Memórias

Minha memória mais remota diz respeito a Páscoa. Eu tinha cinco anos, estava voltando para casa da pré-escola com minha prima Beatris, andávamos sob um sol escaldante, o asfalto emanando um calor descomunal, e eu implorava para que ela guardasse para mim os presentes que a professora entregaria aos alunos na semana de Páscoa, pois eu estaria fora da cidade. Eu não acreditava que ela pudesse guardar minhas guloseimas, ela e suas irmãs eram sabidamente devoradoras de quitutes, verdadeiras fominhas. Mas ela era minha única esperança, a professora já tinha dito que quem faltasse não ganharia presentes. Estava arrasado, adorava ganhar as bobeirinhas que eram distribuidas na escola. Fui com minha família passar a Semana Santa no Rio de Janeiro, Copacabana, onde moraríamos alguns anos mais tarde.

Meus pais esconderam ovos pelo apartamento onde nos hospedamos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Foi tudo muito divertido, lembro que encontrei dois dos ovos, eu ria de canto a canto, mas minha mãe só me permitiu ficar com um, o outro era do meu irmão menor e mais lerdo. Naquela manhã fomos a missa, nunca entendia nada do que o padre falava, mas naquele dia foi pior, mais tarde descobri que ele estava rezando em outra língua, o Latim. Da igreja sei que fomos passear de ônibus, não sei para onde, mas me recordo que meu pai teve sua carteira roubada dentro do coletivo. Fomos a praia no final do dia, contra minha vontade e a de meus irmãos, queríamos ir para o apartamento comer chocolate, me lembro que choramos até, mas minha mãe não arredou o pé da areia.

Antes disso, o nada. Recordo-me de alguns evento isolados, como por exemplo quando eu tinha quatro anos, estava no jardim de infância e me lembro de ter quebrado uma telha na cabeça do meu irmão, na época com dois aninhos. Não sei porque fiz aquilo nem o que aconteceu depois. Se bem que me lembro do sangue. Sei que repeti o feito, no total eu quebrei três telhas na cabeça do Joãozinho antes que ele completasse sete anos, e dei cerca de cinco pimentas para ele comer dizendo que eram frutinhas silvestres dulcíssimas. Bem, eu não era um anjo. Coitado do Joãozinho.

Vi ou ouvi em algum lugar que é importante perdermos algumas memórias, principalmente algumas de nossos primeiro anos de vida. Não me lembro a fonte dessa informação e não sei dizer sobre sua seriedade, credibilidade. Mas concordo. Tem coisas que temos de esquecer, existem momentos que devem ficar para trás, de repente na memória dos outros, registradas por fotos, mas em nossa mente se apagar. Imagina que terror a criança se recordar de seu próprio parto, a dor, o frio ao deixar o corpo da mãe, a “expremessão” para finalmente vir ao mundo, o pediatra enfiando aquelas coisas em seus orifícios, a dor dos pulmões se expandindo pela primeira vez. Momento tenso. O recém-nascido teria medo do ser humano. Ao longo da vida o mesmo vai se repetindo, eventos que julgávamos essências na época do acontecimento muitas vezes se apagam sem que tomemos nota. Mas porque isso acontece? Não alimentamos algumas memórias e elas morrem? Elas são seletivamente apagadas para “liberar” espaço? Eu acho engraçado porque eu me lembro de repente de coisas que não me recordava há décadas, uma memória que não alimentei, e por vezes me esqueço de algo em que gastei muito tempo tentando fixar em minha cuca. Me deu uma vontade de estudar neurofisiologia. Cadê meu Guyton?

Por falar em memória, hoje eu estava organizando meu quarto antes de ir pro trabalho e encontrei numa caixa uma fita cassete com canções polonesas de Natal que ganhei de uma penpal, Gosia, quando eu tinha 13 anos. Adorava a época em que eu tinha amigos com quem eu me correspondia apenas por cartas. Eu ficava doido para o dia acabar para chegar em casa e checar a caixa de correios, eu recebia cartas todas as semanas, ganhei e distribuí presentes de/para pessoas na Tailândia, Guatemala, Dinamarca, Polônia, Finlândia, Estados Unidos e Inglaterra. Minhas maiores amigas foram mesmo a Gosia, polonesa, e a Satu, Finlandesa. Saudades delas, sei que se mudaram, perdi o contato com elas há alguns anos, nem mesmo por e-mail não nos falamos mais. Uma pena, mas acho que penpals são para isso.

Vim em casa almoçar, minha mãe está fazendo mamografia, tive que me virar aqui com um miojão, foi bom que deu tempo de escrever um pouco e dar um cochilo. Hora de voltar pra senzala, o posto de saúde estava cheio hoje pela manhã, Lizaura saiu de férias, tinha me esquecido desse detalhe, fiquei sozinho por conta daquela fila descomunal, Vanilde fez birra e nem quis me ajudar. Vontade de fugir do trabalho e ir passear com Vida e Apolo na lagoa…

Ouvi hoje uma musica do Pato Fu, baseada num maravilhoso livro da Clarisse Lispector, e quero compartilhar. Segue a música e sua letra:

A hora da estrela

Ela esta pronta
Pra mudar a sua vida pra sempre
Já imagina
Como tudo vai ser tão diferente
E aquele lugar lá na frente
Vai ser seu

Mais um minuto
E tudo o que sonhou vai ser verdade
Não há no mundo
Quem não entenda a sua felicidade
Que possa dizer com certeza
Que o lugar é seu
Que é de quem nasceu pra brilhar

Uh, a hora da estrela vai chegar
Uh, agora ninguém vai duvidar
Não hoje, não mais
Nem nunca, jamais

Ela esta pronta
Pra mudar a sua vida pra sempre

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