Pequeno milagre

Tendo a não crer em deus, mas hoje tive uma recaída logo ao sair do trabalho e por alguns segundos acreditei que um ser superior havia atendido a um pedido meu. Saí do Centro de Saúde com as mão abarrotadas de livros, meu iPad e minha pasta de médico, quase derrubei tudo no chão no percurso até o carro depois de correr para não ser atropelado por um ônibus. Mas não foi aí que meu deus teísta agiu. Ao avistar meu carro um frio enorme na barriga e um sorriso largo me veio a face: um lindo cachorrinho preto saiu de trás de uma das rodas, abanando o rabinho, minúsculo, filhote. Ao mesmo tempo que sorri fiquei em pânico, há menos de um mês resgatei um filhote nas mesmas condições a acabei o perdendo. O cachorrinho abanou o rabo, andou em círculos a minha volta, mas, enquanto eu guardava e organizava meus livros no banco do carro, ele desapareceu. Não sei explicar o que senti, não foi um alívio porque eu sabia que ele não tinha sumido dali e aparatado num novo lar. Mas foi como se ele tivesse deixado de ser minha responsabilidade. Entrei no carro e não consegui dar partida. Fiquei pensando em descer e procurar pelo filhote, fiquei com medo dele estar debaixo do carro e eu mata-lo ao sair dali. Foi quando eu olhei para trás e vi uma adolescente brincando com o cãozinho. Nossa, senti algo muito bom, pelo jeito que ela estava o acariciando ou era a dona ou estava disposta a adotá-lo. Quem me conhece bem sabe o quanto eu gosto de animais e que uma das coisas que me desmonta, me deixa sem chão é ver filhote abandonado. Agradeci ao meu deus e segui duvidando de sua existência. Espero muito que aquela garota esteja cuidando do meu amiguinho.

Agora a noite me peguei chorando pela morte do José Alencar, nosso ex-vice-presidente. Eu nem gostava dele, acho que foi um bom político tendo como parâmetro de comparação a corja da qual dispomos hoje em dia no Senado, Congresso, Assembléias legislativas e afins. Acho que chorei pelo mundo, o meu e o dos outros. Para uma grande parcela da população brasileira ele era um exemplo de retitude e sua recente luta contra o câncer comoveu o país, a forma que ele lidou com a doença, que o levou diversas vezes a mesa cirúrgica e CTI me deixou surpreso, ele sempre tinha alta do hospital com um prognóstico ruim mas com sorriso no rosto e direto de volta ao trabalho. Sinto que o mundo de muita gente ruiu um pouco com essa perda.

Minha quinta-feira passou tão devagar, a manhã se arrastou, pacientes fazendo barraco no centro de saúde, o que não me comove, meus alunos tendo crise de riso comigo durante um atendimento, eu tendo lapsos de memória ao conversar com minha gerente. Foi um dia estranho, como se os polos do planeta estivessem mesmo se invertendo. Por tocar no assunto, li hoje que as previsões cataclísmicas para 2012 não passam de interpretações errôneas de inscrições maia. O que eles preveem não é o apocalipse, mas uma mudança brusca que deve inclusive ser celebrada, e não temida. Não acredito que nem uma coisa nem outra venha a ocorrer, mas conheço muita gente que se abala com o assunto.

Essa semana utilizei meu iPad durante uma visita domiciliar para fazer correções na posologia de medicamentos, acessar bulas e conferir orientações alimentares para portadores de gota. Me senti o médico mais informatizado do planeta, quer dizer, do Brasil, pensando bem do distrito sanitário de Venda Nova. A paciente ficou abobada com o tablete, achou que a prefeitura que tinha me dado aquele livro de metal, como ela se referiu ao gadget. Quem me dera, o prefeito não me dá nem vale-refeição mais. Estou feliz com o iPad original, mas se ele tivesse uma câmera eu poderia criar prontuários virtuais dos pacientes com fotos das radiografias, laudos, receitas antigas com data, nome do médico que prescreveu e tudo mais de forma muito mais rápida. Já estou doido pra fazer um upgrade. No centro de saúde todos ficam loucos pelo iPad, todos querem tocar esse iPod de Itu, ver como as páginas deslizam na tela ao toque e jogar Angry Birds. Amo muito tudo isso.

Como eu havia proposto, as quintas-feiras serão dedicadas a publicação de poesias aqui no meu espacinho. Ontem postei uma de Drumond, hoje tinha outra dele em mente, mas decidi adiar um pouco a mesma e trazer sangue novo para o blog. Ficamos então com um soneto de Olavo Bilac, que conheci na versão cantada pelo grupo Kid Abelha. Penso que talvez o milagre que me ocorreu hoje com o cachorrinho tenha me sido concedido por um estrela cadente. Deus pode ter a forma que eu quiser.

Ouvir Estrelas – Olavo Bilac

XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto …

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 

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