Up the hill

Hoje recebi um telefonema que me acordou, literalmente. Cheguei da aula de Pilates, que está se tornando uma tortura cada vez maior com o passar das semanas e acabei adormecendo no sofá da sala assistindo novela. Não é só o salário que está curto, meus tendões parecem estar todos atrofiados, um inferno. Pois bem, minha mãe me acordou dizendo  que estava indo a igreja e me entregando o telefone, era uma amiga querendo falar comigo. Meu Deus, que saudades dela. Paula e eu nos conhecemos logo no primeiro período de faculdade, ela era da subturma C, eu da B, mas tínhamos aula de anatomia juntos.Eu, ela, Cristina, Flávia e Érica e alguns colegas desavisados costumávamos fugir dos cadáveres da sala principal e seu cheiro insuportável de formal e ler o livro texto de anatomia em conjunto nos corredores do Instituto de Ciências Biológicas. Inteligentíssima, sempre tirava notas boas mesmo na correria em que vivia, vendendo Natura, cuidando de seus filhos, cachorros, casa  e do casamento que na época já estava fadado ao término, que aconteceu anos mais tarde.

Como eu ela estava se dedicando, ou se suicidando profissionalmente, ao PSF até a bem pouco tempo, quando começou a fazer residência no Hospital das Clínicas. Hoje me ligou para contar as novidades e me deixou inquieto. Como qualquer ser humano que quer algo mais da vida eu vivo em crise, nos últimos meses mais intensamente, não só por conta dos dramas na vida afetiva pelos quais passei, mas também por conta de minha inércia profissional. Vivo me enganando, inventando desculpas para continuar trabalhando pro governo, mas cheguei num ponto onde não consigo mais me sabotar. Não me sinto realizado, estou num dead end job, todo dia, toda semana as mesmas coisinhas, previsível, greve e paralização todo ano para mendigar 2% de aumento do prefeito.

Não sou ambicioso, nunca o fui, mas gosto de desafios, gosto de sentir que estou caminhando para algum lugar, e atualmente, no meu emprego, sinto que estou estagnado. Recentemente fui selecionado para ser uma espécie de coordenador de grupo de estudos médicos no distrito sanitário onde trabalho e achei que isso era o máximo, mas não é, não preciso ser chefe da neurocirugia no Hospital Albert Einstein, mas quero mais do que participar de um grupo de estudos continuados num distrito na periferia da capital. Não estou desfazendo disso, é uma iniciativa importante, mas não me satisfaz, não me motiva a nada. Parece que subi a pior parte da montanha e parei no meio dela.

Sempre gostei muito de quatro áreas da medicina: cirurgia, psiquiatria e anestesiologia. Psiquiatria eu descartei, não quero trabalhar com as amarguras das pessoas, já me bastam as minhas. Me restou pensar em nocautear os pacientes ou abri-los após alguém tê-los nocauteado. Só tenho 30 anos, flor da idade, acho que ainda tenho o tempo do mundo para correr atrás disso. Quem sabe fazer até um estágio no exterior, nem que seja um trimestre como alguns amigos fizeram. Estou saindo de minha zona de conforto, aos poucos, e em tempo hábil para me preparar para as provas de residência no fim do ano. E, se der errado, sempre poderei voltar pro PSF.

Acho que fazer uma residência agora pode ser minha salvação, sempre estudei, desde os cinco anos de idade, e ficar longe dos livros está me deixando ocioso e lento. Acredito que tenho um novo projeto: estudar para provas de residência no final do ano! Acredito que eu consigo passar numa prova dessas. Posso até pensar em tentar prova em São Paulo ou outra grande capital.

Paula está bem, se preparando para ir ao show do U2 em São Paulo e toda contente com a residência, em Saúde da Família. Ela me acordou. Tava precisando de alguém para me abrir os olhos e dizer umas palavras de motivação.

Para o alto e avante!

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