Any given Tuesday

Ilha dos amores, Pampulha. Pôr do sol enquanto eu caminhava ontem com Lili.

Tive até agora um dia cheio de emoções, boas e ruins, claro. Logo pela manhã recebi uma paciente cujo pré-natal eu acompanhei, uma gracinha, seguia as orientações, se cuidava, usou o sulfato ferroso, participou do grupo de gestantes e tudo. Chegou com seu bebê de quatro dias no colo. O bebê estava cansadinho, a mãe totalmente descabelada, literalmente, e desesperada. Estava temerosa pois o bebê não pegava o peito de jeito nenhum e ela não sabia mais o que fazer. É de conhecimento popular que eu e esses pequenos seres não combinamos nada, quase que eu me descabelei junto com a mãe e comecei a chorar. Por minha sorte minha terapeuta extra-oficial estava lá e me deu apoio. O bebê estava com hipoglicemia, fraquinho não conseguia nem mamar. Fizeram uma gambiarra com NAN e em poucos minutos o bebê estava mais animado e já pegava o peito da mãe. Foi lindo.

Ao longo da manhã quem apareceu para me visitar foi outra criança que eu acompanho desde que nasceu, há 2 anos, com síndrome de Down. Está ótimo, super bem cuidado e a mãe mais tranquila com a situação do filho e suas necessidades. No início foi tudo muito novo para ela, primeiro filho, sindrômico, vários especialista para consultar, cuidados mil. Fiquei satisfeito ao vê-los bem. Em seguida outra mãe com uma pacientezinha toda arrumada, de quando eu trabalhava em outro centro de saúde, me apareceu, muito satisfeita, a criança já está com quatro anos, toda esperta, era prematura e eu que cuidei dela quando recém-nascida. Me senti o máximo vendo aqueles meninos tão bem, melhorando, crescendo, meus menininhos todos ótimos e as mães me achando especial.

Se minha manhã foi dedicada aos pequenos e sentimentos bons, a tarde foi dedicada a terceira idade e sentimentos complexos. A morte e o envelhecimento foram os temas centrais de todas as consultas da tarde, todos os pacientes com mais de 75 anos, não sei se a enfermeira os marcou no mesmo dia de propósito. A primeira delas muito simpática, extremamente verborreica e a espera apenas da morte. Duas filhas a acompanhavam, muito bem humoradas, mas a paciente estava mesmo decidida que o que se tem a fazer por ela é esperar que ela morra. De tristeza. Sente um vazio enorme no peito e chora muito por ter perdido entes queridos na década de 80, ainda não superou e não vai superar, segundo ela. Não acredita em vida após a morte e por isso fica mais triste ainda. E eu lá tendo que responder as suas colocações e ao suplício das filhas que queriam que eu convencesse a mãe de que a vida ainda teria muito a oferecer a ela.  O mais interessante era a cara das filhas quando a paciente chorava ao falar do que a deixava triste, faziam biquinho e olhavam para o teto. As expectativas dos idosos se diferem da dos filhos. Claro que a paciente ainda tem muito o que viver, suas doenças nem são tão graves, mas as filhas querem que ela fique melhor e participe dos churrascos que promovem em suas casas nos finais de semana. Not gonna happen. A paciente quer descanso, cuidar de sua vida, de suas coisas.

Só sei que o último paciente, o mais idoso de todos, 88 anos, de RayBan, mais forte que meu pai que não tem sessenta, me deu um ultimo golpe. Me disse que eu sou muito jovem para entender do que ele estava falando, que eu tinha vida, e ele lembranças. Isso porque ele tinha me dito antes que nem pela morte ele esperava mais, está muito cansado, mas que anda o dia todo, todos os dias para que quando ela chegar ele esteja vendo o mundo e não trancado dentro de casa triste.

Eu sei lidar com esse tipo de paciente, idoso, doente crônico, terminal, no sentido de dar suporte, conforto. Eles lidam de suas maneiras com o envelhecimento, com a brevidade da vida, com a aproximação da morte. Alguns, como a maioria dos que eu atendi hoje, lidam muito bem com isso, mas a família não. Ficam querendo que os idosos interajam socialmente como quando tinham 15 anos, que seus intestinos funcionem como quando tinham sete, que suas peles sejam sedosas e brilhantes e que tenham sonhos como uma rapariga de 18. Os filhos sofrem e os netos também. O médico fica no meio do fogo cruzado, não só o médico, psicólogo, enfermeiro, assistente social, o padeiro.

Tudo isso num dia, dia que a prefeitura escolheu para instalar toldos no centro de saúde, um barulho infernal de furadeira e cheiro forte de cola de sapateiro. Por fim estava com os nervos a flor da pele, já estava indo embora, irritado, quando uma paciente se aproximou e me disse que eu estava muito bonito. Ah, eu me desmanchei, dei aquele sorriso maroto, devo ter ficado vermelho. Trabalhar em centro de saúde e se envolver com o trabalho é muito intenso. Eu convivo com os mesmos pacientes, suas famílias e seus vizinhos o tempo todo, sei de quase tudo que se passa na vida deles, os problemas de saúde, financeiros, amorosos. É difícil lidar com tanta informação e me manter neutro, imparcial, agindo apenas como um catalizador para as melhorias acontecerem. Os ciclos de vida deles passam por mim, é muito interessante fazer o pré-natal da mãe e acompanhar em seguida o crescimento do bebê, suas vacinas, sua alimentação, primeiros passos. E finalmente acompanhar o outro extremo, seus avós, bisavós, que estão em um momento diferente, de reflexão e aceitação. Eu gosto.

Fui convidado a me juntar a um grupo e ir aproveitar uma liquidação no shopping center. Grana-me eu não me tenho, nem gramour, mas me falta me o que fazer. Perdi uma da sminhas parceiras de corrida essa semana, ela estuda a noite e as férias acabaram. A minha outra parceira é super-enrolada! Terça à tarde/noite, deprimido dentro de casa sozinho ou bater perna no shopping? Vou bater perna.

Quem quiser se aprofundar mais no assunto morte/morrer, recomendo um livro fascinante que li no primeiro período da Faculdade de Medicina, Sobre a morte e o morrer, de Elizabeth Kübler-Ross.

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