O fim do mundo

Em As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada os jovens reis acreditam que o fim do mundo fica bem distante, ao leste, no país de Aslam. O filme é excelente, o melhor da série em minha opinião. Pois bem, dia desses escrevi aqui como eu e minha prima Beatris, com S mesmo, saíamos andando por uma estrada de terra perto da casa de nossa avó procurando pelo fim do mundo. Não sei se íamos para o leste, mas nunca achamos, já comentei isso também.

Minha tia Eliane me dizia quando eu era um pouco mais velho e já não procurava mais pelo fim do mundo que os cientistas estavam criando uma bomba super-poderosa para destruir a Terra, mas ela não sabia direito que dia seria a destruição, talvez no dia que eles terminassem de construir a tal bomba. Ela também mudava de assunto quando eu perguntava por que esses tais cientistas iriam destruir o mundo. Eu não entendia, sentia naquela época que o mundo era um pouco meu e ficava irritado com esses cientistas velhos querendo destruí-lo. A professora de ciências dela havia dito que já tinham sido usadas bombas parecidas com a que estava sendo construída para matar gente do mal, no caso agora sei que se tratava dos japoneses. Eu adorava ouvir essa história e pedia todo dia pra minha tia recontar. Minha mãe ouvia aquelas conversas e ficava irritada, pois era fato de que os cavaleiros do Armageddon eram os responsáveis pelo fim do mundo e não cientistas. Eu vivia um conflito nessa época, tinha acabado de desistir de procurar pelo fim do mundo físico, onde ele acabaria por ter de acabar, como tudo que existe, e agora tinha que lidar com o fim no sentido de extinção, destruição, sem volta.

Misturando o que eu sabia, as profecias da minha tia e a religião da minha mãe, eu imaginava que os cientistas eram os cavaleiros do Armageddon, os visualizava de jaleco branco e bigode grisalho montados em cavalos vermelhos jogando um bombão no mundo, e eu ficava em pânico. Perdi muitas noites de sono com medo de dormir e soltarem a tal bomba. Quando instalaram o primeiro telefone lá em casa meu coração disparava sempre que o aparelho tocava, minha tia tinha comentado que os cientistas avisariam por telefone quando a bomba seria solta, para que as pessoas se preparassem. Se preparassem pra que, eu perguntava. Ela dizia que não sabia.

Preferia continuar acreditando que os cientistas dariam cabo do nosso mundo, e não nós mesmos. Existe muita polêmica sobre o impacto que a atividade humana tem sobre o nosso planeta, mas é fato que tudo isso o que construímos, destruímos, desviamos, removemos, aplainamos não deve ser algo que o planeta aceita com muita naturalidade. O mundo sempre conviveu com catástrofes, meteoros, furacões, avalanches, tsunamis, tempestades. E sobreviveu, se modificando, o relevo sendo moldando, a vida no planeta se adaptando.  O problema com o ser humano é que ele se adapta de forma muito lenta e na maioria das vezes prefere fazer o ambiente se adaptar as suas necessidades, e as mudanças pelas quais o planeta passa, causadas ou não pelos homens, não vão aceitar esse tipo de comportamento por muito mais tempo.

Maior parte da população sofre ao ver as calotas polares diminuindo, ursos polares morrendo de fome, corais maravilhosos perdendo vida e sendo calcificados pelo aquecimento das águas e poluição. Isso nos diferencia dos outros seres vivos, nós sentimos, e teoricamente isso deveria nos fazer mudar, de maneira mais rápida e até menos instintiva. Mas não é o que acontece. Hoje tenho muito mais medo de achar ou me deparar com o fim do mundo do que tinha em minha infância.

Acho o conjunto de atividades humanas tão interessante e intrigante, não sou teísta, acho que nem deísta, e acredito que tudo que criamos é obra de nosso intelecto, da evolução da espécie e de sua incrível capacidade de modificar o ambiente ao seu redor. Sinto tanto por estarmos perdendo o controle das coisas, perdendo nossos parâmetros como seres que habitam um planeta que  tem muito a oferecer, no seu ritmo.

Triste isso. Vou mudar de assunto. Hoje é um grande dia para mim, dia de mudança. Não vou escrever sobre isso agora, não quero criar mais expectativas, vou deixar acontecer. Quero muito ser feliz, ontem em um treinamento em saúde pública oferecido pela prefeitura aconteceu uma dinâmica de grupo envolvendo um palhaço profissional, ao constatar que eu era o único médico na plateia ele chegou até mim, me olhou bem de perto, como um animal que tenta reconhecer um apresa e soltou: Você é feliz? Eu me detive em um sorriso, ele então retirou uns cartões de seu bolso e me entregou, dizendo que aquilo me faria feliz. Um dos cartões vinha com os dizeres: Não podemos voltar atrás e fazer um novo começo, mas podemos recomeçar e fazer um final surpreendente. Achei interessante e ao ler me lembrei de imediato de meu ex e da nossa atual situação. Até mandei a frase para ele, que não se manifestou. Mas em seguida pensei em mim, em meu recomeço, e isso foi bom. Bem, os outros cartões eram vale-desconto em motéis de BH. Pode? Nunca na história dessa pessoa eu ganhei desses cartões, especialmente quando eu estava namorando, e agora que estou avulso ganho uma pilha deles. Isn’t it ironic?

Enfim, meu mundo não acabou, e estou pensando em maneiras de evitar que o nosso mundo se acabe.

Bom final de semana.

 

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