Saudosismo. Não é bem isso. Mas eu tive uma infância muito boa e não quero me esquecer dela. Morava numa vizinhança bem pobre num município vizinho a Belo Horizonte, Bairro Esperança, em Ribeirão das Neves, e tive a sorte de ser de uma família grande e com boas condições financeiras na época. Tinha praticamente tudo o que eu queria, ou o que eu sabia que poderia querer numa época em que a TV não era tão importante e internet eu nem sei se existia. Brincava na rua quase todos os dias, tinha amigos que me compravam band-aid se eu caísse da bicicleta e ralasse meu joelho no muro do vizinho. Meus amigos eram como meus irmãos, existia uma cumplicidade entre nós, de uma ingenuidade e pureza ímpar. Mas já naquela época eu me sentia sozinho, mesmo sendo a criança mais popular da rua.

Na minha antiga rua, com nome de capital de país sul-americano, Montevideo, moravam quase todas as minhas tias e tios, primas e primos. Os meus amigos todos eram meus vizinhos, minha pré-escola era há umas seis casas ladeira abaixo e não havia asfalto. Meu mundo era ali. Quando chegou asfalto eu devia ter uns oito anos, foi uma festa enorme quando chegaram os caminhões com os materiais de construção. Parecia que o futuro tinha chegado.  Aqueles meios-fios ficaram espalhados pela rua por meses até a prefeitura mandar alguém para instalá-los e quando finalmente asfaltaram a rua eu já estava me mudando daquela vizinhança, mas isso fica para depois.

O lugar era muito simples, as calçadas não eram padronizadas, a maioria na verdade eram barrancos, com grama, flores e a maioria cheia de material de construção das casas dos vizinhos que pareciam estar sempre em reforma. Os postes eram de madeira, enormes troncos de árvore com luzes pálidas iluminavam as ruas para as nossas brincadeiras noturnas, geralmente envolvendo histórias de monstro e lanches que improvisávamos com o que dava pra roubar dos armários das nossas mães.  Não havia muros e a minha casa era uma das poucas que tinha grade. A maioria se protegia com cercas, como as que vemos em fazendas, com arame farpado e tudo. Eu não me sentia seguro nas casas de meus amigos que tinham apenas cercas, acho que pressentia a violência urbana desde então. O bairro naquela e época não devia ter mais que 10 ruas e nos arredores havia fazendas, clubes de campo e muitas plantações, a maioria de alface. Os outros bairros eu não frequentava muito e entre meus amigos havia a ideia de que as crianças dos outros bairros eram selvagens, então nos misturámos.

Eu nasci em Belo Horizonte, mas da maternidade fui direto para a casa onde vivi até os meus nove anos. Minha mãe engravidou do meu pai antes do casamento, seu primeiro namorado. Se casaram em julho e eu nasci em novembro do mesmo ano. Minha mãe é a segunda filha de onze filhos. Apenas dois homens, apenas a mais nova nasceu em Belo Horizonte, todos os outros em Santa Maria do Suaçuí, de onde meus avós maternos migraram devido à falta de recursos na região. Meu pai veio para Belo Horizonte sozinho, de Tabajara. Logo se estabeleceu em Ribeirão das Neves, comprou um lote e começou a construir uma casa simples. Conheceu minha mãe, que era quase sua vizinha de frente na época e se apaixonaram.

Claro que entre minhas primeiras memórias estão os meus pais. Meu pai para mim, quando criança, era uma pessoa extremamente distante e que servia para nos educar e impor limites. Minha mãe era a que cuidava de nós e da casa, e era também a boazinha, que nos deixava quebrar as regra vez ou outra.  Tenho três irmãos, todos mais novos que eu, diferença de dois, quatro e nove anos de idade. Crescemos quase juntos, personalidades desde muito novos muito diferentes. Eu era mais abusado, não tinha medo de nada, era amigo de todo mundo, não tinha papas na língua e sempre me metia nas piores confusões. João Paulo era mais quieto, mais educado, todo mundo o adorava, mas ele ficava na dele, mais tímido. Leonardo era o de gênio difícil, a maioria das outras crianças tinha medo dela. Já o André era o caçulinha e devido a diferença de idade era apenas o bebê da casa.

Meus pais nos tratavam de igual para igual até uma certa idade. Todos levavam chineladas, todos tinham de ajudar nos afazeres da casa, como odiávamos ter de arrumar a cozinha depois do almoço. Recordo-me que fingia estar dormindo para não ter que lavar nem guardar as vasilhas. Claro que não adiantava. Com o passar do tempo o tratamento foi sendo diferenciado, de acordo com o comportamento de cada um. Eu era muito arteiro e apanhava demais. João Paulo era o bonzinho, que adorava ajudar meu pai no trabalho dele e sempre era responsável. O Léo era o filho problema, era muito pirracento, chorava por causa de tudo, batia em todo mundo e era sempre muito nervoso. Ele também apanhava bastante. E apesar do tempo ter passado pra ele também, André continuava ser o bebê da casa.

Havia muitos lotes vagos na vizinhança, minha avó utilizava alguns deles para plantar mandioca e milho. As crianças os utilizavam para brincar de esconde-esconde e como terras de lobisomens. Pular os muros das casas para os lotes vagos era uma aventura que nem sempre terminava bem. Nossos ossos deviam ser revestidos de adamantina, era cada tombo, cada trombada, e todos saíamos ilesos. Para a maioria dos adultos esses lotes só serviam mesmo para abrigar tarados. Eu não entendia o que era tarado, mas imaginava que era um tipo de lobisomem.

Em épocas de colheita de milho, eu ia com minha tia mais nova, Adriana, e minha Avó Fina vender as dúzias de espiga no bairro da Lagoa, a mais ou menos uns quatro quilômetros da minha casa. Íamos a pé, empurrando um carrinho de mão cheio de milho e cantando, geralmente músicas de igreja. Sempre vendíamos tudo, o carrinho ficava num esquina, ao lado do que eu tenho quase certeza era um pequeno supermercado. O movimento de pessoas naquela região era enorme e por muito tempo eu achei que aquele lugar era o centro do mundo.  Voltávamos de carrinho vazio, minha avó muito satisfeita e eu dentro do carrinho sendo empurrado pela minha tia. Hoje reparo que o carrinho virava e eu caía demais, acho que havia algo proposital nisso. Mas minha tia cuidava bem de mim. Para mim não havia nada melhor que voltar do centro do mundo com a notícia de que tínhamos vendido tudo rapinho, me sentia um mercador de Veneza.

Eu não sei por que elas me levavam para vender milho, nunca perguntei. Não acho que eu me oferecia na época, eu não era espontâneo assim, acredito que elas queriam mesmo embutir em mim o espírito empreendedor. Sei que eu não era obrigado, senão eu não teria me divertido tanto com aquilo tudo.

 

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