feliz,fiel,companheiro e puro com quem eu tive a graça de conviver. Ele nao viveu por muitos anos,mas viveu tempo suficiente para tornar a vida de quem conviveu com ele muito mais feliz. Apolo foi um animalzinho imponente e frágil, enorme e tão dócil e mal se podiam ver suas presas enormes,pois ele sorria o tempo todo. Apolo, o cachorro, foi humano em seu sentido essencial, foi solidário,leal,sensível e amoroso. Apolo, o cachorro, se foi deixando um vazio muito maior do que seu tamanho colossal e o Apolo, amigo,companheiro,filho,irmao, será sempre lembrado por ter sido quem foi, uma das criaturas mais doces,felizes e amaveis que Deus já criou. E o Apolo, o Sol de tantos dias de quem com ele conviveu foi muito,muito,muito amado e tinha a certeza absoluta de que vc fez absolutamente tudo por ele.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s