Surprise, I’m living a life!

Eu tinha quase nove anos de idade, era dia do batizado do meu irmão André, de quem eu fui padrinho de consagração. A casa estava cheia, a cerveja acabou antes da hora e meu pai pediu para que eu fosse ao bar de um amigo dele comprar mais bebida. Saí de casa com uma sacola enorme cheia de cascos vazios, de 600mL, para comprar refrigerantes e cervejas. Fiquei imaginando como aquilo ficaria pesado com as garrafas cheias, mas fui cantarolando descendo a minha rua. O moço do bar olhou pra mim e não achou que eu daria conta de levar a sacola de volta, se ofereceu para me ajudar, eu dispensei a ajuda, meu pai me mataria se eu chegasse em casa escoltado pelo dono do bar, afinal eu já tinha quase nove anos e devia dar conta pelo menos de comprar umas cervejas. A sacola era dessas de feira, com duas alças reforçadas, feita de um entrelaçado de fios de plástico bem resistente. Tive de carrega-la como se fosse uma criança de colo, abraçando.

Como eram muitas garras, eu não conseguia ver direito para onde eu estava indo, quando de repente senti o chão sumindo debaixo de mim. Caí encima da sacola e das garrafas, um barulho enorme, estrondoso. Várias pessoas vieram me ajudar, preocupadas, eu tinha caído num desnível, ainda muito comum, entre as calçadas de uma casa e outra. Não tive nem um arranhão, mas fiquei ensopado de cerveja e guaraná. Levantei meio sem graça, lembro que um homem bem gordo me deu a mão. Fiquei sem saber o que fazer, só peguei a sacola, com os restos de caco de vidro dentro e saí andando sem olhar pra trás.

Cheguei em casa e meu pai me olhou com um olhar fuzilante, mas por sorte os convidados ficaram comovidos com o que tinha me acontecido e se ofereceram para comprar novas garrafas e bebidas. Passei o resto do dia tenso dentro do meu quarto, eu tinha medo de que algum pedaço de vidro tivesse entrado no meu corpo sem eu saber, nem fiquei com medo do meu pai, afinal ele brigava comigo por causa de tudo naquela época.

Muito tempo depois eu ainda ficava lembrando da sensação de despencar , quase um voo, aquele barulho enorme e ser amortecido por cervejas e refrigerantes. Eu tinha a sensação perfeita, como se eu me visse em câmera lenta, caindo e quebrando todas aquelas garrafas com meu peso. Dei muita sorte, o material da sacola era muito forte, eu poderia ter me machucado seriamente. Meu pai falou desse incidente por semanas, por minha sorte ele nunca mais me pediu para comprar bebidas, não queria correr o risco de me deixar mais de seus cascos.

Quando eu era criança meus pais não acreditavam muito no meu potencial, me viam como um caso perdido, uma criança muito diferente das outras, que gostava mais de escola do que de rua. Minhas tias, tios, avós não se incomodavam comigo, me achavam uma criança especial, cheia de vida e sonhadora. Eu sofri com a postura de meus pais, claro, e ainda carrego em mim cicatrizes dessa época, mas por algum motivo, apesar dos meus pais, eu consegui trilhar um caminho muito bom, sempre a parte do resto da família sempre um estranho no ninho, e depois de muitos anos eles aprenderam a conviver com minhas particularidades.

Vim de uma família onde acreditavam que o simples fato de passar no vestibular te tornava médico, que não achavam que estudar era algo importante, pois todos na família até então haviam vencido na vida apenas com a força dos braços e suor no corpo. Hoje em dia isso mudou drasticamente e meus primos que não estudam são tachados de fracassados, sem futuro. Fui pioneiro, não me acho mártir, porque tudo aconteceu muito naturalmente para mim, da forma que eu planejei ou da forma que eu desplanejei no meio do caminho. Sou uma pessoa de sorte, nasci com a bunda virada para a lua.

Estou radiante de alegria hoje, minha vontade é de correr nu na rua cantando Firework, com o Apolo e Vida fazendo backing vocal. Mas eles são desafinados, melhor não fazer isso. Tive um domingo pacato, mas tão gostoso, tão como deve ser, um dia de descanso, sem sofrimento, sem desespero, sem medo. Quis muito que o domingo passasse logo mas para chegar a segunda-feira, para eu poder continuar a ser feliz.  Um pouquinho de cada vez.

 

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